Por que os eletrodomésticos dos nossos pais duraram mais tempo?

A competição brutal entre empresas, especialmente desde o boom do comércio eletrônico, mudou completamente a forma como produtos são fabricados

02/01/2026 08:56

Muita gente se lembra daquela geladeira dos avós que funcionou por 40 anos sem dar problema, ou do liquidificador da mãe que resistiu a décadas de uso pesado. Hoje em dia, um aspirador de pó sem fio dura menos de cinco anos e pequenos eletrodomésticos raramente passam dos nove anos, segundo a Agência Europeia do Ambiente. A cultura do descarte está dominando o mundo, com as Nações Unidas estimando que o volume de lixo eletrônico chegará a 82 milhões de toneladas até 2030, contra 62 milhões em 2022.

Muitas marcas reduziram agressivamente os preços para aumentar lucros e satisfazer acionistas
Muitas marcas reduziram agressivamente os preços para aumentar lucros e satisfazer acionistasImagem gerada por inteligência artificial

Quais fatores fazem os eletrodomésticos modernos quebrarem mais rápido?

A competição brutal entre empresas, especialmente desde o boom do comércio eletrônico, mudou completamente a forma como produtos são fabricados. Muitas marcas reduziram agressivamente os preços para aumentar lucros e satisfazer acionistas, e quando os custos são cortados sem piedade, a qualidade inevitavelmente despenca junto.

Os principais motivos que explicam por que seus aparelhos não duram tanto quanto os da geração anterior incluem mudanças significativas na indústria. Confira o que realmente aconteceu:

  • Produção transferida para países com mão de obra barata compromete qualidade quando as empresas priorizam economia extrema sobre durabilidade
  • Produtos simples ficaram excessivamente complexos com recursos eletrônicos extras que atraem consumidores aficionados por tecnologia, mas quebram facilmente
  • Componentes eletrônicos adicionais como controles de sucção em aspiradores costumam ser o primeiro ponto de falha do aparelho
  • Concorrência acirrada força fabricantes a cortarem custos em peças essenciais para oferecer preços competitivos no mercado

A obsolescência programada é real ou apenas uma teoria conspiratória?

Os mais céticos defendem que tudo isso é intencional, parte de uma estratégia que incentiva a substituição frequente através da chamada obsolescência programada. Um dos primeiros exemplos conhecidos vem da década de 1920, quando fabricantes de lâmpadas colaboraram para reduzir intencionalmente a vida útil de 2.500 horas para metade disso, garantindo que as pessoas precisassem comprar mais.

Mas essa teoria tem limitações sérias. Camilla Kraich, pesquisadora do Instituto de Engenharia Ambiental de Zurique, argumenta que se todos os produtores conspirassem contra os consumidores, seria esperado que todos os produtos tivessem vida útil reduzida no mesmo ritmo, o que não acontece. Estudos mostram que geladeiras e lava-louças mantiveram durabilidade estável, enquanto fornos e máquinas de lavar sofreram declínio significativo apenas a partir dos anos 1990 e 2000.

O que mudou na forma como produzimos e consertamos aparelhos domésticos?

Hoje, quando você compra um produto caro, não há garantia automática de que ele durará a vida toda como acontecia antigamente.

As mudanças mais profundas que explicam essa diferença gritante entre gerações envolvem tanto produção quanto consumo. Veja o que transformou completamente o mercado:

  • Custo de reparo no país onde o produto foi comprado geralmente supera o preço de substituição, tornando financeiramente irracional consertar
  • Produtos fabricados em países com mão de obra barata podem ter qualidade excelente ou péssima dependendo do que o comprador solicita
  • Complexidade crescente com eletrônicos desnecessários torna aparelhos mais propensos a danos e muito mais difíceis de consertar em casa
  • Falta de peças de reposição disponíveis e manuais técnicos acessíveis impede que consumidores façam reparos básicos sozinhos
Muitas marcas reduziram agressivamente os preços para aumentar lucros e satisfazer acionistas
Muitas marcas reduziram agressivamente os preços para aumentar lucros e satisfazer acionistasImagem gerada por inteligência artificial

Como escapar da cultura do descarte constante de eletrodomésticos?

A organização britânica ReLondon defende que os consumidores devem se interessar não apenas pela qualidade inicial, mas também pela possibilidade de reparo dos produtos antes de comprar. Um pouco de conhecimento pode fazer grande diferença e nos tornar consumidores mais inteligentes a longo prazo, quebrando o ciclo vicioso do descarte.

A legislação também pode ajudar, e a França foi pioneira com o Índice de Reparabilidade que desde 2021 classifica eletrodomésticos não só pela eficiência energética mas também pela facilidade de conserto. Mas existe um fator cultural profundo: nas décadas de 1950 e 1960, tudo era raro e caro, então as pessoas conservavam ao máximo, enquanto hoje temos mais dinheiro e os produtos são mais baratos, mudando completamente nossa relação com objetos que antes eram tratados como investimentos para a vida toda.