Pratique o Illeísmo: A técnica que Júlio César usava há 2.000 anos para tomar as melhores decisões
O ileísmo é a prática de falar ou escrever sobre si mesmo na terceira pessoa em vez de usar o "eu"
Nos seus relatos da Guerra da Gália, Júlio César não escreveu “eu atravessei o Rubicão”. Escreveu “César atravessou o Rubicão”. Essa escolha não era vaidade nem estilo literário. Era uma técnica deliberada de distanciamento que a psicologia moderna identificou e nomeou como ileísmo, e que hoje pesquisadores recomendam como uma das formas mais acessíveis de pensar com mais clareza e tomar decisões menos contaminadas pela emoção do momento.

O que é o ileísmo e de onde vem o nome?
O ileísmo é a prática de falar ou escrever sobre si mesmo na terceira pessoa em vez de usar o “eu”. Em vez de “estou ansioso com essa decisão”, a pessoa praticando o ileísmo diria ou pensaria “João está ansioso com essa decisão”. O nome vem do pronome latino “ille”, que significa “ele” ou “aquele”. Para o ouvido moderno, pode soar estranho ou até arrogante, mas a pesquisa científica aponta para um efeito muito mais sutil e útil: quando nos referimos a nós mesmos como se fôssemos outra pessoa, o cérebro processa a situação com menos carga emocional imediata.
Júlio César foi um dos primeiros registros conhecidos dessa prática. Nas passagens dos seus “Comentários sobre a Guerra da Gália”, ele sistematicamente substituía o pronome pessoal pelo próprio nome, criando uma narrativa que soava como relato de um observador neutro, não de um participante emocionalmente envolvido. A historiadora Mary Beard, em seu livro SPQR, analisa que esse estilo ajudava César a se apresentar como um líder racional e inquestionável, alguém cujas ações pareciam fatos históricos antes mesmo de se tornarem história.
O que a ciência diz sobre falar de si mesmo na terceira pessoa?
O professor de psicologia Ethan Kross, da Universidade de Michigan, investigou o ileísmo como fenômeno cognitivo e concluiu que pessoas que utilizam essa técnica lidam melhor com o estresse e tomam decisões mais equilibradas. No seu livro “Chatter: Why the Voice in Your Head Matters”, Kross descreve o mecanismo como “distanciamento psicológico”: ao nos afastarmos do turbilhão emocional de uma situação, conseguimos enxergá-la com mais objetividade, como se estivéssemos aconselhando outra pessoa.
Esse mecanismo está diretamente ligado ao que o pesquisador Igor Grossmann chamou de paradoxo de Salomão. O nome vem do rei bíblico famoso por aconselhar os outros com sabedoria, mas que tomou uma série de decisões pessoais desastrosas ao longo da vida. Grossmann identificou que as pessoas tendem a raciocinar com muito mais clareza sobre os problemas dos outros do que sobre os seus próprios. Quando um amigo pede conselho, avaliamos a situação com distância e equilíbrio. Quando somos nós no centro do problema, as emoções turvam o julgamento. O ileísmo quebra esse padrão ao criar artificialmente a mesma distância dentro do próprio diálogo interno.
Como o ileísmo funciona na prática do dia a dia?
A aplicação mais direta é no diálogo interno, aquela conversa silenciosa que o cérebro mantém consigo mesmo o tempo todo. Antes de tomar uma decisão importante, em vez de perguntar “o que eu devo fazer?”, a pessoa que pratica o ileísmo pergunta “o que [nome] deve fazer?”. A troca parece mínima, mas o efeito sobre o processamento mental é mensurável. Estudos de Kross mostram que o simples ato de substituir o “eu” pelo nome próprio no diálogo interno reduz a ruminação e diminui a intensidade da resposta ao estresse.
- Ao processar um conflito: substitua “eu estou com raiva de X” por “[seu nome] está com raiva de X” e observe se a intensidade emocional muda.
- Antes de uma decisão difícil: escreva o dilema em terceira pessoa, como se estivesse descrevendo a situação de um amigo.
- Após um erro: em vez de “eu falhei”, tente “[seu nome] cometeu um erro. O que ele pode aprender com isso?”
- Em situações de ansiedade: nomear o estado emocional em terceira pessoa ajuda a criar distância entre o observador e a emoção observada.

Por que o ileísmo não é sinal de vaidade ou arrogância?
A associação negativa com o ileísmo vem de celebridades e políticos que usaram a técnica de forma ostensiva em público, o que criou a impressão de que se trata de afetação ou egocentrismo. Mas a prática recomendada pelos pesquisadores é diferente: acontece no diálogo interno, no diário pessoal ou na reflexão escrita, não em conversas com outras pessoas. É uma ferramenta de autorregulação emocional, não de performance.
O que diferencia o uso produtivo do ileísmo do simples exibicionismo é a intenção. Júlio César usava a técnica para se distanciar das suas próprias narrativas de guerra e criar a clareza estratégica que o cargo exigia. Xenofonte fez o mesmo em sua “Anábase”, descrevendo suas próprias ações militares como se fosse um personagem distante, o que tornava seu relato mais credível e menos contaminado pela perspectiva de quem estava no centro dos acontecimentos.
Quem mais ao longo da história praticou o ileísmo?
César e Xenofonte não foram casos isolados. Ao longo da história, líderes, filósofos e escritores recorreram ao mesmo recurso para ganhar objetividade sobre si mesmos. O presidente americano Bob Dole era conhecido por usar o próprio nome em vez do pronome pessoal. LeBron James, em sua declaração pública sobre a saída do Cleveland Cavaliers em 2010, se referiu a si mesmo repetidamente na terceira pessoa, o que foi interpretado como arrogância pelo público, mas pode ter sido uma forma de processar uma decisão emocionalmente carregada sem deixar que as emoções dominassem o discurso.
Como começar a praticar o ileísmo de forma consistente?
A forma mais simples de introduzir o ileísmo na rotina é pelo diário escrito. Reservar alguns minutos ao final do dia para registrar os eventos mais importantes, as decisões tomadas e os desafios enfrentados em terceira pessoa cria o hábito de observar a própria vida com mais distância. Com o tempo, esse padrão começa a migrar naturalmente para o diálogo interno, tornando-se uma ferramenta disponível nas situações de maior pressão emocional.
A pesquisa de Ethan Kross sugere que não é necessário praticar o ileísmo o tempo todo para colher os benefícios. Basta recorrer à técnica nos momentos em que as emoções estão mais intensas e o risco de uma decisão impulsiva é maior. Nesses momentos, trocar o “eu” pelo próprio nome no pensamento interno é o equivalente moderno do que Júlio César fazia ao relatar suas campanhas militares: criar distância suficiente entre quem sente e quem decide, para que a emoção informe, mas não domine.