Todos os anos, na Islândia, há pessoas que atiram aves ameaçadas de extinção de penhascos para o mar e, embora a cena seja chocante, é uma das maneiras mais eficazes de salvá-las
O perigo fatal escondido nas luzes da cidade
Entre o final do verão e o início do outono, um fenômeno pouco conhecido ganha força em algumas regiões costeiras do Atlântico Norte, quando moradores saem à noite com lanternas e caixas de papelão para resgatar filhotes de papagaio-do-mar, também chamados de pufflings, que se perdem nas cidades por causa da poluição luminosa e acabam impedidos de chegar sozinhos ao mar aberto.

O que é o papagaio-do-mar e por que seus filhotes se chamam pufflings?
O papagaio-do-mar, ou puffin atlântico, é uma das aves marinhas mais simbólicas do planeta, conhecida pelo bico colorido e pela vida em falésias. Seus filhotes recebem o nome de pufflings, termo em inglês usado somente para essa espécie, de forma parecida com “cãozinho” ou “gatinho”.
Apesar do nome popular, essa ave não possui parentesco com os papagaios que conhecemos, sendo na verdade uma espécie marinha adaptada a condições extremas. No vídeo abaixo, o canal @ANIMALTV explora as características únicas do papagaio-do-mar, desde o seu bico colorido — que atua como um sinalizador de saúde durante a reprodução — até a sua incrível habilidade de mergulho.
Por que tantos filhotes de papagaio-do-mar se perdem nas áreas urbanas?
A biologia do papagaio-do-mar está intimamente ligada à forma como a espécie interage com o ambiente. O filhote é guiado instintivamente pela fonte de luz mais intensa no horizonte — que, na natureza, é o brilho da lua sobre o oceano —, mas a iluminação artificial de postes e portos em áreas habitadas acaba confundindo esse mecanismo de orientação.
Quando um puffling cai em ruas ou estacionamentos, surge outro problema importante. Adaptado para saltar de falésias, o papagaio-do-mar não consegue levantar voo com facilidade a partir do solo plano e fica preso entre paredes e carros, ficando exposto a atropelamentos, desidratação e ataques de cães ou gatos.
Como funciona o resgate comunitário de papagaios-do-mar nas cidades costeiras?
Em ilhas como Vestman, na Islândia, a situação levou ao surgimento de uma prática comunitária que mistura tradição e ciência. Moradores e voluntários saem à noite para procurar pufflings desorientados, recolhendo as aves com cuidado e colocando-as em caixas ventiladas até o amanhecer.
Esse trabalho segue algumas etapas simples que ajudam a aumentar a sobrevivência dos filhotes e ainda geram dados para conservação. A seguir estão algumas ações comuns realizadas pelas equipes locais.
- Coleta noturna: busca ativa por aves desorientadas nas áreas urbanizadas.
- Cuidados básicos: verificação de ferimentos, descanso e proteção contra predadores.
- Liberação ao amanhecer: lançamento a partir de encostas para facilitar o voo até o mar.
Como esse resgate ajuda na conservação do papagaio-do-mar e de outros animais marinhos?
Com o tempo, o resgate de pufflings passou a fazer parte de projetos de ciência cidadã. Em muitas comunidades, os filhotes são pesados, medidos e marcados, permitindo acompanhar o estado da população, as taxas de sobrevivência e as rotas migratórias dessa ave marinha classificada como vulnerável.
Além de salvar indivíduos, a prática fortalece o monitoramento de longo prazo e o engajamento social. Essas ações comunitárias geram benefícios que vão além do papagaio-do-mar, influenciando políticas públicas e proteção de outros animais marinhos.
- Monitoramento de longo prazo: dados coletados por moradores complementam estudos científicos.
- Engajamento social: crianças e adultos entendem melhor o ciclo de vida das espécies costeiras.
- Apoio à conservação: informações ajudam a justificar áreas marinhas protegidas e manejo pesqueiro.

O que ainda precisa mudar para reduzir a poluição luminosa e proteger o papagaio-do-mar?
Embora o resgate de pufflings salve muitas aves a cada temporada, especialistas lembram que essa é uma solução apenas parcial. A conservação do papagaio-do-mar depende de reduzir a poluição luminosa costeira, melhorar o manejo da pesca, proteger estoques de peixes e acompanhar os efeitos do aquecimento dos oceanos.
A luz artificial noturna também afeta tartarugas marinhas, peixes, invertebrados, morcegos, corujas e mariposas, alterando migrações, alimentação e reprodução. Nesse cenário, lançar um papagaio-do-mar do alto de um penhasco deixa de ser um gesto estranho e se torna uma forma concreta de corrigir parte do impacto humano para que o ciclo natural possa continuar.