Folclore brasileiro inspira games em maratona mundial

Uma guerreira índia (Yeti) e um velho xamã (Kimaro) foram capturados por portugueses e colocados na prisão. Sem armas para lutar, o único jeito de escapar do local é desvendar as charadas sonoras do ambiente para destrancar as portas. É preciso, ainda, fugir do terrível monstro Mapinguary.

O enredo inusitado que abarca a saga de dois índios para fugir da prisão faz parte do game Yeti Wetiasami, que quer dizer “Eu escuto Yeti escapando”, criado por um dos sete grupos que trabalharam 48 horas ininterruptas durante o último final de semana no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos (SP). O local foi uma das 518 sedes da Global Game Jam, uma jornada mundial de criação de jogos.

Da argila para o computador: Yeti é uma das protagonistas de um dos games criados durante a maratona

A maratona começou no fim de tarde da penúltima sexta-feira, dia 23, quando foi revelado o tema do evento: o que nós faremos agora? Os 35 participantes que ficaram alojados no ICMC debateram a proposta em conjunto e, depois, dividiram-se em equipes.

“O mais interessante dessa jornada é aprender a construir um projeto e colocá-lo para funcionar em apenas 48 horas, além de todo o aprendizado que temos com a troca de conhecimento entre os participantes”, conta um dos organizadores do evento no ICMC, Leonardo Pereira, que é aluno do curso de Ciências de Computação no Instituto.

Pereira é também o coordenador geral do Fellowship of the Game (FoG), um grupo formado por alunos de graduação da USP em São Carlos focado na criação de jogos eletrônicos divertidos, de código aberto e multiplataforma.

A próxima jornada já tem data marcada: acontece de 29 a 31 de janeiro de 2016

Desde a primeira edição global do evento, que aconteceu em 2009, o FoG promove a atividade no ICMC.

Já a equipe de Rafael Gallo, que também cursa Ciências de Computação no ICMC, criou o game “Momenta”. Rafael e seus três colegas construíram o enredo de um astronauta, que está fora de sua nave espacial, com o oxigênio acabando. A única chance de sobreviver, nesse caso, é aproveitar o último impulso disponível para retornar à nave, usando os obstáculos que encontra pelo caminho a seu favor.

Música, arte e antropologia

Quem imagina que a criação de um jogo envolve apenas a participação de cientistas de computação está enganado. A história da criação do game “Yeti Wetiasami” ajuda a mostrar o quanto é positiva a formação de equipes multidisciplinares.

O terrível monstro Mapinguary, criado pelo artista Felipe Gullo

O game é resultado da união de 13 membros: três programadores, três artistas 3D, um artista 2D, dois designers de game, dois músicos, um antropólogo e um escultor. O programador líder da equipe, Kleber Andrade, que faz doutorado na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), conta que a equipe foi formada com antecedência, via Facebook. Mas como, no dia do evento, faltaram três membros eles angariaram mais três pessoas para compor a equipe na sexta-feira.

“Foi uma jornada de aprendizado. Mesmo quem já sabe fazer um game ganha muito quando está em uma equipe multidisciplinar, porque passa a ver outras formas de solucionar os desafios que se apresentam”, revela Andrade. Para organizar o trabalho, os 13 se subdividiram em quatro grandes áreas: áudio, arte, design e programação. Foram criadas 10 trilhas sonoras para o game e duas esculturas pelas mãos do artista Felipe Gullo: a da guerreira Yeti e a do monstro Mapinguary.

No site da Global Game Jam, a história de Yeti, Kimaro e Mapinguary –que evoca o folclore tucano e tupi– soma-se às narrativas dos mais de 5 mil games criados simultaneamente no final de semana em todo o mundo, mostrando a diversidade das culturas de todos os povos.

Os jogos criados durante a jornada no ICMC estão disponíveis no site.

Por Agência USP