Como a boca pode indicar risco de Alzheimer? Estudo explica!

A ciência começa a desvendar como a saúde bucal pode afetar diretamente a memória, a atenção e a cognição com o envelhecimento

31/03/2025 05:31

A relação entre a saúde bucal e o cérebro pode ser mais profunda do que se imaginava. Pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, descobriram que bactérias presentes na boca podem influenciar a função cerebral à medida que envelhecemos, podendo até elevar o risco de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

Como a boca pode indicar risco de Alzheimer? Estudo explica!
Como a boca pode indicar risco de Alzheimer? Estudo explica! - iStock/Marina Demeshko

O estudo e seus participantes

A pesquisa, publicada na revista científica PNAS Nexus, analisou amostras de bochecho de 110 voluntários com idade superior a 50 anos. Os participantes foram divididos em dois grupos: um com indivíduos que mantinham a função cognitiva preservada e outro composto por pessoas com comprometimento cognitivo leve.

Os cientistas identificaram que a composição bacteriana da boca estava diretamente relacionada ao desempenho cognitivo. Enquanto algumas bactérias pareciam ter um efeito benéfico sobre a memória e a atenção, outras mostraram associação com o declínio das funções cerebrais.

Como as bactérias orais podem afetar o cérebro?

Os pesquisadores levantaram duas hipóteses principais para explicar como as bactérias da boca podem impactar a saúde cerebral:

  • Entrada na corrente sanguínea: Bactérias prejudiciais podem migrar para o sangue e desencadear processos inflamatórios que danificam o cérebro.
  • Desequilíbrio microbiano e redução do óxido nítrico: Algumas bactérias desempenham um papel na produção de óxido nítrico, substância essencial para a comunicação entre neurônios e a formação de memórias. Um desequilíbrio entre microrganismos benéficos e nocivos pode levar à diminuição dessa substância, prejudicando o funcionamento cerebral.
The woman with a virus herpes on lips.
The woman with a virus herpes on lips. - iStock/Emir Hoyman

As bactérias associadas ao Alzheimer

Os cientistas identificaram grupos específicos de bactérias que estavam associadas a um melhor desempenho cognitivo e outras ligadas ao aumento do risco de Alzheimer.

  • Bactérias benéficas: Neisseria e Haemophilus foram associadas a uma maior presença de nitrito na boca e a melhores resultados em testes de memória e atenção.
  • Bactérias prejudiciais: A presença elevada da bactéria Porphyromonas foi correlacionada com problemas de memória. Além disso, altos níveis de Prevotella estavam ligados à redução de nitrito e à maior expressão do gene APOE4, um dos principais fatores de risco genético para o Alzheimer.
Exames odontológicos podem se tornar aliados na detecção precoce de problemas cognitivos, segundo um novo estudo
Exames odontológicos podem se tornar aliados na detecção precoce de problemas cognitivos, segundo um novo estudo - iStock/Emir Hoyman

Saúde bucal como estratégia de prevenção

Os achados da pesquisa sugerem que manter a saúde bucal em dia pode ser um fator relevante na prevenção de doenças neurodegenerativas.

Joanna L’Heureux, autora principal do estudo, destaca a possibilidade de exames odontológicos ajudarem a detectar sinais precoces de declínio cognitivo. “Nossas descobertas sugerem que certas bactérias podem impactar negativamente a saúde do cérebro. Isso abre caminho para testes de rotina na odontologia para monitorar os níveis bacterianos e identificar riscos mais cedo”, afirma.

A médica Anne Corbett, coautora da pesquisa, reforça a importância dos resultados. “Se algumas bactérias podem proteger a função cerebral enquanto outras contribuem para o declínio, desenvolver estratégias para equilibrar o microbioma oral pode ser uma forma eficaz de reduzir o risco de demência”, explica.

Esse estudo amplia o entendimento sobre os impactos da saúde bucal no organismo e pode abrir portas para novas abordagens na prevenção do Alzheimer.