Manobras de desengasgo em crianças e adultos têm novas diretrizes
Mudanças representam um avanço importante na forma de abordar situações que evoluem em questão de segundos
Entrou em vigor as novas recomendações internacionais sobre como agir em casos de engasgo — prática popularmente associada à tradicional Manobra de Heimlich. As diretrizes mudam pontos essenciais do atendimento de emergência e vêm chamando a atenção de especialistas, sobretudo pela relevância do tema.
Só em 2023, mais de 2 mil brasileiros morreram por obstrução das vias aéreas, segundo dados do Ministério da Saúde.

Entre as principais mudanças anunciadas está a forma de agir em casos de engasgo com obstrução das vias aéreas, tanto em bebês e crianças quanto em adultos conscientes.
As novas diretrizes foram divulgadas pela revista científica “Circulation” e atualizam as recomendações de 2020, que marcaram a última grande revisão. A responsabilidade pela definição desses protocolos, seguidos em cursos de primeiros socorros em todo o mundo, é da American Heart Association (AHA).
Para o otorrinolaringologista Gilberto Pizarro, do Hospital Paulista, as mudanças representam um avanço importante na forma de abordar situações que evoluem em questão de segundos.
“Por muitos anos, a manobra de Heimlich foi tratada como ‘o passo principal’. Agora, a recomendação é mais abrangente e dá prioridade a uma sequência que aumenta a segurança tanto da vítima quanto de quem presta socorro”, explica.
O que mudou, afinal?
Entre os principais ajustes do novo protocolo, estão:
• Uso mais criterioso do Heimlich
A manobra de Heimlich deixa de ser o primeiro recurso universal e passa a ser indicada apenas quando as pancadas nas costas não forem eficazes, ou quando houver sinais claros de obstrução total persistente. O novo protocolo estimula uma avaliação rápida da situação antes de partir diretamente para as compressões abdominais.
• Pancadas nas costas com técnica específica para cada faixa etária
O protocolo reforça a importância das pancadas interescapulares, porém com técnicas distintas para adultos e crianças.
- Adultos: socorrista fica atrás da vítima, inclina levemente o tronco para frente e aplica cinco pancadas vigorosas na região entre as escápulas.
- Crianças pequenas: a criança é posicionada de bruços sobre o antebraço do socorrista, com a cabeça levemente mais baixa que o tronco; então são dadas cinco pancadas firmes, porém controladas, na mesma região.
• Novas orientações específicas para crianças pequenas
As diretrizes reforçam que bebês e crianças pequenas têm riscos anatômicos diferentes e exigem técnicas próprias, evitando compressões abdominais em menores de um ano.
• Ênfase no reconhecimento rápido da obstrução total ou parcial
A atualização destaca sinais como incapacidade de falar, tosse ineficaz, cianose e ausência de entrada de ar — fundamentais para definir qual manobra deve ser adotada.
• Instruções mais claras para vítimas que estão sozinhas
O protocolo atual detalha formas seguras de tentar desobstruir as vias aéreas sem ajuda, incluindo o uso do encosto de uma cadeira ou da borda de uma superfície rígida para aplicar pressão controlada na região superior do abdômen — técnica já incorporada ao manual emergencial.
Segundo o otorrinolaringologista Gilberto Pizarro, essas mudanças tornam o atendimento mais seguro e reduzem riscos associados à aplicação inadequada da manobra. “A atualização traz um protocolo mais didático e, ao mesmo tempo, mais eficaz. É um passo essencial para que leigos e profissionais possam agir com precisão”, afirma.
Ação voluntária
Em novembro, o Hospital Paulista aplicou pela primeira vez o novo protocolo em um treinamento oferecido a aproximadamente 60 colaboradores do Hilton São Paulo Morumbi, abrangendo equipes de cozinha, restaurante, recepção, segurança, RH e áreas administrativas.
O treinamento, conduzido pelos médicos Dr. Gilberto Pizarro e Dra. Luciana Fernandes, incluiu simulações práticas em manequins adulto e infantil, demonstração das técnicas atualizadas de desengasgo e orientações de prevenção — especialmente para crianças e idosos, que concentram a maior parte dos casos no país.
Segundo Pizarro, essa aproximação com equipes que lidam diariamente com o público amplia de forma real o impacto da atualização. “De nada adianta um novo protocolo se ele não chega a quem está na linha de frente. Ver profissionais de hotelaria aprendendo a agir diante de um engasgo é, de fato, salvar vidas antes que a emergência aconteça”, destaca.