Parassocial: O que a ‘palavra do ano’ diz sobre as relações sociais em 2026?
A conexão virtual unilateral com pessoas distantes ou até com IAs tende a crescer cada vez mais, evoluir para casos de stalker ou afetar a saúde mental
Você abre a rede social, acompanha a rotina de um artista, comemora suas conquistas e cria a sensação de conhecê-lo de perto. Quando surge uma notícia inesperada, como um noivado ou uma mudança de carreira, a reação costuma ser emocional, quase pessoal.
Esse tipo de vínculo tem nome e ganhou projeção internacional. Parassocial foi eleita a palavra do ano de 2025 pelo Dicionário de Cambridge e ajuda a entender mudanças significativas nas relações unilaterais com figuras públicas ou IAs, popularizada por Taylor Swift, em 2026.

De onde veio esse termo? Apesar de parecer bastante atual, o conceito-base é antigo. A ideia de relação parassocial foi apresentada em 1956 pelo psicólogo Donald Horton e pelo sociólogo Richard Wohl para descrever a sensação de intimidade que o público desenvolve com figuras da mídia, mesmo sem reciprocidade real.
O que mudou nas últimas décadas foi a escala e a intensidade desse fenômeno, impulsionadas pelas redes sociais, pelo consumo constante de conteúdo e pela presença crescente de influenciadores, celebridades e até inteligências artificiais no cotidiano.
Parassocial em 2025
O interesse pelo termo disparou em agosto de 2025, após o anúncio do noivado da cantora Taylor Swift com o jogador Travis Kelce. Milhares de fãs buscaram entender por que a notícia provocou reações emocionais tão intensas, revelando como essas conexões unilaterais podem afetar a percepção de vínculo, pertencimento e até identidade.
Para o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela (MRSB/P014917), autor de um estudo sobre o excesso de uso das redes sociais, esse tipo de relação não é apenas um fenômeno social, mas também cerebral. “O cérebro humano não foi projetado para diferenciar com precisão vínculos reais de vínculos simbólicos quando há repetição, emoção e identificação. As mesmas áreas ativadas em relações presenciais, como o sistema límbico e circuitos de recompensa, também entram em ação nas relações parassociais”, explica.
De acordo com o neurocientista, a exposição contínua a conteúdos pessoais de figuras públicas cria a ilusão de proximidade. “Quando alguém acompanha diariamente a vida de um artista, o cérebro passa a registrar aquele rosto e aquela voz como familiares. Há liberação de dopamina e oxitocina associadas à sensação de conexão, mesmo sem troca real”, afirma Fabiano.
Esse mecanismo ajuda a entender por que as relações parassociais tendem a se intensificar em períodos de maior isolamento social ou fragilidade emocional. Em um cenário marcado por rotinas aceleradas, solidão urbana e relações cada vez mais mediadas por telas, esses vínculos funcionam como uma espécie de compensação afetiva. O problema surge quando o cérebro passa a substituir relações recíprocas por conexões unilaterais.
“A relação parassocial, quando exagerada, pode gerar frustração, ansiedade e dificuldade de lidar com limites. O cérebro cria expectativas de reciprocidade que nunca serão atendidas, o que pode ativar circuitos de estresse e sensação de rejeição”, alerta o médico.
Relações parassociais em 2026
Em 2026, este debate ganha mais uma nova camada com a popularização de inteligências artificiais conversacionais e avatares digitais. Para o especialista, o risco é ainda maior.
“Quando a interação envolve IAs que respondem, elogiam e se adaptam ao usuário, o cérebro pode reforçar ainda mais a ilusão de vínculo. Isso aumenta o risco de dependência emocional e de retração social”, pontua.
O neurocientista também chama atenção para a linha tênue entre admiração saudável e comportamento disfuncional. “Em alguns casos específicos, a relação parassocial pode evoluir para obsessão ou stalking, especialmente em indivíduos com fragilidade emocional prévia ou dificuldade de estabelecer vínculos reais”, explica Fabiano.