Um estudo afirma que os cabelos grisalhos podem ser reversíveis

A cor do cabelo é produzida por células chamadas melanócitos

19/02/2026 16:45

Para muita gente, o primeiro fio branco que aparece no espelho traz uma mistura de surpresa e resignação, como se o corpo tivesse dado um aviso que não tem volta. Durante décadas, a ciência confirmou essa sensação: cabelos grisalhos eram considerados irreversíveis, resultado inevitável do envelhecimento sem nenhuma possibilidade real de reversão. Mas uma pesquisa publicada na revista científica Nature pela equipe da NYU Grossman School of Medicine mudou essa narrativa de forma significativa, ao descobrir que o mecanismo por trás do embranquecimento dos fios é muito mais dinâmico do que se imaginava, e que essa dinâmica abre uma porta real para tratamentos futuros.

O problema começa quando essas células-tronco perdem a capacidade de se mover entre os compartimentos do folículo
O problema começa quando essas células-tronco perdem a capacidade de se mover entre os compartimentos do folículoImagem gerada por inteligência artificial

O que causa o embranquecimento dos cabelos, segundo a ciência?

A cor do cabelo é produzida por células chamadas melanócitos, que ficam dentro dos folículos capilares e são responsáveis por liberar melanina, o pigmento que dá cor aos fios. Essas células maduras se originam a partir de células-tronco chamadas células-tronco melanocíticas, ou McSCs, que ficam em estado de espera dentro do folículo e só recebem o sinal para amadurecer e produzir pigmento no momento certo do ciclo de crescimento do fio. Quando esse processo funciona normalmente, cada novo fio que cresce sai com cor. Quando algo falha nesse mecanismo, o fio cresce saudável, mas sem pigmentação, surgindo branco ou grisalho.

O que o estudo da NYU revelou é que as células-tronco melanocíticas não se comportam como a maioria das outras células-tronco do corpo. Em vez de seguir um caminho único e unidirecional de amadurecimento, elas se movem continuamente entre dois compartimentos do folículo capilar, o bulge e o germe capilar, alternando entre estados mais primitivos e mais maduros dependendo do ambiente onde se encontram. Essa capacidade de ir e voltar ao longo do ciclo de crescimento é o que mantém o sistema de pigmentação funcionando ao longo dos anos.

O que acontece com as células-tronco que faz o cabelo ficar branco?

O problema começa quando essas células-tronco perdem a capacidade de se mover entre os compartimentos do folículo. Com o envelhecimento, uma quantidade crescente de McSCs fica presa no bulge, a região de segurança do folículo, sem conseguir migrar até o germe capilar, onde receberia os sinais químicos, especialmente as proteínas WNT, que ativam a produção de melanina. Sem esse sinal, as células permanecem imaturas e incapazes de produzir pigmento, e o fio cresce sem cor.

Os pesquisadores demonstraram isso de forma direta em experimentos com camundongos. Antes de forçar o envelhecimento dos folículos pelo arrancamento e crescimento repetido dos fios, apenas 15% dos folículos analisados tinham McSCs presas no bulge. Após o processo de envelhecimento acelerado, esse número saltou para quase 50%, confirmando que o acúmulo de células-tronco imóveis é um marcador direto do avanço do embranquecimento. As células continuavam vivas e presentes no folículo, mas haviam perdido a mobilidade que as tornava funcionais.

Por que essa descoberta abre a possibilidade de reversão dos fios brancos?

A conclusão mais animadora do estudo está justamente no fato de que as células-tronco melanocíticas não desaparecem logo de início. Elas ficam presas, não mortas. Enquanto essas células ainda estiverem presentes no folículo, existe a possibilidade teórica de restaurar sua mobilidade e, com isso, retomar a produção de pigmento. Os pesquisadores identificaram dois caminhos possíveis para explorar em estudos futuros, que são:

  • Restaurar a mobilidade das McSCs presas: desenvolver formas de estimular as células-tronco que ficaram imóveis no bulge a retomar o movimento entre os compartimentos do folículo, permitindo que voltem a receber os sinais WNT e se diferenciem em melanócitos produtores de pigmento. A pesquisadora sênior do estudo, Dra. Mayumi Ito, afirmou que a equipe planeja investigar métodos para restaurar essa mobilidade.
  • Fortalecer os sinais do germe capilar: outra abordagem seria tornar o germe capilar mais atrativo para as células-tronco, intensificando os sinais químicos que convocam as McSCs para esse compartimento e ativam o processo de pigmentação, sem interferir no funcionamento geral do folículo.
O problema começa quando essas células-tronco perdem a capacidade de se mover entre os compartimentos do folículo
O problema começa quando essas células-tronco perdem a capacidade de se mover entre os compartimentos do folículoImagem gerada por inteligência artificial

Esse tratamento já existe ou ainda está em desenvolvimento?

Os próprios pesquisadores foram cuidadosos em deixar claro que o estudo representa um mapa do mecanismo, não uma cura disponível. Não existe ainda nenhum tratamento aprovado baseado nessa descoberta, e os experimentos foram realizados em camundongos, o que significa que estudos em humanos ainda precisam confirmar se o mesmo padrão de comportamento das células-tronco ocorre nos folículos humanos da mesma forma. O lead investigator do estudo, Dr. Qi Sun, afirmou que os mecanismos descobertos levantam a possibilidade de que o mesmo posicionamento fixo das McSCs possa existir em humanos, mas isso ainda precisa ser verificado em pesquisas futuras.

O que torna essa pesquisa relevante além da promessa cosmética é o que ela revela sobre o funcionamento das células-tronco de forma mais ampla. As McSCs apresentam um comportamento de dedifferenciação, ou seja, a capacidade de voltar a um estado menos maduro após já ter avançado no processo de maturação, algo que não havia sido descrito em outros sistemas de células-tronco do corpo. Entender esse mecanismo tem implicações que vão além dos cabelos brancos, abrindo caminhos para pesquisas sobre envelhecimento celular, regeneração de tecidos e até câncer.