Yoga para Todes: O movimento que está tornando o autocuidado um direito (e não um privilégio) em SP

O projeto Yoga para Todes subverte a lógica do corpo padrão e ocupa as ruas e periferias para provar que o autocuidado é um direito de todos em SP

23/03/2026 12:27

Se você fechar os olhos e pensar em yoga, a primeira imagem que surge é, provavelmente, a de uma pessoa branca, magra e dentro de um padrão estético de revista, praticando em um estúdio minimalista de um bairro nobre. Essa representação, no entanto, é exatamente o que o coletivo Yoga para Todes busca desconstruir diariamente no asfalto de São Paulo.

Liderado pela instrutora e militante Vanessa Joda, o projeto não se resume a uma aula de posturas físicas, mas se configura como um manifesto político pela ocupação de corpos dissidentes em espaços de cuidado e autoconhecimento.

Através de uma prática que une a filosofia milenar a princípios anarquistas, o movimento subverte a lógica do corpo padrão e questiona a exclusividade do bem-estar na sociedade contemporânea.

O resgate da essência inclusiva da Yoga

Para entender a importância do projeto, é preciso olhar para a história da própria yoga. Vanessa explica que a Hatha Yoga, praticada amplamente hoje, surgiu do movimento do tantrismo na Índia como uma forma de contracultura à era védica. Naquele período, a prática era extremamente conservadora e restrita apenas a homens das castas mais altas, os “nobres” da época.

Foi somente com a influência do tantrismo que mulheres e outros corpos começaram a ser incluídos na filosofia. No entanto, ao chegar no Ocidente, a prática foi novamente elitizada. “Yoga é uma prática elitista, não tem como, até hoje é”, afirma Vanessa, lembrando relatos de moradores da periferia que enxergam a yoga como algo restrito à “patroa da patroa”.

Do Burnout ao despertar do próprio corpo

A história do coletivo confunde-se com a trajetória de sua fundadora, que trabalhou por quase vinte anos no setor de Comércio Exterior. Em um ambiente de altíssima pressão e cobrança, Vanessa enfrentou um quadro severo de burnout e síndrome do pânico, o que a levou a buscar na yoga um caminho de cura.

Natural de Santo André e vinda de uma criação marcada por disparidades de gênero e controle doméstico, ela lidou durante décadas com a gordofobia, dietas restritivas e o vício em anfetaminas antes de finalmente “reabitar” o próprio corpo.

Ao decidir tornar-se instrutora, deparou-se com a barreira do elitismo no ensino, encontrando cursos de formação caríssimos e turmas sem qualquer diversidade, o que a motivou a fundar, em 2016, o Yoga para Todes.

Vanessa relata que o estigma social ainda é o maior obstáculo para corpos como o dela:

“Ser uma pessoa gorda dentro da atividade física é muito difícil porque eu não sou validada. Existe esse estigma de que a pessoa gorda é preguiçosa, de que se ela não consegue cuidar nem do corpo dela, imagina da vida e do trabalho. Botam um fator de caráter nisso também, de competência”.

Ocupando as praças e as periferias

A atuação do projeto rompeu as paredes dos estúdios tradicionais para ocupar espaços onde o autocuidado raramente chega, como as Praças Roosevelt, da Sé e da República. Nessas ocupações, as aulas atraíam desde jovens até a população em situação de rua, unindo a prática física ao suporte humanitário, com momentos de escuta ativa e distribuição de lanches.

Vanessa expandiu essa frente para comunidades como Guaianases e o Jardim Peri, adaptando as técnicas para a realidade exaustiva de mães solo e jovens egressos do sistema socioeducativo.

Sobre a falta de representatividade em espaços tradicionais, a fundadora relembra um episódio marcante em uma aula aberta no SESC:

“Eu olhei aquela multidão e não tinha uma pessoa preta, não tinha uma pessoa com deficiência. Eu já subi falando: ‘Gente, olha, yoga é uma filosofia de inclusão… eu queria que vocês olhassem para o lado e contassem quantas pessoas gordas tem aqui além de mim?’. É inclusivo para quem isso? Quem que a gente está incluindo na yoga?”.

Democratização e resistência no tapetinho

Atualmente, o Yoga para Todes opera sob um modelo de democratização financeira para garantir que o acesso ao bem-estar não seja um privilégio restrito a quem pode pagar as “pequenas fortunas” cobradas por estúdios padrão. O coletivo trabalha com um sistema de contribuição sugerida, no qual o aluno paga o que cabe no seu orçamento ou participa de forma totalmente gratuita caso não disponha de recursos no momento.

Para Vanessa Joda, a lógica é clara: “dinheiro não pode ser impeditivo da pessoa praticar yoga”. Essa filosofia de cuidado coletivo reflete a crença de que a saúde e a presença são direitos de todos os corpos, independentemente de sua condição financeira ou história de vida. “Eu tento fazer isso com muito amor, dedicação, respeito e escuta ativa. Se uma pessoa não está bem, nenhuma está”, afirma a idealizadora.

Para quem deseja ocupar esses espaços de cuidado e resistência, as práticas presenciais estão de volta em dois endereços na capital paulista: na Casa do Povo (Rua Três Rios, 252), com turmas às terças e quintas, às 10h e 20h; e na Casa Movimento (Rua do Arouche, 133), às quartas-feiras, às 10h e 19h.

Além disso, o projeto mantém a força de sua comunidade digital através de aulas via Zoom, com grades às terças e quintas (10h e 20h), quartas (8h, 10h e 19h) e sextas-feiras (8h), garantindo que a yoga continue sendo uma ferramenta de autonomia e acolhimento para todos os corpos.