O mundo é delas: a nova era das mulheres que viajam juntas por irmandade e segurança
Projeto criado por jovem brasileira transforma viagens em experiências coletivas de apoio, coragem e descoberta entre mulheres
A ideia de criar uma comunidade de mulheres viajantes começou a nascer a partir de uma experiência pessoal. Aos 18 anos, Rayane participou de uma viagem em grupo com outras mulheres para o México. Era sua primeira viagem internacional sozinha e também o primeiro contato com a experiência de mochilar.
O impacto foi imediato. Ao conviver durante dias com mulheres de diferentes lugares e histórias de vida, ela percebeu que aquela vivência coletiva tinha algo especial. “Eu tive contato com meninas de vários estados diferentes, em vários momentos da vida. E ali eu pensei: um dia eu quero trabalhar com isso”, conta. A experiência despertou um desejo que ficaria guardado por alguns anos: criar algo que permitisse a outras mulheres viverem a mesma sensação de liberdade, conexão e descoberta.

Pouco tempo depois da viagem, Rayane iniciou a faculdade de jornalismo. Apesar de se dedicar aos estudos, a vontade de viajar continuava presente. Com a chegada da pandemia, a rotina mudou completamente e ela começou a repensar seus planos.
Durante esse período, criou um brechó online para vender roupas e acabou transformando a iniciativa em um pequeno negócio. Ao mesmo tempo, refletia sobre o que realmente queria fazer.
“Eu percebi que nunca quis ir para outro país para estudar. O que eu queria era viajar, conhecer culturas diferentes e ter contato com pessoas de outros mundos”, explica.
Foi então que decidiu colocar esse desejo em prática. Com uma passagem barata remarcada, uma mochila nas costas e cerca de três mil reais, saiu do Brasil rumo à Argentina para fazer um voluntariado. “Eu saí com uma mala nas costas e um dinheiro bem limitado para viver por tempo indeterminado mochilando”, relembra.
A experiência que virou projeto
Os primeiros meses de viagem foram desafiadores. Sem renda fixa, Rayane precisou se virar de diversas maneiras para continuar na estrada.
Trabalhou como garçonete, vendeu doces na praia e realizou pequenos serviços para manter a viagem em andamento. Apesar das dificuldades, a experiência trouxe aprendizados importantes. “Foi um momento difícil e bom ao mesmo tempo. Me fez ficar muito mais forte, independente e com jogo de cintura para lidar com diferentes situações”, afirma. Foi nesse período que a ideia de criar um grupo de viagens para mulheres começou a tomar forma.

Coragem compartilhada
Durante os anos viajando sozinha, Rayane percebeu algo que a incomodava: a presença feminina ainda era pequena entre mochileiros.
“Quando eu estava viajando sozinha, quase não via mulheres. E quando via, geralmente estavam com namorado ou amigos. Raramente estavam sozinhas”, conta.
Essa ausência reforçou ainda mais sua vontade de criar um espaço coletivo para mulheres na estrada. Para ela, viajar em grupo pode funcionar como uma porta de entrada para quem ainda tem receio de explorar o mundo sozinha.
“Eu costumo dizer que só tem coragem quem tem medo. Eu fui mesmo com medo. Muitas mulheres só precisam perceber que não estão sozinhas”.

Uma comunidade feminina na estrada
O primeiro grupo organizado por Rayane aconteceu em 2022. A viagem, voltada para surf, teve menos participantes do que ela imaginava. Ainda assim, decidiu seguir com o projeto.
“Eu pensei: não importa se forem duas meninas ou cinquenta. Eu vou dar o meu melhor de qualquer jeito”, diz.
A experiência acabou servindo como base para as próximas viagens. Pouco tempo depois, os novos roteiros começaram a esgotar rapidamente, principalmente por indicação de quem já havia participado.
“Praticamente todas as participantes chegam pelo boca a boca. Uma mulher vem, conta para outra, compartilha nas redes e assim o grupo vai crescendo”, explica.
Mais do que turismo, o projeto acabou se transformando em uma espécie de comunidade.
Viagens que vão além do turismo
Os roteiros do projeto procuram fugir do formato tradicional das agências de turismo. Em vez de resorts ou passeios convencionais, as experiências costumam incluir atividades que incentivam autonomia e conexão cultural.
Entre elas estão aulas de surf, mergulho, travessias em desertos e vivências em contato direto com moradores locais.
“Eu gosto de trazer essa ideia de ser viajante, não só turista. Estar na cultura local, conversar com as pessoas, entender como elas vivem”, explica.
Segundo ela, muitas participantes vivem experiências inéditas durante as viagens.
“Muitas dizem: é a primeira vez que eu entro em um avião. Ou a primeira vez que viajo sozinha. Algumas deixam os filhos em casa pela primeira vez para se priorizar como mulher”, conta.

Uma rede de transformação
Ao longo do tempo, o projeto começou a gerar efeitos que vão além da viagem em si. Algumas participantes passaram a explorar novos caminhos após as experiências vividas nos grupos.
“Já recebi mensagens de mulheres dizendo que começaram a mochilar depois da viagem, que decidiram estudar turismo ou que tiveram coragem de mudar de vida”, relata.
Para Rayane, esses relatos são o que dão sentido ao projeto.
“Eu acho que dá muita coragem para elas perceberem que não estão sozinhas. Tem outras mulheres que também querem sair do roteiro esperado e buscar seus próprios caminhos”, afirma.
No fundo, o objetivo é simples: mostrar que o mundo também pertence às mulheres.
“Eu quero que elas entendam que existe mais de uma possibilidade de vida. Que viajar, explorar e conhecer o mundo também é para elas”, diz.
E é exatamente essa ideia que tem transformado o projeto em algo maior do que um grupo de viagem: uma rede de irmandade em movimento pelo mundo.