O que aconteceu quando viajei sozinha para uma vila de pescadores

20 dias descobrindo o que uma vila de pescadores pode ensinar

Não me levem a mal, paulistanxs, mas São Paulo estava me matando lentamente. O ritmo frenético, os olhares que caminham cabisbaixos, os passos ligeiros que, sinceramente, não sabem nem onde vão chegar e a indiferença, essa é a pior, estavam dizendo que eu já não deveria mais estar ali. Foi, então, que apareceu a oportunidade de viajar sozinha por Passo de Torres, uma ‘vilazinha’ de pescadores em Santa Catarina.

Nunca tinha ouvido falar da tal vila. “Passo de que?, pensei. Quero. Qualquer lugar será melhor do que ficar nesta cidade. Dias antes de embarcar, comecei a me preparar melhor. Afinal, viajava sozinha e queria saber o que poderia encontrar.

Após um Google, encontrei. 8 mil habitantes, isso mesmo! “O que vou fazer em um lugar de 8 mil habitantes?”, questionei. Sinceramente, não sabia, mas decidi que iria assim mesmo e fui.

Viajar sozinha por Passo de Torres: 20 dias descobrindo o que uma vila de pescadores pode ensinar

Passo de Torres. Imagem: Nathalia MArques

“Minha nossa, onde vim parar!”, lembro que foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça quando cheguei na cidadezinha. Era baixa temporada e, por isso, não haviam muitos turistas. No máximo alguns casais do Rio Grande do Sul, já que Passo de Torres faz fronteira com Torres (RS), e muitos deles possuem casa de veraneio por lá.

Uma observação pertinente sobre a fronteira. As duas cidades/estados são divididos pelo Rio Mampituba.  Um cientista social adoraria ver o cenário de perto, pois Torres é uma cidade consideravelmente desenvolvida, com prédio, boa infraestrutura e Passo é um vilazinha que se quer tem prédios. No rio, você consegue observar nitidamente os contrastes entre as duas.

De um lado, o tal do famoso desenvolvimento urbano. Do outro a simplicidade, casinhas, calmaria. Parece que Passo decidiu estacionar no tempo. Que bom! Pois lá se estabelece um ritmo de vida que já está quase em extinção no Brasil. Confesso que levei um susto com isso no início. Veja bem. Nasci e cresci em São Paulo. Por mais que eu já não suporte a vida agitada da cidade, esta forma de levar a vida está impregnada em mim.

Então, quando comecei a me deparar com uma população que vive em um ritmo quase parando de tão lento, que tem o costume de fazer siesta (as lojas fecham depois do almoço e só voltam após as 14 hs), eu fiquei em choque e comecei a reclamar. “Calma, você está aqui justamente para se livrar do ritmo acelerado. Talvez estar aqui não seja por acaso”, lembrei.

Realmente, não foi.

Passo de Torres não é uma cidade com muitos atrativos turísticos. Claro que você tem opções, como praias, o Rio, a Ponte Pênsil, ver os macaquinhos livres no Morro e andar de barco, mas basicamente é isso. Eu ficaria 20 dias na cidade e todos os passeios poderiam ser feito em apenas três dias.

Me restou tempo, muito tempo. No início achei que seria péssimo, mas depois entendi que não. Foi essa vilazinha de pescadores, que conta com um forte traço da cultura açoriana, da calmaria, da pesca, da simplicidade, que me ensinou que existem outras maneiras de levar a vida.

Não há certo ou errado, mas o que faz bem para cada um

Nathalia Marques, no Rio Mampituba, em Passo de Torres

Certamente, entendi que o estilo de vida de Passo de Torres realmente agrada seus moradores. São pessoas humildes, receptivas, que se lhe encontrar pela segunda vez na rua vão esperar um bom dia e que ainda possuem o costume de vender fiado porque ainda confiam uns nos outros.

Todas as observações me surpreenderam de uma forma muito profunda. Logo no início da viagem, eu esperava ter que lidar com machismo e me proteger. Duas semanas depois, eu entendi que estava em um lugar seguro e isso me fez relaxar e entrar no ritmo.

Desta forma, me peguei algumas vezes tendo atitudes que jamais teria em São Paulo. “Usar maquiagem? Ah, não vou usar não. Roupa bonita? Pra que? Ninguém quase nem liga para isso aqui. Vou colocar qualquer coisa e andar de bike”.

Pois é, a viagem foi assim. Não conheci muitas pessoas para fazer amizade, algo raro quando se viaja sozinha. Afinal, sempre encontramos outro viajante solo disposto a caminhar junto.

Também não tive muitas aventuras turísticas, mas tive a oportunidade de entrar em contato com outra forma de levar a vida. Quase em completa solidão, tive a chance de olhar para dentro de mim e também para fora de forma profunda e descobrir que realmente eu estava certa: São Paulo já deu para mim!

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