Roteiros de afroturismo destacam herança africana no Brasil

A expansão do segmento está diretamente ligada ao interesse por roteiros que abordam a herança africana no país

18/11/2025 15:23 / Atualizado em 21/12/2025 15:10

O afroturismo no Brasil registrou um crescimento de 30% entre 2024 e 2025, segundo dados da plataforma Civitatis, especializada em reservas de passeios turísticos. O aumento reflete uma demanda crescente por experiências que valorizam a cultura afro-brasileira e ampliam a visibilidade de territórios historicamente marginalizados pelo turismo tradicional.

A expansão do segmento está diretamente ligada ao interesse por roteiros que abordam a herança africana no país, com foco em história, religiosidade, gastronomia e manifestações culturais. Cidades como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Recife concentram parte significativa dessa oferta, com circuitos que incluem visitas a quilombos urbanos, terreiros de candomblé, museus e centros culturais.

Cerimônia em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano
Cerimônia em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano - Divulgação/Civitatis

Um exemplo desse movimento é o Free Tour da Herança Africana, na capital fluminense, que registrou crescimento de 48% em reservas no mesmo período.  O crescimento também é impulsionado por datas simbólicas, como o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. Em 2023, a data foi oficializada como feriado nacional, o que ampliou a visibilidade de eventos e roteiros ligados à temática afro. Durante esse período, a procura por passeios afrocentrados aumentou significativamente, segundo operadores do setor.

“Roteiros que valorizam a memória e a cultura brasileira têm grande potencial turístico e econômico”, afirma Alexandre Oliveira, country manager da Civitatis Brasil. “Estamos atentos ao desenvolvimento do turismo local e imersivo, destacando atividades criativas e diferenciadas. Seja nas capitais ou no interior, nosso objetivo é que esse crescimento seja inclusivo e sustentável.”

Além do impacto econômico, o afroturismo tem sido reconhecido como ferramenta de valorização identitária e inclusão social. Em julho de 2025, o Ministério do Turismo lançou o “Guia do Afroturismo no Brasil“, em parceria com a Unesco, reunindo roteiros e experiências de base comunitária em diferentes regiões do país. A publicação é parte de uma estratégia mais ampla para estruturar o setor, apoiar afroempreendedores e consolidar o afroturismo como política pública.

O avanço do segmento indica uma mudança no perfil do viajante brasileiro, cada vez mais interessado em experiências com propósito, conexão territorial e reconhecimento da diversidade cultural.

7 experiências para conhecer a herança africana no Brasil

Free Tour da Herança Africana (Rio de Janeiro)

O Rio de Janeiro abriga um dos mais importantes circuitos de memória do país, e o Free tour da herança africana + Samba na Pedra do Sala percorre locais históricos da capital carioca, como a Praça Mauá, o Largo de São Francisco da Prainha e a Pedra do Sal, berço do samba e ponto central da Pequena África.

Principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, passou a integrar a lista da Unesco em 1º de março de 2017
Principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, passou a integrar a lista da Unesco em 1º de março de 2017 - OHLiberal

O roteiro também passa pelo Cais do Valongo, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. Durante cerca de duas horas e meia, o visitante acompanha histórias sobre resistência, religiosidade, arte e música, guiado por especialistas em cultura afro-brasileira.

2 – Excursão ao Quilombo dos Palmares (Serra da Barriga, AL)

Na excursão para o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, em União dos Palmares, o visitante será conduzido pelo território que abrigou o maior quilombo das Américas, e onde viveu Zumbi dos Palmares, um dos principais líderes da resistência negra no Brasil.

O percurso inclui traslado a partir de diferentes zonas de Maceió, viagem até o sítio histórico e visita guiada pelo morro, onde são apresentadas as histórias da comunidade, de seus líderes e de sua luta contra a escravidão. A atividade também inclui almoço no restaurante Baobá, que utiliza ingredientes e técnicas da culinária afro-indígena, antes do retorno à capital.

3 – Tour do Candomblé + Museu Afro-Brasileiro (Salvador)

Fachada do Museu Afro-Brasileiro
Fachada do Museu Afro-Brasileiro - Divulgação/Civitatis

Salvador concentra a maior parte dos terreiros de candomblé do país e é berço de importantes casas de tradição. Uma das atividades mais profundas e educativas sobre a herança africana na cidade é o tour do Candomblé e do Museu Afro-Brasileiro, que leva visitantes a conhecer a história, os fundamentos e a simbologia do candomblé, além de explorar o museu que reúne peças, esculturas, objetos rituais e registros históricos sobre as nações africanas e sua influência cultural no país.

4 – Tour da cultura africana por Salvador com almoço

Este tour guiado percorre alguns dos principais marcos da herança africana em Salvador, passando por bairros históricos, centros culturais e espaços religiosos que ajudam a narrar a formação afro-baiana da cidade.

Tour pela cultura africana por Salvador inclui almoço
Tour pela cultura africana por Salvador inclui almoço - Christian Edelmann/iStock

O roteiro leva o viajante até a orla do Rio Vermelho para conhecer o altar dedicado a Iemanjá, além de incluir paradas no Dique do Tororó, na tradicional Feira de São Joaquim e em um terreiro de Candomblé. O passeio ainda conta com almoço típico, garantindo uma imersão completa na cultura e nos sabores da Bahia.

5  – Excursão ao Quilombo Kaonge no Recôncavo Baiano

A visita ao Quilombo Kaonge, no tradicional Recôncavo Baiano, apresenta uma imersão direta nas tradições quilombolas. O passeio inclui visita a Santo Amaro da Purificação, com passagens pela sua agitada feira e pontos históricos que contextualizam a formação da região.

O tour ainda segue para o quilombo, onde o grupo conhece o cotidiano da comunidade, escuta relatos de um griô e acompanha práticas culturais preservadas há gerações. A atividade inclui ainda uma oficina culinária na Casa da Farinha e um almoço típico quilombola, conectando território, memória e modos de vida tradicionais.

6  – Aula de Capoeira em Salvador

Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade, a capoeira é uma das manifestações afro-brasileiras mais emblemáticas. Nesta aula de capoeira no Largo do Pelourinho, conduzida por mestres locais, os participantes aprendem movimentos básicos, exploram a musicalidade e têm contato com instrumentos tradicionais como berimbau e atabaque.

A capoeira é Patrimônio Imaterial da Humanidade
A capoeira é Patrimônio Imaterial da Humanidade - Divulgação/Civitatis

A experiência inclui prática ao lado de alunos da escola e vivência de roda, oferecendo uma imersão direta nos fundamentos corporais, históricos e culturais da capoeira.

7 – Visita à comunidade quilombola Kalunga da Diadema (Teresina de Goiás, GO)

Além da aventura no rio, o Rafting na Chapada dos Veadeiros oferece uma experiência na cultura quilombola. Os participantes têm a oportunidade de visitar a comunidade Kalunga da Diadema, parte de um dos maiores territórios quilombolas do Brasil.

Passeio ainda inclui rafting na Chapada dos Veadeiros
Passeio ainda inclui rafting na Chapada dos Veadeiros - Divulgação

Durante a visita, é possível conhecer tradições locais, modos de vida, culinária típica e histórias de resistência que marcam a trajetória dessa população desde o período colonial. O viajante ainda vai experimentar um almoço típico Kalunga, com produtos produzidos pela própria comunidade.