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Racismo estrutural: ‘as empresas precisam ir além das cestas básicas’

O Causando Encontros é promovido pela Catraca Livre e o Festival Path para conectar empresas a protagonistas de lutas por diferentes causas da sociedade

Por: Redação

Em meio à pandemia do novo coronavírus, outro debate emergiu no Brasil e no mundo após a indignação coletiva causada pela morte de George Floyd, nos Estados Unidos: qual o papel da sociedade civil, das organizações e das empresas no combate ao racismo estrutural? A análise desta questão foi o tema do primeiro evento do projeto Causando Encontros, nesta quarta-feira, 8, promovido pela Catraca Livre e o Festival Path com o objetivo de conectar lideranças empresariais a protagonistas de lutas sociais em diferentes frentes.

Para entender como as marcas podem assumir um compromisso de longo prazo na luta pela causa racial, com metas e ações concretas, o encontro teve a participação de Adriana Barbosa, CEO da PretaHub e fundadora da Feira Preta, Christiane Silva Pinto, analista de estratégias de marketing para micro e pequenas empresas do Google Brasil e fundadora do comitê AfroGooglers, e Luana Génot, CEO do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR).

Um dos focos do debate, mediado por Laís Rocha, analista de projetos da Catraca Livre, foi sobre o que as marcas devem fazer além de apenas se posicionarem contra o racismo com imagens, hashtags e homenagens nas redes sociais. “As empresas estão agindo, de fato, quando focam em três aspectos: dedicam tempo, dinheiro e seus funcionários para atuar na causa”, pontua Christiane.

Adriana Barbosa, Christiane Silva Pinto e Luana Génot
Crédito: Divulgação / Causando EncontrosAdriana Barbosa, Christiane Silva Pinto e Luana Génot participaram do Causando Encontros

Mais ação e investimento

De acordo com Luana, a campanha #VidasNegrasImportam (inspirada na hashtag norte-americana #BlackLivesMatter) é importante, mas, acima de todo o movimento, ela precisa gerar impactos nos investimentos. “Nos EUA, empresas como YouTube, Nike e Adidas separaram milhões de dólares para investir na pauta antirracista. E a provocação que temos feito é replicar esses mesmos investimentos por aqui, no Brasil, o que ainda não aconteceu”, diz.

A CEO do Instituto Identidades do Brasil explica que ações efetivas se dão da seguinte forma: com metas, prazos, investimentos e levando em consideração as interseccionalidades. Não há mistério: existem inúmeros projetos no país que poderiam receber aportes significativos de dinheiro das marcas. “Ser antirracista não é fazer um ‘favor’ para os negros, mas para você mesmo e sua empresa. Com esses investimentos, todo mundo ganha porque teremos mais desenvolvimento socioeconômico”, alerta.

O ID_BR promove ainda um trabalho de educação sobre a causa para expandir o conhecimento dentro das empresas. Nesse sentido, o instituto oferece um curso à distância, intitulado “ABC da Raça”, para estimular práticas antirracistas no dia a dia pessoal e profissional do público. Para saber mais, clique aqui.

Adriana afirma que há muito que comemorar, pois nos últimos 30 anos diferentes coletivos e organizações promoveram iniciativas de impacto para trazer o assunto para o dia a dia. Antes desse reconhecimento, era raro se falar de equidade racial dentro do ambiente corporativo, por exemplo.

Por não ser uma “novidade”, ela ressalta que vivemos um estágio em que não dá mais para ficar apenas na sensibilização sobre o assunto, é necessária a ação em si. “A gente está em um processo sistêmico e estruturante, e já passamos desse momento de reconhecer. O passo agora é de transformação, de forma organizada e coordenada, envolvendo poder público, empresas, sociedade civil e organizações sociais”, provoca.

Já Christiane vem de uma experiência positiva dentro de uma grande empresa, o Google. A analista de estratégias de marketing relata que iniciou esse processo há sete anos, aliado a seu trabalho, quando apenas algumas marcas davam atenção para o combate ao racismo. “É um processo. Se sua empresa não começou, está atrasada”, evidencia. Naquela época, seu trabalho era focado na educação a respeito do tema, mas, hoje, a atuação do AfroGooglers expandiu para dois novos pilares: comunidade, a partir da articulação com ONGs, universidades, startups e projetos, e recrutamento e desenvolvimento de carreira, focado na contratação de mais profissionais negros.

Nesta rede de combate ao racismo, as empresas multinacionais têm um papel essencial para o avanço dessa pauta no Brasil. “Quando a liderança nos EUA direciona, os demais países começam a fazer. E é essencial dar um passo atrás do antirracismo, que é o de não ser racista. Por mais que a gente tente, vamos errar, especialmente porque a maioria das marcas tem líderes brancos. E é por isso que elas precisam inserir dinheiro em quem entende e estuda a causa”, sugere.

Tanto para grandes empresas, como para médias e pequenas, é possível colocar o discurso em prática de inúmeras maneiras, como olhar para a sua cadeia de produção e comunicação e escolher quem representa a população de fato. “É um efeito dominó: quando uma empresa vê a outra fazendo ações, também faz”, declara Christiane. As maiores têm o poder de influenciar seus ecossistemas, como agências e outros serviços contratados.

Vulnerabilidade na pandemia

Pretos e pardos são os mais afetados pela pandemia da covid-19 no Brasil, com o aumento do desemprego e a perda drástica de renda. No caso das empresas, apesar de a grande maioria ter sido impactada financeiramente, são as pequenas que sofrem mais neste momento.

Segundo a analista de estratégias de marketing do Google Brasil, uma grande parcela dos pequenos empreendedores é liderada por negros, grupo que, mesmo antes da crise, já tinha o menor lucro e era mais vulnerável. “Do nosso lado [no Google] a gente tem focado em ajudar nessa tarefa da digitalização, que era algo que todos já sabiam que precisariam, porém, acabava sendo deixado de lado no meio de inúmeras tarefas diárias”, afirma.

Para Christiane, é papel das grandes empresas, que têm condições, serem solidárias e ajudarem o resto do ecossistema, pois isso irá beneficiar a todos. “Uma empresa não vende se ninguém tiver dinheiro para comprar”, ressalta. “Nós procuramos entender os desafios desses pequenos empreendedores, principalmente da comunidade de afroempreendedores, e oferecer capacitação a eles.”

Com seus projetos, Adriana exerce um papel de olhar para o ecossistema afroempreendedor e, de alguma forma, fazer algo para mitigar os efeitos do que estamos vivendo agora. A Feira Preta criou um fundo de emergências econômicas, tem feito ações de apoio para empreendedores, e auxílio para a digitalização e infraestrutura tecnológica. Tirando essa parte prática, seu trabalho foca também em uma questão mais subjetiva: o emocional da população negra no contexto do novo coronavírus. “A pandemia atinge os negros, de forma sistêmica, na perspectiva de território, do acesso à saúde, as mães em si, entre muitas outras coisas”, analisa.

Do outro lado, estão as grandes empresas, que, de acordo com a CEO da PretaHub, têm se mobilizado para fazer ações na área de filantropia. Passados mais de três meses, ela estuda a forma como as corporações fazem seu processo de investimentos nessas áreas mais vulneráveis. “É preciso olhar para um sistema como um todo: o empreendedor, as organizações comunitárias e as lideranças que apoiaram as famílias neste momento.”

As consequências imediatas da crise da covid-19 na saúde financeira das mulheres negras, profissionais e empreendedoras foram analisadas por uma pesquisa do Instituto Identidades do Brasil, conforme relatou Luana Génot. “Entendemos que era necessário acender uma luz sobre as diferenças já existentes e que se tornavam mais latentes. A ideia era levantar esse debate para grandes líderes empresariais com o intuito de mostrar que não, não ‘estávamos todos no mesmo barco’”, diz a CEO.

O ID_BR enviou essas informações para entidades públicas e privadas para ajudar no desenho de políticas voltadas a esse grupo social. O trabalho da instituição é ser essa ponte entre a iniciativa privada e as pessoas, e também levar informações sobre direitos e iniciativas. “As empresas precisam ir além das cestas básicas, que foram dadas naquele momento de urgência. O problema não é só socioeconômico, da fome, é também racial, e a gente tem que falar a respeito disso urgentemente”, finaliza.

Causando Encontros

O debate sobre o racismo estrutural foi o primeiro do projeto Causando Encontros, promovido pela Catraca Livre e o Festival Path para conectar líderes de empresas a protagonistas de lutas por diferentes causas da sociedade. Nas próximas semanas, especialistas vão discutir o panorama atual de outros quatro temas. São eles: preservação ambiental, geração de renda, combate à violência doméstica e saúde mental.

Os eventos são voltados para profissionais e estudantes das áreas de comunicação, marketing, sustentabilidade, responsabilidade social corporativa e recursos humanos. Saiba mais na página especial do projeto e se inscreva na 2ª edição do Causando Encontros, na qual vamos falar sobre preservação ambiental.