A importância da luta LGBT para os grupos que compõem a sigla

Às vésperas da Parada LGBT de São Paulo, a Catraca Livre conversou com representantes do movimento para falar sobre a luta por direitos

Por: Heloisa Aun | Comunicar erro
Claudia Garcia, Toni Reis, Ivone de Oliveira e Leona Jhovs
Crédito: Arquivo PessoalClaudia Garcia, Toni Reis, Ivone de Oliveira e Leona Jhovs

O ano era 1997 e, pela primeira vez, acontecia a Parada LGBT na cidade de São Paulo, que reuniu cerca de 2.000 pessoas, com o tema “Somos muitos, estamos em várias profissões”.

Até então, o evento era chamado de Parada do Orgulho Gay. Em 1999, a ONG Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT), organizadora da mobilização, alterou o nome do evento para Parada do Orgulho GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros).

Nove anos depois, em 2008, a instituição mudou novamente a sigla para LGBT, com o objetivo de dar mais visibilidade às lésbicas dentro do movimento e de padronizar o nome do protesto com o de outros países. Assim, passou a se chamar Parada do Orgulho LGBT.

No decorrer desses mais de 20 anos, a manifestação cresceu muito, incluiu novas causas, agregou diferentes públicos e se consolidou enquanto um dos eventos mais importantes da cidade. Segundo a SPTuris, a Parada é o evento que atrai mais turistas internacionais à capital paulista e é considerada uma das maiores do mundo.

De acordo com os organizadores, a edição de 2011 teve o maior número de participantes da história, com aproximadamente 4 milhões de pessoas. Em 2018, a produção do evento informou que cerca de 3 milhões de pessoas estiveram presentes na celebração. Uma das principais reivindicações atuais do evento, principalmente desde 2006, é o combate à LGBTfobia.

Com o tema “50 anos de Stonewall”, a 23ª Parada LGBT de São Paulo vai sair às ruas no próximo domingo, 23 de junho. A Rebelião de Stonewall, de 28 de Junho de 1969, representou um marco importante na luta pelos direitos e visibilidade da comunidade LGBTQI+ no mundo.

O evento deste ano acontece dias depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero seja considerada crime.

Parada LGBT de São Paulo na Avenida Paulista
Crédito: APOGLBT SPParada LGBT de São Paulo na avenida Paulista

Visibilidade para além do ‘G’

Se no início a parada reunia e representava, em grande parte, homens gays, no decorrer dos anos as reivindicações mostraram que era preciso incluir os demais grupos que estão na luta: as lésbicas, os bis e as trans e travestis.

Segundo Claudia Regina, primeira mulher lésbica a assumir a presidência da Associação da Parada do Orgulho LGBT, conforme o movimento foi alterando as letras da sigla, a Parada se adequou para dar visibilidade e incluir também as outras pessoas.

A Catraca Livre conversou com representantes do movimento LGBT para falar sobre o que o evento representa atualmente e a importância da inclusão de todas as letras da sigla na luta por direitos. Confira abaixo:

Claudia Regina Garcia – primeira lésbica a assumir a presidência da Associação da Parada do Orgulho LGBT (APOGLBT)

“A importância de abranger todos os grupos representados pela sigla LGBT é a comunidade. A Parada é um grupo misto, ainda que insistam chamá-la de Parada Gay, assim como Stonewall, onde cada uma das letrinhas estava envolvida na revolta. O evento tem a obrigação de representar, dentro do possível, todas as siglas, porque nosso papel é viabilizar e dar voz. Claro que ainda há dificuldades em aumentar a participação de alguns grupos que não se sentem representados, mas a gente tenta contemplar todos eles. É a nossa obrigação.”

Crédito: Arquivo PessoalClaudia Regina, primeira lésbica a assumir a presidência da Associação da Parada do Orgulho LGBT

Toni Reis, gay e ativista há 35 anos

“Eu participei da primeira Parada em São Paulo, da primeira em Curitiba e da primeira no Rio de Janeiro. Participei, também, da primeira Parada no exterior, em Viena, em 1989. A importância de um evento como esse é a visibilidade: mostrar que nós somos muitos, estamos em muitos lugares e em todas as famílias. É o momento de assumir-se e mostrar que temos dignidade e orgulho de quem somos.

Esse movimento é fundamental para a resistência. Mostrar que nós estamos organizados, estamos prontos para as batalhas e que hoje temos várias instituições do nosso lado, como o Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público, a Defensoria Pública, as Defensorias Públicas estaduais… Enfim, hoje nós temos uma articulação de muitos. Infelizmente, há algum setor resistência, de algumas religiões, e mesmo estes já reconhecem que nós existimos.”

Crédito: Arquivo PessoalJuntos há 28 anos, Toni (direita) e o marido David decidiram oficializar o casamento em 2018

Ivone de Oliveira, bissexual e blogueira do Gata de Rodas

“Me tornei militante e ativista LGBT quando, em 2016, fui pela primeira vez na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo só para conhecer e percebi que faltava a representatividade da pessoa com deficiência. 

Apresentei a minha ideia de levar acessibilidade e a inclusão da pessoa com deficiência LGBT ao evento na primeira reunião da APOGLBT e ela foi aceita de imediato sem questionamento. O resultado da minha ideia se concretizou em 2017, quando, pela primeira vez, as pessoas com deficiência abriram a Parada LGBT de São Paulo. Feito esse que se repetiu em 2018 e vai se repetir em 2019. Agora, além de ser a maior, também é a mais inclusiva do mundo.

A parada é uma ação afirmativa de política social que contempla a diversidade sexual. Por isso, quando inclui somente a letra ‘G’ dos gays, deixa sem representatividade todos os outros segmentos, como das lésbicas, dos bissexuais, dos transgêneros, dos intersexuais, entre outros, que lutam por visibilidade.

A mulher faz parte história da mobilização. Martha Shelley, na época da Revolta de Stonewall, foi a idealizadora da marcha que hoje chamamos de parada. A semente plantada por essa mulher, militante e ativista lésbica, continua dando frutos mesmo 50 anos depois, pois cada vez mais segmentos buscam representatividade e visibilidade.

Mesmo que o atual governo venha se mostrando um tanto conservador, machista e homofóbico, a presença da mulher com deficiência na Parada do Orgulho LGBT só reforça que o ‘sexo frágil’ não foge à luta mesmo estando em cadeira de rodas. O ‘Stonewall’ da pessoa com deficiência no Brasil começou justamente em 2017, quando abrimos o evento em meio a 3 milhões de pessoas e batemos de frente com o tabu da sexualidade, mostrando a nossa força como cidadãos e agentes de mudança e transformação social.”

Crédito: Luciana FirminoIvone de Oliveira, conhecida como blogueira Gata de Rodas, é bissexual

Leona Jhovs, mulher trans

“Desde que me percebi como fora da norma por ser uma mulher trans, me tornei um corpo político. Viver no país que mais mata trans e travestis no mundo é um ato político. Todos esses corpos dissidentes estão lutando para viver, então nada mais justo que a Parada seja reconhecida como LGBTQIA+, e não só gay, para dar visibilidade a outros campos.

A Parada LGBT é importante pra mim, enquanto mulher trans, porque é uma data onde a gente dá visibilidade à nossa luta, que é diária. Para nós, mulheres trans, é um movimento importantíssimo para mostrar que estamos vivas e lutando. Temos que estar ali e fortalecer o movimento, ainda mais agora, que será a primeira Parada após a eleição de Bolsonaro, no qual com certeza as represálias serão maiores. É justamente nesse momento que precisamos mostrar que não vamos ceder e não daremos nenhum passo para trás.”

Leona Jhovs, mulher trans
Crédito: Rodrigo JhovsLeona Jhovs, mulher trans
Autor: Heloisa Aun

Feminista, vegetariana e repórter de Cidadania no Catraca Livre. ("nossas costas / contam histórias / que a lombada / de nenhum livro / pode carregar" - Rupi Kaur)

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