Aplaudir incêndio em favela comprova opção pela barbárie

Enquanto algumas pessoas se assustavam com o incêndio que consumiu a Favela do Cimento, houve quem chamasse de 'vagabundas' as vítimas

Por: Paula Lago Comunicar erro
incêndio na Favela do Cimento
Crédito: Danilo Verpa/FolhapressIncêndio destrói Favela do Cimento na Mooca, zona leste de São Paulo

Fogo intenso. Um morto. Centenas de desabrigados, incluindo crianças e animais. Enquanto algumas pessoas se assustavam com o incêndio que consumiu toda a Favela do Cimento no início da noite do último sábado na zona leste de São Paulo, houve quem aplaudisse e gritasse “vagabundos” às vítimas. Houve quem questionasse a vulnerabilidade de pessoas morando em condições subumanas.

Em São Paulo, segundo a Secretaria Municipal da Habitação de São Paulo, quase 1,2 milhão de famílias vivem em situação precária, mas, para alguns paulistanos, este cenário desolador não deve ser questionado e, sim, ignorado.

Os desabrigados têm nomes:  Estéfani, Samuel, Sofia, Michele, Anderson. Cada um deles tem sua história. Mas, em sua totalidade, não têm privilégios, não têm nem tiveram oportunidades e, muito menos, voz na cidade mais importante do Brasil.

No domingo, dia seguinte ao incêndio, estava marcada uma reintegração de posse da área, numa operação da Prefeitura de São Paulo em conjunto com o Tribunal de Justiça do estado. A operação ocorreu, embora só restassem pouco mais do que cinzas no local.

Sobre a operação

“Os assistentes sociais da prefeitura vão continuar conversando diariamente com as pessoas que não aceitaram ir para nossos centros de acolhimento. Temos mais de 100 locais de acolhimento com 10 diferentes tipos de perfis, como para famílias com crianças, mães com filhos, homens solteiros ou famílias com pets. Os encaminhamentos são feitos dentro do perfil de cada núcleo familiar”, afirmou o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, José Castro.

Para o Padre Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral da Rua, esta atitude do governo municipal está longe de resolver o problema. “Ninguém da prefeitura vai entrar na área da ocupação. E o problema é anterior a isso: negociação não é imposição, houve exigência de flexibilidade só de um lado. Impuseram às pessoas uma situação, elas não aceitaram, deu no que deu: uma ação intempestiva, mal articulada e, o que articularam, foi mal executado. As pessoas querem construir suas vidas, não querem que a prefeitura dê um destino a elas.”

Parte dos moradores da comunidade se dirigiu a um galpão abandonado não muito longe de onde ficavam seus barracos, no número 1.054 da rua Hipódromo. Lá, tentam reconstruir suas vidas e, para isso, pedem, principalmente, leite para as crianças, sacos de lixo para recolher o entulho, pregos 18×27 e fios de 10 mm e de 15 mm.

Crianças não puderam ir à aula nesta segunda, 25, por falta de roupas e de material escolar. Comida tem sido conseguida graças a doações. Se algumas mãos preferem aplaudir a desgraça alheia, muitas outras se mostram dispostas a ajudar quem está no chão. E que bom que (ainda) seja assim.

Por: Paula Lago

Editora de Cidadania, Assuntos Gerais e Parcerias. Jornalista, torcedora de futebol, mochileira e futura vendedora de sanduíche natural numa praia qualquer.

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