Como a geração hip hop conseguiu dominar a cultura americana

Por: Redação Comunicar erro

Novo livro lançado nos Estados Unidos descreve como o hip hop tornou-se a forma de expressão emblemática da juventude urbana dos EUA

O novo livro de Jeff Chang, o indispensável “Can’t Stop Won’t Stop: A History of the Hip Hop Generation” (Não pode parar, não vai parar: uma história da geração hip hop), apresenta um relato vibrante da história americana do último terço do século 20, um período que, segundo acredita Chang – um temido crítico de música dono de um preparo acadêmico em estudos de etnologia – foi definido e catalisado pela emergência improvável da cultura jovem urbana, ou seja, a cultura hip hop.

Você discorda e acha que ele está enganado? Tente achar uma força cultural contemporânea mais influente que o hip hop, e tente encontrar uma maneira mais acurada de designar os filhos dos anos 70, 80 e 90 do que por meio da geração hip hop. Um aviso: não tente vender a Chang o peixe das gerações X e Y – aqueles são termos preguiçosos que não servem para nada, argumenta o autor. Além disso, chamar a geração de Chang (e a minha) de “pós-baby boom” é uma forma de nos definir pelo que nos precedeu, e não pelo que nós nos tornamos.

“A idéia da geração hip hop reúne de uma vez só as noções de tempo, raças, lugares e espaços, diversidade cultural, ‘beats’ quentes e pesados, e estilos musicais híbridos”, escreve Chang. “Ela descreve as tendências e as mudanças que foram geradas da política para a cultura, assim como os processos de entropia e de reconstrução. Ela captura as esperanças e os pesadelos coletivos, as ambições e os fracassos daqueles que, de outra forma, seriam descritos como integrantes da geração ‘pós-isso’ ou ‘pós-aquilo’.”

Ao longo das últimas três décadas, o nosso país (os Estados Unidos) foi sendo dominado cada vez mais pelo balanço e os estrondos do hip hop, abrindo caminho, aos trancos e barrancos, para um universo multicultural e obcecado pelos ritmos, e que foi rotulado pelo pioneiro do hip hop, Afrika Bambaataa, com a famosa expressão “Planet Rock”.

E, mesmo assim, muitas pessoas ainda não admitem que essa transformação ocorreu de fato e que o hip hop passou a dominar a nossa cultura. É por isso que o livro de Chang é tão importante.

Tenho contatos de vez em quando com alguns desses céticos, em geral por meio de e-mail. Eles dizem que o hip hop é um gênero bastardo, vulgar, como se o rock, o soul, o blues ou o country fossem puros. Eles assimilam o rap ao barulho, como se os Rolling Stones soassem como canções de ninar para a geração de fãs de Frank Sinatra. Eles estimam que a cultura do hip hop é violenta, como se ninguém tivesse morrido (no show dos Rolling Stones) em Altamont, em 1969, e como se ninguém tivesse sido pisoteado até a morte durante a debandada em massa que marcou um concerto do The Who em 1979. Eles acreditam que a música popular viveu o seu auge no final dos anos 60 e início dos 70 – a época que Chang escolheu para iniciar o seu livro – como se a fonte de criação artística da América tivesse simplesmente secado ao longo dos últimos 30 anos.

Quando ouço tais argumentos, penso no clima de terror total em meio ao qual foram recebidas as primeiras músicas de jazz e blues – que na época eram chamados de “discos de raça” (“race records”) – no início do século 20. Penso na maneira extremamente relutante com a qual Ed Sullivan recebeu os Beatles no seu programa, em 1964. E penso o quão escandaloso deve ter soado aos ouvidos de muita gente, durante os anos 50, quando o hoje santificado Ray Charles injetou pela primeira vez balanço, ritmo e gemidos de desejo na música gospel.

Jeff Chang não tem tempo para recapitular essa história no seu livro, mas trata-se de um contexto importante que ajuda a admitir que a geração hip hop, por mais imperfeita que ela possa ser, é tão diferenciada, diversa e criativa que as gerações que a precederam.

Para que não haja dúvidas, quando o livro “Can’t Stop Won’t Stop” fala do hip hop, ele não está se referindo apenas ao rap. Este livro pertence tanto a campo da história cultural quanto ao da história musical, e Chang nele dedica um espaço importante para a análise das condições sócio-econômicas depressivas que estimularam o desenvolvimento da cultura hip hop na cidade de Nova York.

“A nova matemática, então, era a seguinte”, escreve Chang. “O sul do Bronx – bairro da periferia de Nova York – havia perdido 600 mil empregos industriais; 40% das vagas daquele setor haviam desaparecido. Em meados dos anos 70, a renda média por habitante havia desabado para US$ 2.430, ou seja, a metade do que ganhavam em média os nova-iorquinos, e 40% da média nacional. A taxa de desemprego dos jovens alcançou 60%. Segundo advogados especializados em defender jovens, em certas áreas da cidade a proporção verdadeira estivera mais próxima dos 80%. Enquanto a cultura do blues havia se desenvolvido dentro de condições de trabalho opressivas, numa época em que o trabalho, não raro, era forçado, a cultura hip hop desenvolveu-se em meio a condições de não-trabalho”.

E foi isso que aconteceu. Chang narra grande parte dessa história a partir do ponto de vista dos DJs, dos rappers, dos dançarinos de break e dos artistas pintores de grafites que deram início ao movimento, galvanizando uma geração inteira que estava sendo marginalizada racial e politicamente.

O livro inicia-se com uma epigrama do escritor e dramaturgo Don DeLillo, e, numa homenagem aparente ao livro de DeLillo, “Underworld” (“Submundo”), o primeiro capítulo começa com uma extensa anedota que envolve o beisebol, utilizando Jackie Robinson e Reggie Jackson – dois ídolos negros deste esporte – como símbolos de integração racial na sociedade como um todo.

“A resposta para os negros”, escreve Robinson, citado por Chang, “deve ser encontrada não na segregação nem na separação, e sim na sua insistência em procurar ocupar o seu lugar legítimo – o mesmo lugar que o de qualquer outro americano – dentro da nossa sociedade”.

Nesse sentido, “Can’t Stop Won’t Stop” é a história da luta da cultura hip hop para encontrar o seu lugar dentro da sociedade americana.

De maneira frustrante – com a exceção de uma foto na página 436 onde a estrela do hip hop Sean “P. Diddy” Combs traja uma camiseta com os dizeres “Eu sou o sonho americano” -, o livro aborda de forma bastante superficial os sucessos maciços e ansiosamente esperados que a cultura hip hop produziu ao longo dos últimos 10 anos. Após termos lido centenas de páginas sobre a luta que permitiu o advento dessas pop stars, teria sido instrutivo (para não dizer redentor) explorar com a mesma intensidade a generosidade produtiva dos artistas do hip hop, e ver Jeff Chang discutir de maneira mais aprofundada os problemas que surgiram junto com o que ele chama de “a Grande Encruzilhada”. Mas, o fato de ele não fazer isso faz com que este livro transmita a sensação de ser incompleto, como se o seu autor tivesse se precipitado para entregar o manuscrito tal qual ao seu editor para respeitar o prazo combinado. Ao menos, é de se esperar que Chang esteja planejando uma continuação.

Da mesma forma, a narrativa de Chang é tão densa, e a sua história cultural tão exaustiva que o leitor gostaria de vê-lo estabelecer algum equilíbrio, e libertar, por exemplo, o crítico de música que existe dentro dele. Ele se estende até nos menores detalhes em assuntos tais como os motins de Rodney King (que ocorreram em Los Angeles, em 1965, quando uma passeata no bairro de Watts em defesa dos direitos dos negros degenerou em confrontos com a polícia), mas pouco aborda questões que dizem respeito efetivamente às estrelas do gênero, tais como o Run-DMC, Tupac Shakur e o Notorious B.I.G., três artistas/grupos cuja atuação foi decisiva na definição da estética do hip hop, tanto para os outros artistas do gênero como para os ouvintes.

Os lampejos de crítica que ele oferece iluminam esta forma de arte de maneira poderosa. Ninguém além de Jeff Chang pensaria em comparar os discos de Dr. Dre e Snoop Dogg a “um prédio de Gehry coberto por grafites e pichações” (Frank O. Gehry, um dos arquitetos mais conceituados nos Estados Unidos). É claro, esta metáfora pode ser estendida para descrever e definir a cultura hip hop como um todo: Por meio de uma grande diversidade de procedimentos e de formas de expressão, a cultura hip hop retomou o que havia sido feito antes e edificou camadas irreverentes de arte por cima disso.

Alguns podem querer ver a cultura original ser restabelecida e voltar para o seu lugar – apagando tudo e deixando tudo limpo, assim como fez a companhia de transportes metropolitanos de Nova York com os seus trens de metrô, que estavam cobertos de grafites – mas, por enquanto, as cores do hip hop são vívidas demais para serem apagadas. E mesmo se fosse possível limpar por completo a cultura americana, num esforço para preservar antigas noções de gosto, isso serviria apenas para oferecer um novo quadro virgem, e extremamente tentador, para a próxima geração.

Jeff Chang está certo – o ciclo não pode parar, e não vai parar.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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As informações são do site uol

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