Datena desiste do jornalismo após defesa insustentável do ‘e daí?’ de Bolsonaro

OPINIÃO: Ética de Datena foge para Marte e apresentador vira palanque tosco do presidente

O apresentador do ‘Brasil Urgente’, na TV Band, José Luiz Datena usou um longo período do seu programa, nesta quarta-feira, 29, para defender o ‘e dai’, dito pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ontem à noite, sobre o Brasil ter passado das 5 mil mortes vítimas do novo coronavírus.

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Crédito: Reprodução Datena desiste do jornalismo após defesa insustentável do ‘e daí?’ de Bolsonaro

A frase de Bolsonaro, “e daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre​”, provocou revolta em todo Brasil, não só do povo que vem sofrendo com a falta de políticas públicas para enfrentar o novo coronavírus, mas também de políticos, como João Doria, governador de São Paulo, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, Flávio Dino, governador do Maranhão e diversos outros.

As críticas não vieram só da classe política, artistas, famosos, jornalistas, entidades da sociedade civil também condenaram a fala do presidente, mas Datena preferiu não enxergar o óbvio, a falta de humanidade e respeito de Bolsonaro, e foi logo procurando um jeito de defender o insustentável discurso.  “‘Eu acho que o Bolsonaro não é insensível as 5.000 mortes”, disse o apresentador ao vivo.

Datena tentou amenizar, dar aquela famosa passada de pano, para Bolsonaro. O cúmulo do ridículo foi dizer: “Olha eu não sou bolsonarista, mas”. Se defender aquele ‘e daí’ e dizer que Bolsoanro não foi insensível às mais de cinco mil mortes, não é sinônimo de ser bolsonarista, eu nem sei mais o que é ser bolsonarista.

Datena preferiu colocar a culpa da fala de Bolsonaro na interpretação de seus colegas jornalistas à reconhecer a insensibilidade na fala do presidente.

Não se trata de um texto do presidente, o que permitiria uma interpretação bígua ou diversa. Tudo foi gravado, as imagens são claras, só não vê quem não quer. Isso, sem falar que usar do Messias, da fé das pessoas, para fazer piada com o sofrimento de milhares de famílias é completamente inapropriado, não digno, ainda mais para um presidente.

Datena já tinha abdicado de qualquer prática jornalistica para defender seu amigo, daí para frente foi só ladeira abaixo. Resolveu então criticar Doria por ter dito que é provável que as medidas de isolamento social precisem ser mantidas após o dia 11 de maio, quando chegou-se a especular uma reabertura gradativa.

“Doria está planejando estender a quarentena pra depois do dia 11. Meu deus do céu. Agora sim o pessoal vai morrer, vai morrer do coração. Vai morrer de fome. Vai morrer, vai morrer, vai morrer”, disse Datena.

Como assim, “agora” as pessoas vão morrer? As pessoas já estão morrendo, cada dia mais. No início eram menos de 10 por dia, um mês depois, estamos falando de mais de 400 pessoas mortas à cada 24h. Sem o isolamento social esses dados seriam ainda maiores. A hora agora é de todo mundo que pode ficar em casa. Ampliar os índices da quarentena e não de reabrir.

Como assim, Datena preferiu atacar a quarentena ao invés e cobrar do governo Bolsonaro medidas mais enérgicas para garantir a sobrevivência da economia e salvar vidas? Será que o apresentador acha que o auxilio emergencial é suficiente?

Jornalismo seria se Datena tivesse falado sobre a falta de recurso federal nos estados mais pobres, com sistema de saúde já colapsado, como é o caso do Amazonas. Seria jornalismo se tivesse apontado a falta de investimento público no atual momento e para o futuro. Seria jornalismo se, apenas, não tivesse defendido Bolsonaro.

Defender Bolsonaro, após aquele deboche desumano, só escancara que a ética de Datena fugiu para Marte e o apresentador se tornou um reles palanque tosco do presidente.

Na web, as declarações de Datena, nesta quarta-feira, também geraram revolta. Confira: