Google precisa mudar urgentemente sua definição de ‘patrão’ e ‘patroa’

OPINIÃO: É inaceitável que "dona de casa" e "esposa" de alguém sejam os "postos de chefia" que mulheres podem ocupar

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Qual foi a surpresa ao fazer uma pesquisa simples na maior ferramenta de busca online, do mundo, o Google, sobre o termo ‘patrão’ e ‘patroa’? Nenhuma. Por mais antiquado que seja, a gigante da tecnologia global tem uma definição extremamente machista e nada moderna para a gíria brasileira.

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Crédito: ReproduçãoGoogle precisa mudar urgentemente sua definição de ‘patrão’ e ‘patroa’

De acordo com o Google, ‘patrão’ significa: “Proprietário ou chefe de um estabelecimento privado comercial, industrial, agrícola ou de serviços, em relação aos seus subordinados; empregador” e/ou “o chefe de uma repartição pública”. Até aí, tudo bem, é isso mesmo.

Agora, quando o Google se propõe a definir o que é ‘patroa’, ele não considera, o que deveria ser óbvio, o mesmo significado que o masculino, mas se referindo a mulheres que ocupam essa posição de chefia. Para a gigante da tecnologia, patroa quer dizer: “A mulher do patrão” e/ou “dona de casa”.

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Crédito: ReproduçãoGoogle precisa mudar urgentemente sua definição de ‘patrão’ e ‘patroa’

Para começar, a definição não é real, patroa é uma mulher que ocupa posição de chefia. Esse lugar pode ser dentro de casa, pode. Mas não é o homem chefe que dá à mulher a posição de patroa. Pelo menos, não mais.

Podemos considerar que num passado, não muito distante, é verdade, a mulher ‘patroa’ era aquela dona de casa casada com um grande empresário, político e etc… Mas além de antiquada, essa denominação é extremamente machista. Ela não reconhece que as mulheres ocupam lugar de chefia em corporações, negócios e em qualquer esfera profissional.

Da forma como o Google trata o trabalho feminino ao designar patroa apenas como esposa e dona de casa é ainda pior porque inibe um debate extremamente atual, que é o fato das mulheres, nos dias de hoje, não terem equidade nos cargos de liderança, em relação aos homens, no Brasil e no mundo.

No Brasil, apenas 13% das empresas têm CEOs mulheres, de acordo com o estudo mais recente realizado pelo Insper com a Talenses. Ainda segundo a pesquisa, elas ocupam 26% dos cargos de diretoria, 23% dos postos de vice-presidentes e 16% dos cargos em conselhos. De modo geral, elas têm, em média, 19% dos cargos de liderança nas empresas brasileiras.

E se resta dúvida de que o machismo é o principal responsável por nós não ocuparmos mais cargos de liderança, os dados do Censo da Educação Superior de 2016, última edição do levantamento, deixam isso claro. De acordo com o estudo, as mulheres representam 57,2% dos estudantes matriculados em cursos de graduação.

Na pós-graduação, as mulheres também são maioria. Segundo levantamento da  Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), os números mais recentes, de 2016, indicam 165.564 mulheres matriculadas e tituladas em cursos de mestrado e doutorado, enquanto os homens somam 138.462, uma diferença de aproximadamente 19%. Na modalidade de doutorado também traz realidade semelhante, com um total de 57.380 mulheres matriculadas e 11.190 tituladas, ao passo que os homens somaram 50.260 matrículas e 9.415 títulos em 2016.

Logo, por óbvio, no Brasil, não é capacidade que defini líder, chefe, chefa, CEO, patrão, patroa de uma empresa.

Além da posição, também temos que batalhar pelos nossos salários. Atualmente, o público feminino representa 40% da população economicamente ativa, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas as mulheres, em pleno 2020, ainda ganham, em média, 20,5% menos que os homens para exercer a mesma função e também enfrentam mais desafios na progressão de carreira.

O trabalho doméstico é árduo e precisa ser valorizado, inclusive para que as tarefas de casa não recaiam apenas sobre as mulheres. O cuidado com o lar e os filhos são tarefas que precisam ser compreendidas por todos, como trabalho coletivo e não uma responsabilidade feminina. Homem não ajuda em casa. Não é favor, é obrigação.

É preciso reconhecer que a mulher está no mercado de trabalho para que a luta por igualdade entre os sexos avance, para que o nosso papel na sociedade não seja exclusivamente cuidar do lar, ou se contentar com baixos salários e poucas oportunidades profissionais.

É inaceitável que o Google, uma das maiores empresas do mundo, nos definam patroa exclusivamente quando somos “donas de casa” e “esposas” de alguém.