Mulher trans ameaça expor nomes dos ex que apoiam Bolsonaro

"Se essas pessoas dizem lutar por um Brasil melhor e sem corrupção, elas têm que acabar primeiramente com a hipocrisia social", diz Lara Pertille

Por: Heloisa Aun Comunicar erro
Crédito: Matheus Maviega No vídeo, Lara lembra que o candidato vai contra qualquer princípio de direitos humanos

Tudo começou com uma publicação no Facebook. Nela, um homem com quem a jornalista transexual Lara Pertille, 32, já havia se relacionado defendia o voto em Jair Bolsonaro (PSL). Indignada com o apoio ao candidato, conhecido por declarações preconceituosas, a moradora de Paulínia, interior de São Paulo, comentou a seguinte frase: “Oi, vamos relembrar o nosso passado?”. Mas, segundos depois, ele apagou a mensagem e a postagem.

No dia seguinte, o rapaz excluiu Lara da rede social e novamente fez o post a favor do deputado federal. Ao tomar conhecimento de sua atitude, a jornalista gravou um vídeo e compartilhou em seu perfil como forma de protesto ao ex. “Eu achava incoerente essa pessoa ter tido um relacionamento comigo, e também com outras pessoas trans, e fazer campanha para esse candidato. Isso me revoltou”, conta à Catraca Livre.

No vídeo, que viralizou nas redes sociais, a mulher trans ameaça divulgar os nomes de todos seus ex que declararem apoio a Bolsonaro. “Se eu abrir a minha boca não vai sobrar pedra sobre pedra”, diz ela.

“Vale ressaltar que tanto no vídeo como nas postagens eu não cito o nome de nenhum candidato à Presidência da República. As pessoas associam tudo que eu falo a esse candidato porque elas sabem que ele é machista, transfóbico e racista”, lembra.

Assista:

Recadinho do dia?Ps: Brasil o país da hipocrisia@Larapertille

Posted by Lara Pertille on Wednesday, September 5, 2018

Segundo Lara, ela tem provas dos antigos casos, “que não foram poucos”, e “não tem medo de nada”. “As pessoas sabem, tanto que muitos com quem eu já tive relacionamento já me excluíram do Facebook depois que falei isso. Na minha vida eu tenho que lidar com o medo diariamente quando coloco a cara no sol”, afirma.

“Se essas pessoas dizem lutar por um Brasil melhor, sem corrupção e hipocrisia, elas têm que acabar primeiramente com a hipocrisia social. Elas têm que parar de afirmar isso e depois virem atrás de travestis e transexuais”, completa a jornalista.

No entanto, após a repercussão do vídeo, a transexual passou a receber inúmeras ameaças. “As ameaças vieram em massa, do tipo: ‘tem que morrer mesmo’, ‘o tal candidato tem que ganhar para exterminar esse povo da face da terra’, ‘daqui a pouco aparece com a boca cheia de formiga na Augusta'”, relata.

Lara ressalta que não tem medo: “Não são essas ameaças que vão calar a minha boca. Eu resisto todos os dias. Eu estou tirando print de tudo e já mandei para o meu advogado para ver o que faço sobre isso.”

“Toda travesti e transexual já é doutrinada a se blindar das transfobias diárias até para poder reexistir dentro dessa sociedade. Quando alguma pessoa me pergunta: ‘qual é a sua preocupação do dia?’, eu respondo: ‘minha única preocupação é poder sair de casa e trabalhar e voltar viva'”, finaliza.

Direitos de transexuais e travestis

De acordo com a jornalista, o Brasil está crise e precisa ser resgatado por pessoas sérias e conscientes. “Nada de dar voz a reacionários e fascistas. Infelizmente, entre os candidatos, vou ter que escolher o menos pior. Isso que vai determinar o meu voto”, explica.

Em relação a políticas públicas para a população trans, Lara cita que é preciso dar acesso ao mercado de trabalho, já que 90% das transexuais e travestis são obrigadas a se prostituir por falta de oportunidades, e também criar cotas em universidades para essa população. “Os candidatos deveriam se atentar a essas pessoas, porque não vamos nos calar.”

“Eu tenho privilégios: sou branca, nessa sociedade racista, tive acesso à educação e ao ensino superior, sou de classe média e estou em uma família que me aceita. Eu tenho que usar meus privilégios para dar voz a outras pessoas invisibilizadas. Meu legado nessa vida é poder lutar para libertar outros corpos, fazer de meu corpo uma resistência e, principalmente, lutar por uma sociedade mais justa”, afirma ela.

“Eu acredito que juntas nós podemos vencer o racismo, o fascismo, a transfobia e todo o retrocesso que um candidato representa dentro dessa sociedade”, finaliza.

Por: Heloisa Aun

Repórter de Cidadania na Catraca Livre. ("nossas costas / contam histórias / que a lombada / de nenhum livro / pode carregar" - Rupi Kaur)

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