A Bienal abre espaço para os quadrinhos. Mas eles ainda precisam pedir licença?
Ivan Costa, cofundador da CCXP e curador da nova Alameda dos Artistas, fala sobre o preconceito contra as HQs, a formação de leitores e o espaço que os quadrinhos ainda precisam conquistar

Eu acompanho quadrinhos há tempo suficiente para achar curioso que, em 2026, a gente ainda precise discutir se eles pertencem ou não ao mesmo ambiente dos livros. Não estou falando de uma discussão acadêmica sobre linguagem, formato ou definição de literatura. Estou falando de espaço mesmo. Mesa, cadeira, autor, leitor, livro na mão e gente querendo saber quem fez aquilo.
A Bienal do Livro do Rio já fez esse movimento em 2025. Agora é a vez da Bienal Internacional do Livro de São Paulo criar sua Alameda dos Artistas, um espaço próprio para os quadrinhos e para quem faz quadrinhos. Então, mais do que a novidade de uma Alameda, o que me interessa aqui é perceber que o movimento começa a se repetir.
A referência é quase inevitável para quem vive nesse meio. A ideia lembra o Artists’ Valley da CCXP: quadrinistas sentados diante do público, vendendo seus trabalhos, desenhando, conversando e mostrando que uma HQ não nasce misteriosamente numa prateleira.
Só que aqui existe uma diferença importante.
Estamos falando da Bienal do Livro.
E talvez seja exatamente aí que a história fique interessante.
A Alameda dos Artistas terá 30 mesas e 34 quadrinistas, misturando gente de gerações, estilos e trajetórias completamente diferentes: de Laerte a Gabriel Picolo, passando por Paulo Moreira, Helô D’Angelo, Germana Viana, Gidalti Jr., Hugo Canuto, Daniel HDR, Fábio Yabu e muitos outros.
Quem está por trás da curadoria é Ivan Costa, cofundador da CCXP e CEO da Chiaroscuro Studios. Conversei com Ivan porque queria entender menos o que vai ter na Alameda e mais o que significa ela existir.
E ele começou fazendo uma correção importante.
Quadrinhos não estão chegando agora à Bienal.
Editoras já levam HQs para o evento há anos. Ivan cita a Panini, a Companhia das Letras e outras casas presentes na Bienal, além dos próprios quadrinistas que já participam da programação. Até a Espanha, país homenageado desta edição, terá quadrinistas entre seus convidados. A novidade é outra: a Bienal de São Paulo passa a ter um espaço físico próprio dedicado a esse tipo de conteúdo.
Para Ivan, isso revela uma mudança maior na maneira como o evento olha para aquilo que as pessoas leem.
“Mostra uma evolução nessa relação do evento e até, entendo eu, uma expansão da percepção da organização da Bienal pra tratar de leituras, né, e não só de literatura, né, mas outras formas também de ler. E quadrinhos entram nessa categoria.”
Ivan Costa
Cofundador da CCXP e curador da Alameda dos Artistas
Parece uma diferença pequena. Leituras em vez de apenas literatura. Mas não é.
Quadrinho ainda é coisa de criança?
Essa discussão fica ainda mais interessante porque os quadrinhos carregam um problema antigo. Quem cresceu lendo gibi provavelmente já ouviu alguma versão de “quando você vai começar a ler livro de verdade?”.
Mudaram as gerações, vieram graphic novels, mangás tomaram livrarias, adaptações de HQs dominaram cinema e streaming, quadrinistas brasileiros passaram a trabalhar para algumas das maiores editoras do planeta e, ainda assim, parte daquele velho estigma continua por aí.
Ivan não considera essa barreira superada. Para ele, ela é estrutural e precisa ser desconstruída na cabeça das pessoas e, nas gerações mais novas, substituída pela percepção dos quadrinhos simplesmente como uma mídia, sem estigma de idade, gênero ou de uma fase específica da vida.
E ele estabelece alguns termômetros bem objetivos para saber quando isso realmente terá mudado: tiragens de quadrinhos comparáveis às da literatura e HQs aparecendo com mais frequência nas listas de livros mais vendidos.
“Tem uns marcos aí pra gente ainda alcançar, mas tem uma desestigmatização, por assim dizer, crescente. E a instalação da Alameda dos Artistas na Bienal é um sinal nesse sentido, sem sombra de dúvida.”
Do Artists’ Valley para uma Bienal
A comparação com a CCXP é inevitável, mas os números mostram que simplesmente copiar o Artists’ Valley nunca seria uma opção.
Ivan fala em cerca de 450 artistas quando considera o Artists’ Valley e também os presentes no espaço da Chiaroscuro Studios, que ele define, na prática, como uma extensão do Valley. Na Bienal serão 34 artistas em 30 mesas. Menos de 10%.
Isso transforma a Alameda numa espécie de fotografia muito condensada dos quadrinhos brasileiros. E com um desafio adicional: apresentar a diversidade dessa produção, em gêneros, temas, formatos e criadores, para um público que não necessariamente conhece quadrinhos.
Há uma lenda dos quadrinhos brasileiros como Laerte. Um fenômeno das redes como Paulo Moreira. Um artista com grande projeção internacional como Gabriel Picolo. Autoras como Germana Viana, Helô D’Angelo, Helena Cunha e Lark. Há produção autoral, artistas premiados e gente que publica para o exterior.
“Eu tentei trazer um pouco de tudo pra dentro da Bienal e, de tudo, o melhor possível.”
Ivan Costa
Cofundador da CCXP e curador da Alameda dos Artistas
Há ainda uma dificuldade que normalmente desaparece quando olhamos apenas a lista de convidados: são dez dias de evento. Ivan lembra que a CCXP dura quatro dias, além da Spoiler Night. Ficar tanto tempo expondo é cansativo e nem todo artista consegue ou topa. Mesmo assim, ele acredita que a seleção funciona tanto para quem já acompanha HQs quanto para quem vai descobrir aqueles autores ali.
Superman pode nascer em São Paulo
Existe outro ponto que, para quem acompanha quadrinhos, não tem absolutamente nada de novo: brasileiros trabalham para o mercado internacional há décadas.
A geração que desembarcou em peso nas editoras americanas nos anos 1990 abriu uma estrada que nunca mais fechou. Hoje não é excepcional encontrar um brasileiro trabalhando em alguns dos personagens mais conhecidos do mundo.
O que mudou foi outra coisa: mais gente sabe disso. Ivan aponta os canais especializados, a cobertura de cultura, as redes sociais e a própria CCXP como responsáveis por dar mais visibilidade a esses profissionais.
“Hoje em dia menos pessoas se surpreendem quando você diz: ‘Olha, sei lá, o quadrinho do Superman é produzido em São Paulo, o quadrinho dos Vingadores é produzido em João Pessoa’.”
Para quem acompanha esse mercado, pode parecer óbvio. Para o público gigantesco de uma Bienal do Livro, talvez não seja.
E a presença dos quadrinhos não fica restrita à Alameda. Ivan destaca que eles também aparecem em vários palcos da programação e cita outras iniciativas dentro da Bienal, como a Caixa de Quadrinhos, que reúne artistas em um espaço próprio. Ou seja, a Alameda é parte de um movimento maior dentro do evento.
Porta de entrada… e depois?
Foi aqui que nossa conversa tomou o rumo que mais me interessou.
Existe uma frase repetida há décadas de que quadrinhos são uma porta de entrada para a leitura. Mauricio de Sousa é provavelmente o maior exemplo brasileiro disso. Quantas pessoas não começaram a ler com Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali?
Ivan reconhece essa importância, mas coloca um porém que vale a discussão.
“Isso é bom, mas pode ser um pouco limitante. Eu acho que reforça aquela ideia de que quadrinho é coisa de criança, quando a pessoa tá começando a ler.”
Ivan Costa
Cofundador da CCXP e curador da Alameda dos Artistas
É uma inversão interessante. Se insistirmos apenas que HQ é ótima para começar a ler, podemos involuntariamente sugerir que existe um momento em que você deveria abandoná-la e passar para alguma leitura supostamente mais séria.
Não existe.
Ivan defende o estímulo à leitura por meio dos quadrinhos, inclusive para um público que, com o passar dos anos, passou a disputar seu tempo com telas, redes sociais, streaming e tantas outras formas de entretenimento. Mas a chave, para ele, é não oferecer um único tipo de HQ.
Turma da Mônica pode funcionar para alguém. Para outro leitor pode ser mangá. Para outro, uma adaptação literária em quadrinhos. Pode ser slice of life, histórias sobre assuntos brasileiros, comunidades ou temas do dia. Quanto maior a variedade, maior a chance de alguém encontrar uma história que tenha a ver com sua própria vida.
“Diversificar a oferta pra esse público vai ser importante pra atrair mais gente pros quadrinhos.”
E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes que uma Alameda dos Artistas pode fazer dentro de uma Bienal: colocar diante de alguém que diz “eu não gosto de quadrinhos” uma quantidade suficiente de quadrinhos diferentes até surgir a pergunta inevitável:
De quais quadrinhos você não gosta?
Porque dizer que não gosta de quadrinhos faz mais ou menos tanto sentido quanto dizer que não gosta de livros.
Agora é fazer o espaço funcionar
A Alameda dos Artistas estreia na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece de 4 a 13 de setembro, no Distrito Anhembi. Mas Ivan evita cravar que o formato já está garantido para as próximas edições.
A Bienal do Rio de 2025 já teve um espaço semelhante e agora São Paulo faz o mesmo movimento. Ivan faz questão de lembrar que não integra a organização da Bienal: foi convidado para ser o curador da Alameda. Na avaliação dele, a organização vai olhar com atenção para a reação do público e para o feedback recebido nesta primeira experiência.
Isso deve ajudar a determinar o espaço que a Alameda e os quadrinhos como um todo terão na programação das próximas edições.
“É uma responsabilidade muito grande, não só minha como curador, mas mesmo de quem tá expondo ali pela primeira vez, né? Meio que uma responsabilidade compartilhada, assim.”
Ivan Costa
Cofundador da CCXP e curador da Alameda dos Artistas
A missão, segundo Ivan, é fazer um bom papel, firmar esse espaço e garantir não apenas sua continuidade, mas seu crescimento e a presença dos quadrinhos nos diferentes locais e palcos da Bienal.

No fundo, voltamos àquela primeira ideia.
Leituras, e não só literatura.
Quadrinhos já estavam na Bienal. Os leitores também. Os artistas também. Talvez a grande novidade de 2026 seja uma instituição do tamanho da Bienal Internacional do Livro de São Paulo criar um lugar próprio para reunir esses autores e, ao fazer isso, colocar diante de um público muito maior tudo aquilo que quem vive no meio dos quadrinhos já conhece há bastante tempo.
Agora é com o público. De 4 a 13 de setembro, a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo ocupa o Distrito Anhembi, na Zona Norte da capital paulista. Quem quiser ver de perto os quadrinhos ocupando o espaço que sempre mereceram ainda pode garantir seu ingresso.