Brian Michael Bendis: “Se você quer estar nos quadrinhos, vá fazer um quadrinho”

EM ENTREVISTA EXCLUSIVA AO MUNDO GONZO, ROTEIRISTA FALA SOBRE MILES MORALES, ULTIMATE SPIDER-MAN, DEMOLIDOR, FRANK MILLER, QUADRINHOS AUTORAIS, SUA PRIMEIRA CCXP E POR QUE NINGUÉM PRECISA MAIS ESPERAR PERMISSÃO PARA PUBLICAR

Brian Michael Bendis estará na CCXP26, de 3 a 6 de dezembro, no São Paulo Expo.
Brian Michael Bendis estará na CCXP26, de 3 a 6 de dezembro, no São Paulo Expo. - Luigi Novi/Wikimedia Commons – CC BY 4.0

Tudo começou como quase sempre acontece comigo quando o assunto é quadrinho: com uma dúvida de leitor antes mesmo de virar pauta. Qual HQ de Brian Michael Bendis eu levaria para ele autografar na CCXP26? A pergunta acabou virando uma coluna sobre a primeira participação dele no evento. Fui passando mentalmente pela estante, separando Ultimate Spider-Man, Demolidor, Powers, Superman, Sam & Twitch e aquelas grandes sagas da Marvel dos anos 2000 que ocupam um espaço considerável na história recente da editora e, dependendo do leitor, também um espaço considerável dentro de casa. No meio dessa busca ainda apareceu Avengers vs. X-Men, com a possibilidade de reunir assinaturas de mais de um convidado confirmado para dezembro. A ideia era simples: montar um guia para quem, como eu, provavelmente vai chegar à CCXP olhando para a própria coleção e pensando o que vale colocar na mochila. Link da coluna anterior

A matéria saiu, Bendis viu a publicação e aceitou participar como colaborador do post no Instagram. Foi aí que pensei que talvez valesse tentar ir um pouco além. Perguntei se ele toparia uma entrevista. A resposta veio do jeito mais direto possível: “No problem. Anything that helps the show.” Algo como “Sem problema. Tudo que puder ajudar o evento”. Aproveitei a porta aberta, mandei oito perguntas por e-mail e deixei claro que ele poderia responder quantas quisesse. Bendis respondeu as oito, e não economizou nas respostas.

Foi aí que a pauta deixou de ser apenas sobre o que levar para uma sessão de autógrafos. Bendis falou sobre o tamanho que Miles Morales alcançou muito além de quem o criou, voltou ao nascimento de Ultimate Spider-Man para explicar como uma conversa sobre reinventar Peter Parker acabou ajudando a criar outro Homem-Aranha, revisitou a parceria com Alex Maleev em Demolidor e contou por que se considera um “filho de Frank Miller” sem nunca ter querido simplesmente repetir o que Miller havia feito. Também falou sobre quadrinhos autorais, sobre diálogo, sobre as mudanças da indústria e sobre uma coisa que apareceu várias vezes nas respostas: a ideia de que ninguém deveria ficar esperando autorização para começar a fazer quadrinhos.

E teve uma resposta que me levou direto de volta àquela primeira matéria. Eu queria saber qual HQ Bendis gosta de ver chegando à mesa de autógrafos. Pensei em edição rara, alguma coisa obscura da carreira, um quadrinho que surpreendesse até ele. Não foi por aí. Bendis gosta especialmente do quadrinho que entrega o leitor, aquele exemplar que já foi aberto tantas vezes que não existe plástico protetor capaz de esconder a história que ele carregou. Nas palavras dele, a HQ que “parece que foi atropelada por um carro”. Para quem começou essa história justamente escolhendo o que levar para ele assinar, a resposta resolveu boa parte da dúvida.

A entrevista foi feita por e-mail, mas eu preferi não transformar oito respostas longas numa sequência seca de perguntas e respostas. Mantive o máximo possível do que Bendis escreveu e fui entrando apenas onde a história pedia contexto, lembrança ou ligação entre um assunto e outro. Miles, Peter Parker, Demolidor, Frank Miller, Powers e a própria maneira de entrar hoje no mercado parecem assuntos bem diferentes, mas, lendo tudo de uma vez, existe uma ideia que passa por quase toda a conversa: quadrinhos continuam andando porque personagens e autores mudam, experimentam e encontram novas formas de conversar com quem está do outro lado da página.

Miles Morales chegou ao Brasil antes de Bendis

Brian Michael Bendis estará na CCXP26 durante os quatro dias do evento, de 3 a 6 de dezembro. Quando olho para o currículo dele, dá para puxar assunto por quase qualquer lado: Ultimate Spider-Man, Demolidor, Vingadores, X-Men, Superman, Powers. Mas, para o público brasileiro e também para mim, havia um nome que inevitavelmente aparecia no meio de tudo: Miles Morales. É o personagem que atravessou os quadrinhos e chegou a gente que talvez nunca tenha comprado uma revista escrita por Bendis.

Eu queria saber justamente o que ele tinha percebido daqui antes de finalmente colocar os pés numa CCXP. Perguntei o que havia ouvido sobre os leitores brasileiros e o que esperava encontrar no evento. Bendis não começou falando da convenção. Começou falando de Miles.

Brian Michael Bendis: “Isso vem de anos atrás. Por volta da época da estreia de Miles Morales, fiquei muito consciente de como o personagem era recebido calorosamente nesta parte do mundo. E foi mais ou menos na mesma época em que a convenção (CCXP) parece ter explodido no cenário mundial.”

Aqui a cronologia pede um pouco de cuidado. Miles apareceu em 2011, ainda dentro do Universo Ultimate. A CCXP só faria sua primeira edição alguns anos depois e então cresceria até virar um dos grandes encontros de cultura pop do mundo. Não faz sentido apertar essas datas para fazê-las caber perfeitamente na mesma lembrança. O que me interessa na resposta é outra coisa: Bendis já tinha percebido, bem antes de vir ao Brasil, que Miles encontrava por aqui uma recepção especialmente calorosa, numa época em que o personagem ainda precisava provar que poderia ocupar aquele espaço ao lado de Peter Parker.

Hoje é até estranho lembrar que Miles precisou passar por esse tipo de prova. Ele não é mais “o outro Homem-Aranha” que precisa de uma explicação antes de entrar na conversa. Está nos quadrinhos, na animação, nos videogames e no imaginário de gente que conheceu primeiro o uniforme preto e vermelho e só depois foi descobrir Ultimate Fallout #4. Então fiz a pergunta óbvia: depois de tudo isso, alguma coisa no tamanho que Miles ganhou ainda conseguiu surpreender Bendis? A resposta foi basicamente tudo.

Brian Michael Bendis: “Tudo em torno desse personagem me surpreendeu. É tudo o que você poderia esperar, mas a maior parte das razões pelas quais alguma coisa se torna um sucesso está fora das mãos de qualquer indivíduo. O que mais me espanta é que o personagem, e o mundo ao redor dele, parece extrair o melhor de muitos criadores diferentes, vindos dos mais diversos lugares. Dos animadores aos designers de videogames e artistas de quadrinhos. Ele extrai o melhor da criatividade das pessoas. Isso realmente me deixa impressionado.”

Foi uma das coisas que mais me chamou atenção na conversa. Bendis poderia facilmente puxar o sucesso de Miles para perto do próprio nome, mas faz o contrário. Ele fala de uma criação que saiu das mãos de quem a colocou no mundo e continuou crescendo com outras equipes, outras mídias e outros olhares. Em vez de reivindicar o centro da história, ele prefere observar o que Miles faz com a criatividade de quem trabalha com o personagem.

Brian Michael Bendis: “Não estou levando o crédito por isso porque não sei como aconteceu ou por que aconteceu. Se eu soubesse como aconteceu, faria isso todos os dias :-) Mas fico muito feliz por fazer parte de algo que leva tantas pessoas ao seu melhor e que gera trabalho para elas. Ele é um baita gerador de empregos. Isso me deixa muito feliz.”

Quando li “Ele é um baita gerador de empregos”, parei um pouco nessa frase. É engraçada, mas também é uma maneira muito particular de medir o tamanho de um personagem. Bendis poderia falar de vendas, bilheteria, prêmio ou popularidade. Preferiu falar de gente trabalhando. Animadores, desenhistas, roteiristas, designers de jogos e profissionais que talvez nunca tenham dividido uma sala com os criadores originais. Para ele, parte do sucesso de Miles está também na quantidade de trabalho criativo que continua surgindo ao redor do personagem.

“O que mais me espanta é que Miles parece extrair o melhor de muitos criadores diferentes. Dos animadores aos designers de videogames e artistas de quadrinhos. Ele extrai o melhor da criatividade das pessoas.”

BRIAN MICHAEL BENDIS — ROTEIRISTA E COCRIADOR DE MILES MORALES

Criado por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli, Miles Morales cresceu muito além do Universo Ultimate onde apareceu pela primeira vez.
Criado por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli, Miles Morales cresceu muito além do Universo Ultimate onde apareceu pela primeira vez. - Divulgação/Marvel Comics

Ultimate Spider-Man e a pergunta que acabou criando outro Homem-Aranha

Eu cheguei novamente a Miles por um caminho que, no começo da entrevista, parecia ser só sobre Peter Parker. Em 2000, Ultimate Spider-Man nasceu com uma missão que qualquer leitor entende e qualquer roteirista sabe que é complicada: voltar ao começo do Homem-Aranha sem carregar décadas de continuidade nas costas. Bendis e Mark Bagley puderam alongar a adolescência de Peter, dar mais espaço para escola, família e relações pessoais e contar aquela origem com outro ritmo. Para muita gente da minha geração e da seguinte, foi uma porta de entrada.

Mais de 25 anos depois, eu quis saber o que ele faria se recebesse a mesma missão hoje. Não era uma pergunta sobre nostalgia. Era sobre olhar para 2026 e imaginar de novo um Homem-Aranha construído para leitores que estão chegando agora. Só que a resposta de Bendis mostrou que essa conversa sobre fazer diferente já teve uma consequência muito maior do que outra versão de Peter Parker.

Brian Michael Bendis: “Bem, cerca de 15 anos atrás, foi justamente essa conversa que trouxe Miles Morales à vida. Estávamos aproveitando o sucesso da revista do Aranha e conversando sobre o que faríamos diferente, e essa conversa acabou se transformando naquela que trouxe Miles Morales ao mundo.”

Foi aí que a pergunta mudou de tamanho para mim. O passo seguinte de Ultimate Spider-Man não precisava ser apenas outra atualização de Peter Parker. Quando a equipe começou a discutir o que faria diferente, abriu espaço para algo que não cabia numa simples revisão da origem: um novo personagem poderia vestir a máscara. E desse debate nasceu Miles.

Brian Michael Bendis: “E, se eu recebesse isso novamente hoje, acho que essas ideias poderiam ser levadas ainda mais longe. Homem-Aranha: Um Novo Dia mostrou um pouco disso. Homem-Aranha, assim como Batman, é um personagem construído para uma evolução confiante.”

A expressão “evolução confiante” ficou comigo porque resume bem um problema que acompanha personagens como Homem-Aranha e Batman. Eles precisam continuar reconhecíveis, mas também não podem viver repetindo para sempre as mesmas histórias. Toda mudança vai irritar alguém e toda repetição também cobra seu preço. Bendis já trabalhou muitas vezes nesse limite. Ultimate Spider-Man preservou o que fazia Peter funcionar sem tratar a cronologia anterior como uma obrigação, e Miles mostrou que a ideia de Homem-Aranha podia continuar viva até quando mudava a pessoa debaixo da máscara.

Quanto mais eu olhava para essa resposta, mais ela parecia conversar com o resto da carreira de Bendis. Na Marvel, ele mexeu em estruturas que pareciam intocáveis, principalmente com os Vingadores. Depois foi para a DC e assumiu Superman, outro personagem que sempre faz a discussão entre tradição e mudança voltar. Nem toda decisão dele agradou a todo mundo, e seria estranho se agradasse. Mas há uma linha que atravessa esse trabalho: personagens longevos continuam relevantes quando cada geração encontra alguma coisa nova para dizer com eles.

Demolidor, Alex Maleev e a melhor lição de Frank Miller

Demolidor me interessava por um motivo diferente. Aqui não era a história de um personagem novo tentando encontrar espaço. Era justamente o contrário: como escrever Matt Murdock depois de Frank Miller sem fingir que Frank Miller nunca existiu? A fase de Bendis com Alex Maleev continua entre as mais lembradas da carreira dele e ganhou nova publicação no Brasil em 2026. A Panini começou uma coleção dedicada ao período, colocando de volta nas livrarias brasileiras histórias feitas há cerca de 25 anos.

Eu quis saber o que Bendis acha que ele e Maleev descobriram sobre Matt Murdock naquela época para que tanta gente continue voltando àquela fase hoje. Antes de falar de técnica, referência ou construção de personagem, ele falou de uma coisa bem mais simples: o alívio de perceber que o trabalho envelheceu bem.

Brian Michael Bendis: “Alex (Maleev) e eu ficamos muito felizes que a série tenha envelhecido bem. Você tenta fazer isso, mas nem sempre consegue prever como as coisas vão envelhecer. As pessoas conversam conosco sobre a fase o tempo todo e ficam surpresas quando digo que fizemos aquilo quase 25 anos atrás.”

Essa resposta me pegou porque quem trabalha com qualquer coisa feita para o presente sabe que o tempo é um editor implacável. Quadrinho mensal nasce marcado pela época em que foi produzido, pela linguagem, pelo ritmo, pela impressão, pelas referências e pelas decisões editoriais. Não existe botão para garantir que uma história continue funcionando 25 anos depois. Bendis também não finge que existe. O que ele consegue apontar são escolhas que, olhando para trás, ajudaram aquela fase a encontrar uma identidade própria.

Brian Michael Bendis: “Fizemos duas coisas naquela série das quais tenho muito orgulho. Voltamos à fonte de inspiração original que trouxe o personagem à vida. Se você ler aquelas primeiríssimas edições de Daredevil, ele é muito mais um herói pulp, como O Sombra, do que qualquer outro herói da Marvel.”

E aí aparece o nome que era impossível evitar. Frank Miller não criou o Demolidor, mas mudou o personagem de um jeito que todo roteirista que chega depois precisa decidir como vai lidar com essa herança. Bendis não tenta diminuir essa influência nem posar de autor que chegou sem dívida nenhuma. Pelo contrário, assume de onde veio e explica que a homenagem não estava em copiar a superfície do trabalho de Miller.

Brian Michael Bendis: E eu sou filho criativo do Frank Miller. Cresci lendo seu trabalho. É por causa dele que estou aqui. Foi o que me fez querer fazer quadrinhos. Mas fiz de tudo para garantir que não imitássemos Frank Miller. Nós respeitamos tanto sua contribuição que queríamos aprender a principal lição dele: trazer nós mesmos para o personagem.

Para mim, é aí que a resposta fica mais interessante. Influência e imitação não são a mesma coisa. Se a lição de Frank Miller fosse apenas repetir enquadramentos, tons, soluções narrativas e personagens, o resultado seria uma cópia atrasada. O que Bendis diz ter aprendido é outra coisa: Miller deixou marca porque colocou a própria visão no Demolidor. Respeitar esse trabalho, portanto, significava chegar com uma visão própria também.

Maleev foi fundamental para transformar essa ideia em página. As sombras, a atmosfera policial e a atenção à vida de Matt Murdock fora do uniforme deram à fase uma cara própria sem apagar o que vinha antes. E há um detalhe de que gostei especialmente: Bendis diz que, para encontrar seu Demolidor, também voltou para algo anterior a Miller, para o DNA pulp das primeiras histórias e para a proximidade com personagens como O Sombra. Em vez de escolher uma única versão do passado, ele foi procurar camadas diferentes dele.

“Respeitamos tanto o trabalho de Frank Miller que queríamos aprender sua maior lição: levar a nós mesmos para a obra.”

BRIAN MICHAEL BENDIS — ROTEIRISTA DE DEMOLIDOR

A fase de Brian Michael Bendis e Alex Maleev no Demolidor voltou às livrarias brasileiras em nova coleção publicada em 2026. – Divulgação/Panini Comics
A fase de Brian Michael Bendis e Alex Maleev no Demolidor voltou às livrarias brasileiras em nova coleção publicada em 2026. – Divulgação/Panini Comics

O que os quadrinhos autorais ainda oferecem depois de Marvel e DC

Depois de falar sobre levar a própria voz para um personagem que já existia, eu quis puxar a conversa para aquilo que realmente pertence aos autores. Bendis nunca tratou quadrinho autoral como uma fase que ficou para trás quando Marvel e DC abriram as portas. Powers, criada com Michael Avon Oeming, continuou atravessando editoras e formatos enquanto ele escrevia alguns dos personagens mais conhecidos dos quadrinhos americanos.

Eu queria saber o que ainda existe num projeto autoral para alguém que já pôde brincar com praticamente todos os brinquedos grandes da caixa: Homem-Aranha, Vingadores, X-Men, Demolidor, Superman. A resposta começou na propriedade da criação, claro, mas logo foi para o ponto que me parece mais importante: a liberdade de arriscar sem precisar justificar cada escolha pelo tamanho de uma franquia.

Brian Michael Bendis: “Sempre mantive meus projetos autorais acontecendo. É um presente. Você aprende muito cedo como é especial poder criar coisas sozinho ou com seus amigos. E ser dono delas. Poder arriscar. Quadrinhos não custam muito para serem feitos, então você pode tomar decisões criativas maiores do que conseguiria em um programa de televisão que custa milhões de dólares para produzir. Nós podemos fazer o que quisermos. Fazemos os quadrinhos que gostaríamos de poder comprar.”

Gostei especialmente da maneira simples como ele resumiu isso. Fazer um projeto autoral, para Bendis, é poder criar o quadrinho que você gostaria de encontrar numa loja e que ainda não existe. Antes de adaptação, planejamento de franquia ou qualquer conversa sobre mercado, vem a vontade de ler aquela história. E ele transforma essa ideia em conselho sem muita cerimônia.

Brian Michael Bendis: “Eu recomendo muito isso para todo mundo. Comece alguma coisa do zero. Faça algo que você queira fazer.”

Só que a resposta não para numa divisão confortável entre “meus quadrinhos” e “os quadrinhos das grandes editoras”. Bendis diz que os anos fazendo projetos próprios acabaram mudando também a maneira como ele se aproxima de personagens que pertencem a Marvel e DC. A energia do trabalho autoral foi com ele para dentro dessas editoras.

Brian Michael Bendis: “Como fiquei tão acostumado a fazer isso, quando fui chamado pela Marvel e pela DC consegui levar essa energia dos trabalhos autorais comigo. Eu trato tudo como se fosse uma criação minha.”

Quando Bendis diz que trata tudo como se fosse uma criação dele, não está dizendo que Superman ou Homem-Aranha passaram a lhe pertencer. Eu leio de outra forma: ele fala do nível de envolvimento que leva para a página. Isso ajuda a entender uma carreira em que ele quase nunca parece interessado apenas em manter a máquina funcionando. Algumas mudanças deram muito certo, outras foram discutidas por anos, mas o princípio é parecido. Se vai escrever aquilo, precisa colocar alguma coisa sua em jogo.

Também explica por que Powers continua aparecendo na conversa com o mesmo entusiasmo de Miles Morales ou Demolidor. O tamanho comercial de cada propriedade é muito diferente, mas Bendis não fala delas como se uma fosse trabalho sério e a outra um projeto paralelo para preencher espaço. Para alguém que recomenda a novos autores começar criando os próprios quadrinhos, continuar cuidando dos próprios projetos faz parte da mesma lógica.

A HQ que parece ter sido atropelada por um carro

Essa era uma das perguntas que eu mais queria fazer porque vinha diretamente da matéria que abriu o caminho para a entrevista. Eu estava pensando no que levar para Bendis autografar na CCXP e quis saber se existia algum quadrinho que ele gostasse especialmente de ver chegando à mesa. Podia ser uma raridade, uma obra esquecida, alguma coisa que fizesse o autor olhar e pensar que aquele leitor tinha ido muito fundo na carreira dele. A resposta acabou sendo bem mais simples e, para mim, muito melhor.

Eu estava esperando o nome de algum título. Não veio. Bendis começou dizendo que ainda se impressiona com qualquer pessoa que apareça levando alguma coisa para ele assinar. Isso já mudava a direção da pergunta antes de ele explicar qual exemplar realmente chama sua atenção.

Brian Michael Bendis: “Sinceramente, nunca vou deixar de me impressionar com alguém trazendo qualquer coisa para eu assinar. Tudo isso ainda me parece uma situação incrível.”

A primeira parte da resposta já deixava claro que ele não estava montando uma hierarquia de colecionador. Depois, quando explicou o que mais gosta de encontrar, ficou ainda mais fácil entender. O quadrinho preferido não é necessariamente o mais raro. É aquele em que dá para ver que houve leitura.

Brian Michael Bendis: Minha situação favorita é quando alguém traz um quadrinho claramente muito lido. O exemplar parece que foi atropelado por um carro. Dá para ver que a pessoa leu e releu inúmeras vezes. Essa é a melhor parte.”

Essa imagem me ganhou na hora porque bate de frente com uma parte muito familiar da cultura de quem coleciona quadrinhos. A gente protege capa, lombada, coloca plástico, organiza a estante e tenta atrasar o máximo possível qualquer marca do tempo. Eu faço isso também. Bendis não desmerece esse cuidado e diz gostar de ver quadrinhos tratados como pequenos tesouros. Só que, para ele, há alguma coisa especialmente boa em pegar uma edição e perceber que alguém realmente leu, releu e carregou aquele quadrinho pela vida.

Brian Michael Bendis: Claro que adoro quando os leitores trazem seus quadrinhos impecáveis, protegidos, embalados e tratados como pequenos tesouros. Mas gosto especialmente quando fica evidente que o quadrinho foi realmente lido. Isso é o máximo.

E ainda havia outra camada nessa resposta. Quando Bendis fala de seus trabalhos autorais, a distância pesa de um jeito diferente. Ele vai estar no Brasil, longe de casa, e pode encontrar sobre a mesa um quadrinho que nasceu fora das grandes franquias e chegou até aqui porque algum leitor resolveu acompanhá-lo. Para um autor, deve ser uma medida muito concreta de até onde uma história conseguiu viajar.

Brian Michael Bendis: Mas também vou sempre torcer pelas histórias de minha autoria. É incrível saber que, quando eu estiver tão longe de casa, no Brasil, alguém ali terá em mãos um dos nossos quadrinhos mais recentes.”

Quando volto à pergunta original sobre qual HQ levar para Bendis, a resposta ficou mais simples. Pode ser Ultimate Spider-Man, Demolidor, Powers, Superman, Sam & Twitch ou qualquer outra. Se o quadrinho tiver marca de leitura, melhor ainda. O autógrafo vai entrar numa história que aquele exemplar já começou a contar muito antes de chegar à mesa da CCXP.

Brian Michael Bendis autografa uma edição de Ultimate Spider-Man #1 em encontro com leitores em Nova York, em 2019. – Luigi Novi/Wikimedia Commons – CC BY 4.0
Brian Michael Bendis autografa uma edição de Ultimate Spider-Man #1 em encontro com leitores em Nova York, em 2019. – Luigi Novi/Wikimedia Commons – CC BY 4.0

O som do diálogo

Se existe uma coisa que acompanha Brian Michael Bendis desde muito antes de Miles Morales virar personagem de animação e videogame, é o jeito de escrever diálogo. Quem leu bastante coisa dele reconhece as interrupções, as repetições, os silêncios e aquelas conversas que parecem ter sido pescadas no meio de uma sala em vez de montadas apenas para entregar informação ao leitor. Eu queria saber se, depois de tantos anos, ele ainda pensa no diálogo do mesmo jeito.

Essa pergunta me interessava porque o estilo de Bendis também é um dos mais fáceis de imitar por fora. Colocar muita fala, interrupção e balão numa página não significa que a conversa vai soar viva. O que eu queria entender era o que ele escuta quando escreve e se isso mudou com o tempo. A resposta começou pela ideia de evolução.

Brian Michael Bendis: “Eu agradeço muito a pergunta porque passei muito tempo pensando nisso e, sim. Faço isso há bastante tempo e a evolução vem junto. Você experimenta coisas diferentes com personagens diferentes, mundos diferentes e quadrinhos diferentes.”

Foi aí que ele chegou num ponto que eu acho mais útil do que qualquer receita de diálogo. Não existe uma voz de Bendis que possa ser simplesmente colada em todo personagem. Um personagem fala muito, outro resolve alguma coisa com um olhar, e o ritmo ainda muda conforme quem está do outro lado da conversa.

Brian Michael Bendis: “Alguns personagens são conhecidos por falar muito, enquanto outros são conhecidos pelo que Steve McQueen dizia: ‘fazer com um olhar’. Cada personagem fala de uma maneira diferente. Cada personagem encontra um ritmo diferente com seus inimigos, amigos e familiares.”

Esse pedaço sobre inimigos, amigos e família me interessou especialmente porque é uma coisa fácil de esquecer quando se fala em “voz” de personagem. Ninguém conversa do mesmo jeito com todo mundo. Com intimidade, a gente corta caminho. Em conflito, escolhe palavra. Em família, há coisas que nem precisam ser ditas porque todo mundo conhece o que veio antes. Bendis está olhando para a fala, mas também para o corpo e para a relação entre aquelas pessoas.

Brian Michael Bendis: “Adoro ouvir a maneira como as pessoas falam e como se comunicam umas com as outras, tanto verbal quanto fisicamente. Você aprende coisas novas o tempo todo. E a maneira como as pessoas se comunicam tem uma base, mas também muda com o tempo.”

Tem outra camada aí que fica ainda mais clara quando lembro há quanto tempo Bendis escreve profissionalmente. Ele começou antes de mensagem instantânea, rede social e smartphone mudarem a velocidade e até a forma como as pessoas conversam. O diálogo que soava contemporâneo em 2000 não pode ser copiado e colado em 2026. Gíria envelhece, ritmo muda, texto invade a fala e fala invade o texto. Se o trabalho depende de ouvir gente, então é preciso continuar ouvindo.

Brian Michael Bendis: “Estou sempre tentando seguir a ideia de que menos é mais, mas sou apaixonado pelo som do diálogo.”

Eu gostei do aparente paradoxo dessa última resposta. Bendis é um roteirista associado a páginas cheias de conversa e, ao mesmo tempo, diz perseguir a ideia de que menos é mais. Para mim, uma coisa não anula a outra. Menos pode ser tirar a explicação que sobra, deixar um olhar resolver o que não precisa de fala ou encontrar exatamente o número de palavras que aquele personagem usaria naquela situação.

A indústria em que Bendis entrou já não existe do mesmo jeito

A última parte da conversa acabou saindo dos personagens e indo para a profissão. Bendis entrou nos quadrinhos num tempo em que publicar significava encontrar uma editora, conseguir distribuição e convencer alguém de que valia a pena apostar no seu trabalho. Essa porta continua existindo. A diferença é que hoje ela já não é a única entrada.

Claro que isso não resolveu a vida de ninguém. Digital, impressão sob demanda, financiamento coletivo, redes sociais e venda direta abriram caminhos, mas trouxeram outros problemas junto. Há mais oferta, mais gente disputando atenção e a velha dificuldade de transformar leitor em renda. Ainda assim, o autor que quer começar hoje tem ferramentas que simplesmente não existiam quando Bendis entrou no mercado.

Foi esse lado que ele preferiu destacar. Em vez de tratar a mudança apenas como tecnologia ou formato, Bendis falou de uma liberdade muito concreta: a possibilidade de começar sem ficar esperando alguém dar permissão. E essa palavra, permissão, acabou costurando várias partes da entrevista.

Brian Michael Bendis: “Cada vez mais pessoas estão percebendo que não precisam esperar permissão para serem publicadas. Elas simplesmente podem colocar seu trabalho no mundo. E deveriam fazer isso.”

Quando li essa resposta, comecei a perceber como essa ideia já vinha aparecendo desde antes. Miles nasceu de uma conversa sobre mudar o Homem-Aranha. Com Frank Miller, Bendis diz que aprendeu que a lição não era copiar, mas colocar a própria visão no trabalho. Nos projetos autorais, recomenda começar alguma coisa do zero. Agora ele leva o raciocínio para quem ainda nem conseguiu entrar profissionalmente no meio. O conselho é começar a fazer antes de alguém aparecer para dizer que você pode.

Brian Michael Bendis: “Você não deveria ficar esperando alguém gostar do seu trabalho. Coloque seu trabalho lá fora. Conecte-se com seus leitores sozinho, um por um. Vá às convenções. Encontre as suas pessoas.”

E aqui a CCXP volta para a história de um jeito que faz sentido. Convenção é vitrine para personagem gigante, editora grande e anúncio, mas também é mesa, corredor, conversa rápida e gente encontrando gente. Bendis está falando justamente dessa construção pequena, leitor por leitor, mesmo num tempo em que um arquivo pode ser publicado para o mundo inteiro em segundos. A tecnologia mudou. A necessidade de encontrar as suas pessoas, pelo que ele diz, não mudou tanto assim.

Brian Michael Bendis: “Tudo isso continua igual, mas, quando eu estava começando, você precisava encontrar uma editora ou não seria publicado. Esse não é mais o caso e você deveria aproveitar isso. Porque aquela nunca foi a melhor ideia.”

Isso não é uma promessa de que publicar sozinho vai pagar boleto, garantir editora ou transformar alguém em profissional do dia para a noite. Bendis não vende essa fantasia. O que muda é o ponto de partida. Antes, muita gente começava tentando convencer um editor, uma empresa ou alguém que controlava impressão e distribuição. Na visão dele, hoje o primeiro verbo pode ser fazer.

Brian Michael Bendis: Se você quer trabalhar com quadrinhos, vá fazer um quadrinho. A partir desse momento, você já está nos quadrinhos.

Eu gosto dessa resposta justamente porque ela não promete o resto. O quadrinho pode ser bom ou ruim, vender ou não vender, encontrar uma editora ou ficar restrito a poucos leitores. Pode virar filme ou nunca sair de uma pequena tiragem. Nada disso vem garantido. O que Bendis está dizendo é que fazer o quadrinho já muda a posição de quem estava do lado de fora apenas esperando uma chance.

Em dezembro, Bendis finalmente vai encontrar parte daquele público brasileiro que diz ter percebido desde os primeiros anos de Miles Morales. Alguns leitores vão chegar com edições impecáveis dentro do plástico. Outros podem aparecer com Ultimate Spider-Man de lombada castigada, Demolidor relido até perder o brilho ou Powers que já passou por estante, mochila e mudança de casa. Ele já deixou claro que gosta dos dois tipos de leitor e dos dois tipos de quadrinho.

E é difícil não imaginar que, em algum ponto do Artists’ Valley, também vai aparecer alguém carregando o primeiro quadrinho que conseguiu fazer. Talvez seja uma edição pequena, impressa por conta própria, talvez seja só o começo de alguma coisa. Para esse leitor, a última resposta de Bendis vale mais do que qualquer fórmula pronta de entrada na indústria, porque ela devolve a questão para o lugar mais básico possível: fazer o trabalho e colocá-lo no mundo.

“Se você quer estar nos quadrinhos, vá fazer um quadrinho. E você está nos quadrinhos.”

BRIAN MICHAEL BENDIS — ROTEIRISTA E COCRIADOR DE MILES MORALES, POWERS E JESSICA JONES

Brian Michael Bendis estará pela primeira vez na CCXP em dezembro, em São Paulo – Divulgação/CCXP
Brian Michael Bendis estará pela primeira vez na CCXP em dezembro, em São Paulo – Divulgação/CCXP - Divulgação/CCXP

SERVIÇO — CCXP26

Quando: 3 a 6 de dezembro de 2026 Onde: São Paulo Expo — Rodovia dos Imigrantes, km 1,5, São Paulo
Brian Michael Bendis: presença confirmada nos quatro dias do evento; participação anunciada em parceria com o Baú das HQs.
Autógrafos: o Baú das HQs disponibilizou pacotes de autógrafos de Brian Michael Bendis para a CCXP26, com diferentes modalidades e quantidade de assinaturas.
Meet & Greet: também há opção de pacote para encontro com o autor. Valores, disponibilidade e condições devem ser consultados diretamente no Baú das HQs.
Mais informações e pacotes de Bendis
Entrevista: concedida por e-mail.