Bill Sienkiewicz e o amor do brasileiro pelos quadrinhos: uma entrevista inédita de 2017

Mexer em velhos HDs às vezes traz umas boas surpresas. Por exemplo, esta entrevista estava guardada havia nove anos. No dia 10 de dezembro de 2017, durante a CCXP, sentei por alguns minutos com Bill Sienkiewicz. E dizer que ele é apenas um desenhista de quadrinhos é uma daquelas simplificações que começam erradas. Sienkiewicz é um artista que ajudou a mostrar até onde uma página de quadrinhos poderia ir quando alguém resolvesse ignorar algumas regras.

Novos Mutantes, Elektra: Assassina, Demolidor: Amor e Guerra, Cavaleiro da Lua. Seu trabalho mistura pintura, colagem, expressionismo, fotografia e tudo mais que pareça necessário para contar uma história. A entrevista nunca foi publicada. Nove anos depois, voltei a ela e foi curioso perceber que uma conversa de poucos minutos sobre Brasil, CCXP e quadrinhos acabou dizendo algumas coisas que fazem ainda mais sentido hoje.

Elektra: Assassina é um dos trabalhos que consolidaram a linguagem experimental de Bill Sienkiewicz.
Elektra: Assassina é um dos trabalhos que consolidaram a linguagem experimental de Bill Sienkiewicz. - Marvel/Divulgação

Sienkiewicz já conhecia bem o país. Quando conversamos, calculava ter vindo ao Brasil seis ou sete vezes. Era seu segundo ano seguido na CCXP de São Paulo e ele já falava em transformar a viagem em tradição.

“Espero vir todos os anos. Acho que isso vai se tornar uma tradição, como ir a San Diego.”

Mas foi quando perguntei o que encontrava de diferente por aqui que apareceu algo que atravessa toda a conversa: os fãs.

“A paixão dos fãs no Brasil e o amor pela linguagem dos quadrinhos são incríveis.”

“A PAIXÃO DOS FÃS NO BRASIL E O AMOR PELA LINGUAGEM DOS QUADRINHOS SÃO INCRÍVEIS.”
— Bill Sienkiewicz

Ele falou também sobre o respeito pela arte. Fez questão de explicar que não estava dizendo que isso não existia em outros países. Era outra coisa: “Há algo muito especial no Brasil.” E aí veio uma comparação que, em 2017, já parecia enorme. Para Sienkiewicz, a CCXP rivalizava com a San Diego Comic-Con. Talvez até a superasse.

“É maior que San Diego. Sim, é.”

Não sei se precisamos transformar isso numa disputa entre convenções. Nem acho que esse seja o ponto. O mais interessante é lembrar de quando essa frase foi dita: a CCXP tinha apenas quatro anos.

Uma grande família

Sienkiewicz quase não conseguia passear pelo evento. No primeiro dia havia participado de três painéis e ainda estava preocupado porque não conseguira autografar para tanta gente quanto gostaria. Mesmo assim, conseguiu olhar para o trabalho produzido por aqui. “O que eu vi é simplesmente espetacular.”

E falou dos artistas brasileiros e sul-americanos de uma maneira que gosto particularmente: “É uma grande família da qual fazer parte.” Talvez exista aí uma parte da relação de Sienkiewicz com o Brasil que números de público não conseguem explicar.

Em outro momento da conversa, ele lembrou de uma visita ao Rio de Janeiro e da desigualdade que encontrou na cidade. “Quando estive no Rio, fui às favelas e vi a disparidade entre os muito ricos e as pessoas que não são nem um pouco ricas. Estamos vendo mais disso nos Estados Unidos.”

Mas a lembrança acabou levando novamente aos fãs e veio uma das minhas frases favoritas de toda a entrevista. Sienkiewicz disse que existia uma energia tão grande no público brasileiro que quase parecia que “as pessoas e os fãs do Brasil fizeram isso existir pela força da vontade”. Ele estava falando do crescimento daquele universo em torno dos quadrinhos. Nove anos depois, é uma frase difícil de ignorar.

O Artists’ Alley da CCXP17, espaço que Sienkiewicz destacou ao falar da paixão dos brasileiros pelos quadrinhos.
O Artists’ Alley da CCXP17, espaço que Sienkiewicz destacou ao falar da paixão dos brasileiros pelos quadrinhos. - CCXP/Divulgação

E então chegamos ao papel

Mas existe uma resposta no final da entrevista que foi o verdadeiro motivo para eu querer tirar essa conversa da gaveta tantos anos depois. Perguntei qual diferença ele enxergava entre a importância dos quadrinhos no Brasil e nos Estados Unidos. A resposta veio em 2017. Guarde essa data.

Nos Estados Unidos, segundo Sienkiewicz, havia uma enorme base de fãs, mas os quadrinhos começavam a ser enxergados cada vez mais também como “caminhos para TV e cinema”. Parece óbvio hoje. Em 2017, talvez nem tanto. “Você vê isso cada vez mais”, disse. Então ele olhou para o Brasil.

“Mas acho que no Brasil ainda existe o amor pelos quadrinhos. Isso não mudou tanto quanto mudou nos Estados Unidos.”

“Aqui é muito mais sobre os livros impressos.”

“NO BRASIL AINDA EXISTE O AMOR PELOS QUADRINHOS.”
— Bill Sienkiewicz

Foi aí que a entrevista de 2017 encontrou 2026. Porque muita coisa aconteceu nesses nove anos. Quadrinhos viraram combustível para uma indústria gigantesca de filmes, séries, streaming, games e propriedades intelectuais. Personagens que durante décadas viveram principalmente dentro de páginas passaram a ser conhecidos por milhões de pessoas que talvez nunca tenham entrado numa comic shop. Mas o papel não morreu. Muito menos por aqui.

Talvez Sienkiewicz tenha percebido naquele Artists’ Alley lotado alguma coisa que nós, brasileiros que vivemos no meio disso, temos dificuldade de enxergar justamente porque estamos dentro. Existe uma relação estranha e maravilhosa entre o leitor brasileiro e o objeto: a edição, a lombada, o papel, a coleção, o autógrafo, o artista sentado do outro lado da mesa.

Eu trabalho com quadrinhos há tempo suficiente para saber que nosso mercado tem problemas. Muitos. Preço, distribuição, tiragens, acesso. Não quero romantizar nada disso. Mas também sei o que acontece quando um leitor encontra um quadrinho que procurava havia anos. Sei o que é uma fila para conseguir um desenho ou uma assinatura. E sei o tamanho que uma convenção dedicada a esse universo conseguiu alcançar no Brasil.

Por isso, decidi que a entrevista não ficaria apenas no texto. A conversa inédita de 2017 também sai agora, na íntegra, no canal do Mundo Gonzo no YouTube, com o vídeo que ficou guardado durante todos esses anos.

Talvez por isso tenha gostado tanto de reencontrar essa entrevista. Bill Sienkiewicz me disse em 2017 que havia algo muito especial na relação dos brasileiros com os quadrinhos.

Demorei nove anos para publicar nossa conversa.

Ainda bem que os quadrinhos são feitos pra gente voltar neles de tempos em tempos. Essa entrevista também era pra ser revisitada. Ela ficou guardada tempo demais. Talvez por isso ela faça sentido agora. Algumas coisas precisam de tempo. Como os quadrinhos e como as histórias que a gente revisita.

Bill Sienkiewicz durante a CCXP 2017, edição em que esta entrevista foi gravada.
Bill Sienkiewicz durante a CCXP 2017, edição em que esta entrevista foi gravada. - Cassiano Pinheiro