IVAN REIS DEIXA A DC APÓS 20 ANOS E REVELA BASTIDORES DA GHOST MACHINE E DE HYDE STREET
Em entrevista exclusiva, o artista detalha a fundação da nova potência dos quadrinhos independentes, o retorno ao gênero de terror e os motivos que o levar
A MARCA DOS 20 ANOS E O SALTO DE FÉ
A marca de duas décadas desenhando os maiores ícones da DC Comics poderia representar o auge definitivo para qualquer artista, mas para Ivan Reis, tornou-se o sinal de que era hora de mudar. O trabalho com super-heróis, após milhares de páginas desenhadas, começou a entrar em um fluxo de produção quase mecânico. A técnica estava afiada, mas o desafio criativo diário começava a se dissipar.
Ironicamente, Ivan sempre alimentou uma meta pessoal silenciosa. Ele queria completar exatamente 20 anos na DC antes de tomar qualquer decisão drástica sobre o futuro. O universo conspirou a favor. Exatamente ao atingir essa marca, um encontro casual em uma convenção em Orlando mudou o rumo da sua carreira.
Geoff Johns e Peter Tomasi fizeram a proposta de criar algo totalmente novo, livre das amarras de propriedades intelectuais corporativas. “Eu dei o salto de fé. Falei que topava fazer a ideia que a gente ia desenvolver. Ele disse que ainda estavam pensando em como ia funcionar e se ia rolar dinheiro, mas eu falei: vamos embora”, relembra o desenhista.

O SEGREDO DE NOVA YORK E O ANÚNCIO NO BRASIL
A criação da Ghost Machine foi mantida sob absoluto sigilo durante a fase de estruturação. Quando a editora foi finalmente revelada ao mundo durante a New York Comic Con, o nome de Ivan Reis não estava na lista oficial de fundadores, apesar de ele estar presente no evento e já fazer parte integral do projeto.
A omissão foi estratégica e solicitada pelo próprio artista. Seu contrato de exclusividade com a DC ainda estava nos dias finais, e a editora concorrente promovia ativamente o evento Beast World, desenhado por ele. Misturar o lançamento corporativo da DC com o anúncio da sua saída criaria um ruído de comunicação desnecessário.
Além disso, a decisão abriu caminho para um movimento planejado e focado no público nacional. Ivan segurou a informação para transformar o anúncio em um momento histórico durante a CCXP, no Brasil, trazendo Geoff Johns para revelar a novidade diretamente aos fãs brasileiros.

GHOST MACHINE: A NOVA IMAGE COMICS?
A estruturação da Ghost Machine vai muito além de um simples selo editorial. A empresa funciona como uma engrenagem independente, possuindo controle financeiro, relações públicas e corpo editorial próprios. A parceria com a Image Comics acontece de forma cirúrgica na logística de distribuição e impressão.
Ivan traça um paralelo direto entre o momento atual e a fundação da própria Image nos anos 90. A Ghost Machine reúne os talentos responsáveis por moldar visual e narrativamente a cultura pop das últimas duas décadas, influenciando de adaptações cinematográficas bilionárias a linhas de colecionáveis.
“A gente costuma falar que somos a Image 2.0. Corrigimos algumas coisas que vimos que não funcionaram ao longo dos anos na primeira tentativa. E não tinha outro lugar para publicar que não fosse a Image, porque eles entendem o que é esse movimento criativo”, explica.

HYDE STREET E O FIM DOS SUPER-HERÓIS
Ivan Reis é responsável por um dos títulos mais sensacionais nessa nova empreitada: Hyde Street, que tem roteiro do parceiro Geoff Johns e arte-final do gigante Danny Miki. O projeto exige uma desconstrução total do estilo que o consagrou. Sai de cena a ação explosiva e a anatomia heroica hiper-realista, entra uma narrativa densa, calcada no terror psicológico.
É um retorno às suas raízes (quando começou ilustrando histórias de terror para a Bloch Editores), mas com uma maturidade artística brutalmente refinada. A série não foca em monstros gigantes ou sustos fáceis, preferindo explorar dilemas morais e atmosferas pesadas.

A liberdade de não precisar focar em poses heroicas permitiu que Ivan subvertesse as próprias regras. Em Hyde Street, os transeuntes nas ruas raramente possuem rostos definidos, mantendo-se sempre cobertos por sombras ou neblinas intensas. Tudo é planejado para amplificar a sensação de isolamento e mistério em torno do enigmático Scorekeeper, a entidade central da trama.
“Hyde Street deu um cavalo de pau no meu estilo. Capotou o que eu fazia com super-heróis. Ela me trouxe aquela energia criativa novamente, a vontade de arriscar, com a diferença de que eu posso ir para o caminho que eu quiser”, celebra o artista.

O PESO DA EVOLUÇÃO E O CARISMA DA ARTE
Mesmo sendo reverenciado como um dos maiores desenhistas do mundo, a rotina de trabalho continua sendo guiada por um perfeccionismo implacável. Ivan confessa que, não raras vezes, finaliza uma página inteira, encerra o expediente e, durante a madrugada, acorda com uma nova ideia, descartando todo o trabalho anterior para recomeçar do zero.
Quando questionado sobre o conselho definitivo para novos artistas que buscam dominar a anatomia e a perspectiva, a resposta escapa do pragmatismo técnico. O domínio das formas leva anos de repetição exaustiva (ele mesmo calcula ter produzido mais de 5.000 páginas ao longo da carreira), mas a técnica isolada não sustenta uma carreira duradoura.
“Desenho não é técnica, não é perfeição. Desenho é carisma. O cara pega aquilo, olha e fala que o desenho é feio, mas ele adora. E aí você pega outro com a perspectiva perfeita e a anatomia perfeita, e é só ok. É preciso produzir e terminar o que você começa”, sentencia.
“Desenho não é técnica, não é perfeição. Desenho é carisma.”

O LEGADO ESTÁ APENAS COMEÇANDO
Após construir fundações sólidas para Lanterna Verde, Aquaman e Liga da Justiça, o legado de Ivan Reis entra em um território inexplorado. O desafio não é mais liderar o ranking das 10 revistas mais vendidas das grandes corporações, mas construir um público exigente e cativo para um material totalmente independente e visceral.
Com Hyde Street programado para chegar ao Brasil pela editora Poptopia, o lançamento será na CCXP, assim como o anúncio do Ivan na Ghost Machine. Isso é uma prova de que o mercado autoral tem fôlego para bater de frente com as gigantes. A jornada do garoto que pegava ônibus para levar portfólios no estúdio de Mauricio de Sousa alcançou seu ápice lógico.
Hoje ele não apenas desenha as regras do jogo. Ele é o dono do tabuleiro.
Assista à entrevista completa com Ivan Reis no canal Mundo Gonzo.