Como mudar a Turma da Mônica sem perder a própria alma?

Assista à conversa completa acima. Crédito: Mundo Gonzo

Eu já estive algumas vezes com Mauricio de Sousa, algumas delas ao lado do Sidney Gusman, e nunca consegui entrevistá-lo. Não foi falta de oportunidade. Era bloqueio mesmo. Aqueles encontros me pareciam pessoais, em off, e sacar uma pauta do bolso naquela hora soava como uma pequena traição. Eu estava ali com o Sidão, não como o repórter que espera uma brecha para ligar o gravador.

Contei isso a Marina Sousa nos primeiros minutos da nossa conversa. Ela arregalou os olhos: ‘Não acredito. Não acredito! Que curioso! Nossa!’ Tentei explicar que já tinha entrevistado Pelé, grandes nomes dos quadrinhos brasileiros e estrangeiros e alguns dos artistas que formaram minha cabeça. Com Mauricio era diferente. Ali apareciam ao mesmo tempo o jornalista, o leitor e o menino que sabia que estava diante do sujeito que ajudou o Brasil inteiro a aprender o que era um gibi.

Marina riu e respondeu: ‘Agora caiu essa responsabilidade para mim. Agora estou sentindo esse peso.’ A frase parecia uma brincadeira, mas acabou resumindo os 49 minutos seguintes. A filha que aprendeu a ler nos gibis do pai agora ajuda a decidir como esses personagens vão chegar a crianças que nasceram cercadas por telas e que podem abandonar qualquer coisa com o movimento de um dedo.

A pauta parecia muito mais comportada quando nasceu. O ponto de partida era o Cascão vestido de Homem-Aranha. A imagem tinha chamado atenção no Catraca Livre, e eu entendi rapidamente o que estava acontecendo: era mais um choque de bolhas. Eu vivo no meio dos quadrinhos há tanto tempo que certas coisas parecem óbvias. Só que o óbvio da nossa bolha costuma ser novidade para quase todo mundo do lado de fora.

No Mundo Gonzo, eu posso citar Sidney Gusman, Osamu Tezuka, José Márcio Nicolosi ou uma Graphic MSP e seguir em frente. O público já sabe de onde estou partindo. No Catraca, a conversa é outra. Eu preciso abrir a porta sem tratar o leitor como alguém que chegou atrasado. Faço a mesma bobagem no trabalho com esporte: por viver dentro da redação, às vezes acho que todo mundo sabe o que eu sei. Não sabe. E ainda bem, porque jornalismo feito apenas para iniciados acaba virando uma reunião de condomínio.

Foi por isso que entrei na chamada querendo deixar uma coisa clara: collab não começou ontem na MSP. Eu tinha essa pergunta na cabeça, algumas anotações e a pretensão de manter a conversa sob controle. Quase uma hora depois, havia um Penadinho pedindo uma história de terror, mais de 70 artistas colocando o próprio traço no Limoeiro, uma criança de seis anos servindo de laboratório editorial e uma lembrança minha envolvendo Paul McCartney e um gibi desaparecido. A pauta tinha escapado. Ainda bem.

Cascão como Homem-Aranha em uma releitura do universo do herói da Marvel.
Cascão como Homem-Aranha em uma releitura do universo do herói da Marvel. - Divulgação/MSP Estúdios

Collab antes de a palavra virar moda

Hoje tudo vira collab. Duas marcas trocam logotipos, produzem uma foto, inventam uma hashtag e pronto: o departamento de marketing pode ir almoçar em paz. Na MSP, o impulso de atravessar universos veio muito antes de alguém colocar um nome em inglês na apresentação. Mauricio já procurava outros criadores no fim dos anos 1970 e no começo dos 1980. Osamu Tezuka é o caso mais simbólico, mas não foi o único. Will Eisner e Stan Lee também passaram por essa história. E, se quisermos voltar ainda mais, até o extrato de tomate da Cica colocou os personagens diante de uma marca e de um público que não estava necessariamente comprando gibi.

A apresentação da MSP percorre Tezuka, Hello Kitty, Naomi Watanabe, DC, Star Wars e outros encontros. A lista é grande, mas a pergunta por trás dela continua simples: o que acontece quando um personagem do Bairro do Limoeiro pisa num mundo que não foi criado para ele? Se esse encontro funciona, Mônica, Cebolinha ou Cascão não entram como adesivos colados numa embalagem. Eles precisam encontrar alguma coisa para fazer ali.

Osamu Tezuka e Mauricio de Sousa, em 1984.
Osamu Tezuka e Mauricio de Sousa, em 1984. - Acervo MSP Estúdios

“O Mauricio sempre teve esse interesse de buscar pessoas que trabalhem nesse mesmo universo que ele. Ele foi muito amigo do Osamu Tezuka, já encontrou Stan Lee. A gente tem esse costume de fazer histórias e paródias de super-heróis, personagens e mangás. Quem lê desde sempre sabe que isso acontece desde sempre. Até hoje, quando a gente lança uma collab, parece que é a primeira. É como se a gente dissesse: ‘Caramba, o Cascão está de Homem-Aranha!’”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

Enquanto Marina falava dessa sensação de primeira vez, a conversa esbarrou nas crianças. Ela citou o filho, de seis anos, que já passou por fases de Pokémon e Homem-Aranha. Eu tinha um exemplo da mesma idade a poucos metros de mim: minha enteada. Criança escolhe uma coisa e mergulha nela com a disposição de quem não pretende voltar tão cedo. Vê o mesmo episódio tantas vezes que o adulto ao lado começa a saber as falas contra a própria vontade.

Foi aí que o Cascão vestido de Homem-Aranha deixou de parecer apenas uma boa imagem. Se a criança já está agarrada ao herói da Marvel, a collab pode ser a ponte para outro personagem, outra história e, com sorte, outro gibi. O adulto enxerga nostalgia e duas marcas gigantes. A criança enxerga o personagem de que gosta chamando alguém novo para brincar.

Isso não significa que qualquer parceria sirva. Marina foi direta quando perguntei se a MSP recusa propostas comercialmente atraentes: recusa. A empresa fala com pessoas de todas as idades, mas continua tendo a infância no centro. Existem categorias proibitivas e ideias que não cabem naqueles personagens. A criatividade começa justamente quando o dinheiro na mesa não resolve sozinho o problema.

A nostalgia trabalha junto com o comercial

A Turma da Mônica chega a uma reunião antes da própria MSP. Ela entra carregada por quem está sentado do outro lado. Pode ser o primeiro gibi, uma revista herdada, uma história lida na escola ou uma personagem que ainda provoca aquela sensação meio ridícula e ótima de voltar para um lugar seguro. Marina chamou isso de ‘quentinho da infância’. É uma vantagem comercial poderosa, mas também é um campo minado: mexer nessa memória exige cuidado para não transformar afeto em produto preguiçoso.

“A Turma da Mônica faz parte da vida das pessoas. Quando a conversa parte da gente ou chega de um parceiro, é sempre ir para um lugar quentinho da infância, trazer essa nostalgia. Mas nosso foco também é buscar parcerias legais, descoladas e estar atento ao que está acontecendo, se faz sentido ou não. O foco da MSP é inovar mantendo o legado, a nostalgia, esse quentinho no coração que é característico da Turma da Mônica.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

Quando citei Star Wars, Marina puxou imediatamente o nome do roteirista Flávio Teixeira. Eu o conheço e entendi o raciocínio. Entregar a ele uma história com Star Wars e Turma da Mônica não é jogar dois manuais de marca sobre a mesa e desejar boa sorte. São dois universos que o autor ama. O repertório não está apenas no briefing; está na pessoa escolhida para escrever. É aí que a collab pode virar história em vez de campanha.

Coelhada nas Estrelas, paródia inspirada em Star Wars.
Coelhada nas Estrelas, paródia inspirada em Star Wars. - Divulgação/Panini e MSP Estúdios

As parcerias brasileiras seguem essa lógica e agora miram com mais força a Geração Z. Entram jogadores de futebol, criadores de conteúdo, artistas e nomes que talvez jamais aparecessem numa reunião da MSP de décadas atrás. Isso parece novidade até lembrarmos do Pelezinho. Na MSP, até a novidade costuma ter um antepassado escondido em alguma gaveta.

Os números explicam por que o assunto não vive apenas no departamento criativo. Segundo o Valor International, os negócios da MSP geraram cerca de R$ 2 bilhões nos últimos três anos. O licenciamento responde por aproximadamente 80% da receita, o catálogo reúne perto de 7 mil produtos e mais de 70 acordos foram assinados em doze meses. A meta é crescer 15% em 2026 e 60% nos próximos três anos. Collab pode começar numa boa ideia, mas também movimenta uma estrutura com 170 funcionários.

A reorganização colocou personagens e marcas no centro da empresa. Turma da Mônica e Chico Bento já ganharam operações próprias de conteúdo, produtos e negócios. Horácio e Penadinho estão entre os próximos. Quando perguntei se a MSP poderia oferecer outros personagens a parceiros que chegam querendo apenas a Mônica, Marina disse que eu estava fazendo ‘as melhores perguntas do mundo’. Eu ri e aceitei o agrado, mas a resposta que veio depois era mais importante: durante décadas, a força da Turma deixou outras criações no fundo da sala. A nova gestão quer puxá-las para a frente.

O terror que Marina jogou para o universo

Perguntei qual collab ela ainda não tinha feito e gostaria de ver. Era a pergunta perfeita para receber o nome de alguma franquia gigantesca, uma resposta pronta para circular nas redes e talvez mais um uniforme colocado sobre a Mônica. Marina escapou pela lateral e foi parar num cemitério.

“Eu fugiria um pouco da Turma da Mônica, porque ela já foi para tudo quanto é lugar. Eu iria para o Penadinho. Era uma coisa de terror mesmo. É uma ideia minha, vou jogar para o universo aqui: Catraca Livre que me ajude com essa possibilidade. Eu iria para um autor brasileiro de livros de terror, com histórias usando Penadinho, Zé Vampir e Muminho. Talvez um livro com HQs.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

Eu gostei da resposta porque ela não veio com uma marca da moda. Veio com gênero, clima, formato e personagens. Penadinho não apareceu como coadjuvante chamado para uma festa temática da Turma. Apareceu como dono de um universo que comporta humor, medo e morte sem precisar pedir licença ao Bairro do Limoeiro.

Marina disse que estava jogando a ideia para o universo e para um jornalista, o que talvez ajudasse está jogada. Se daqui a algum tempo surgir um livro de terror com Penadinho, Zé Vampir e Muminho, esta matéria não terá produzido o projeto, claro. Mas ao menos teremos o prazer de dizer que vimos a assombração passar primeiro.

A menina que lia os roteiros do pai

Marina Sousa na sede da MSP Estúdios, em São Paulo.
Marina Sousa na sede da MSP Estúdios, em São Paulo. - Cauê Moreno

A conversa saiu das collabs e entrou na formação de Marina. Não houve uma reunião solene em que Mauricio decidiu treinar uma sucessora. A coisa aconteceu em casa. Ela aprendeu a ler com a Turma da Mônica, pegava roteiros na mesa do pai, acompanhava a história ainda em processo e depois comparava com a revista pronta. Comentava o que funcionava, desenhava, inventava personagens, escrevia roteiros e pedia uma avaliação.

‘Se eu falar que ele não me treinou para isso, vou mentir’, disse. Durante anos, Marina avaliou roteiros e trabalhou diretamente com conteúdo. Hoje ela circula pela empresa inteira e já não cabe num departamento. Mesmo assim, quando fala de quadrinhos, livros e desenho, o cargo perde um pouco da pose e aparece a leitora.

Perguntei se ela não queria produzir uma Graphic MSP. Marina respondeu que sua agenda permitiria, no máximo, uma ‘pocket graphic’. Eu lembrei que uma graphic pode levar anos e que prazo autoral é uma negociação possível. Ela aceitou brincar com a ideia, mas impôs a única regra razoável: se um dia fizer, será no tempo dela. Em menos de meia hora, já tínhamos lançado ao universo um Penadinho de terror e uma Graphic assinada por Marina. O universo que faça a parte dele.

O gibi que faz chorar

Foi quando falávamos dos artistas que a pauta ficou pessoal. Citei José Márcio Nicolosi e “Pôu in Roça”, história de 1990 inspirada na primeira visita de Paul McCartney ao Brasil. Sou beatlemaníaco e nunca esqueci a última página: Paul, George e Ringo tocavam juntos na roça, enquanto John Lennon aparecia numa nuvem. Eu era criança e chorava diante daquela imagem.

A revista se perdeu junto com parte da minha coleção. Hoje guardo os quadrinhos com um cuidado quase patológico, mas “Pôu in Roça” não está lá. Contei isso a Marina e me emocionei novamente. Ela prometeu procurar a edição. Talvez não encontre, mas a promessa explica por que mudar a Turma da Mônica nunca é apenas discutir traço ou mercado. Algumas revistas desaparecem da estante e continuam inteiras na memória.

Na página final de “Pôu in Roça”, Paul, George e Ringo tocam juntos enquanto John Lennon observa tudo do céu.
Na página final de “Pôu in Roça”, Paul, George e Ringo tocam juntos enquanto John Lennon observa tudo do céu. - Reprodução/MSP Estúdios.

Mais de 70 traços entram no Limoeiro

A partir de abril de 2026, a mudança ficou visível nas revistas. Mais de 70 artistas e colaboradores freelancers passaram a trabalhar nos projetos da MSP. Eles não foram chamados para apagar o próprio desenho e reproduzir um boneco industrial. Existe curadoria, existe limite e os personagens precisam continuar reconhecíveis. Dentro desse campo, porém, o artista pode deixar uma marca.

Eu já percebia essas diferenças quando era criança, mesmo sem conhecer o nome de quem estava por trás da página. Uma história de Nicolosi não tinha o mesmo peso de outra desenhada por outro artista. A novidade agora é transformar essa diversidade em política editorial e apresentar ao leitor as pessoas que desenham. Parece básico. Durante muito tempo não foi.

“A gente está com um portfólio muito bacana artisticamente, com desenhistas diversos. São mais de 70 novos artistas e frilas usando seus traços na Turma da Mônica, obviamente dentro de uma curadoria nossa, mas imprimindo o próprio traço nas revistas. Isso está sendo maravilhoso para divulgar o trabalho deles. Eu vejo desenhistas compartilhando uma página e dizendo: ‘Realizei meu sonho’. Isso é histórico. É um momento de muito orgulho.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

O processo de criação dos quadrinhos dentro da MSP Estúdios.
O processo de criação dos quadrinhos dentro da MSP Estúdios. - Divulgação/MSP Estúdios

Há artistas do Brasil inteiro entrando nesse processo. Marina lembrou que Mauricio já recebia roteiros por fax de outros estados quando trabalhar à distância ainda parecia tecnologia de filme. Agora uma desenhista no Rio Grande do Norte pode enviar páginas e colocar nelas uma experiência que talvez jamais aparecesse se todo mundo estivesse sentado na mesma sala em São Paulo.

Essa abertura também muda uma velha rota profissional. Durante anos, ganhar por página e trabalhar como freelancer para uma grande editora parecia uma experiência reservada a quem conseguia chegar ao mercado americano. A MSP passa a oferecer algo semelhante aqui. Não é caridade nem projeto de formação. É trabalho, com prazo, pagamento e responsabilidade. Para muita gente, também é a chance de desenhar profissionalmente os personagens que copiava quando começou.

Personagens de Mauricio de Sousa em diferentes interpretações autorais da coleção Graphic MSP.
Personagens de Mauricio de Sousa em diferentes interpretações autorais da coleção Graphic MSP. - Divulgação/MSP Estúdios

A Graphic MSP já tinha arrombado essa porta

Quando Marina falou em liberdade de traço, eu fui direto à Graphic MSP. Não dava para tratar a experiência como se tudo tivesse começado em 2026. A linha coordenada por Sidney Gusman passou anos colocando os personagens de Mauricio nas mãos de autores com estilos completamente diferentes. Astronauta, Chico Bento, Piteco, Jeremias, Tina, Penadinho e tantos outros atravessaram aquelas interpretações sem perder o nome nem a alma.

A Graphic vinha com avisos claros. O formato, o papel, a capa e o nome do autor diziam ao leitor: aqui haverá uma interpretação. O que acontece agora é mais arriscado porque chega ao gibi regular, à revista que pode ser o primeiro quadrinho de uma criança. Não é mais uma experiência separada na estante. A assinatura autoral foi para a banca.

Sidney continua responsável pela linha como parceiro da MSP. Marina lê os projetos e escreve as aberturas, uma tarefa que era de Mauricio e que ela decidiu assumir. Não é apenas uma assinatura protocolar. Ela faz questão de participar do momento em que a casa apresenta ao leitor a versão que outro autor encontrou para aqueles personagens.

“O Sidão é o responsável pelas Graphics. É claro que é um produto MSP, está dentro do nosso portfólio e a gente cuida, mas ele é um querido e um parceiro nosso. Eu faço todas as aberturas das Graphics, faço questão. É uma coisa que meu pai fazia e eu quero fazer. Eu e o Sidão temos uma parceria que, para mim, funciona perfeitamente.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

A fronteira entre o projeto especial e a empresa já está ficando porosa. Cora Ottoni, autora de ‘Denise: Arraso’, trabalha como designer na MSP. Marina contou que vive a situação curiosa de ser chefe de uma artista de quem também é fã. É uma boa imagem da empresa neste momento: os leitores que cresceram com a Turma entram pela porta carregando o próprio repertório e começam a mexer na máquina que os formou.

Três faixas e uma criança assustada

A discussão sobre desenho levou ao ritmo. Eu quis saber como um gibi disputa a atenção de uma criança acostumada a TikTok, games, vídeos curtos e estímulos que parecem nunca terminar. A resposta de Marina não tentou vender uma guerra heroica do papel contra a tela. A MSP decidiu se adaptar.

Foi quando ela disse que as páginas agora têm três faixas, e não quatro, que a mudança deixou de ser conversa abstrata. Quem lê quadrinhos sabe que isso altera tudo: o tamanho do quadro, a quantidade de informação, a respiração da página e o tempo da piada. As histórias de abertura que chegavam a quarenta páginas também ficaram menores.

“A gente não luta contra a realidade das crianças de hoje. Tem que se adaptar. As histórias são mais curtas. Antigamente havia história de abertura de 40 páginas; diminuímos porque, para a realidade atual, estava ficando muito longa. As páginas agora têm três faixas, não mais quatro. Existe todo um estudo e uma estratégia para se adaptar, mas sem deixar de lado a história que colocamos ali para prender o leitor naquela revista.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

Os gibis da Panini venderam 12 milhões de exemplares em 2025. Portanto, criança não ler mais quadrinhos é uma frase preguiçosa, não um diagnóstico. A questão é descobrir o que ela encontra quando abre a revista e o que faz com que queira voltar. A MSP tenta facilitar a entrada sem transformar a HQ num vídeo vertical impresso.

Eu ainda vejo um risco. Se o quadrinho tentar copiar demais a pressa das telas, perde justamente o que só ele permite: parar num quadro, voltar, observar o fundo, controlar o tempo da leitura. Adaptar a porta de entrada não pode significar aceitar que toda criança é incapaz de acompanhar uma história longa. Marina concorda que existe um equilíbrio, e ele não nasce apenas de planilhas.

Seu filho virou o ‘laboratório VIP’ da mãe. Quando Marina o encontra concentrado numa revista, aproxima-se devagar para não transformar leitura em interrogatório. Ao lado da escola há uma banca onde as crianças compram gibis, sentam e começam a comentar personagens, vilões e páginas. Ela fica por perto, ouvindo como executiva, mãe e leitora.

“Um dia, um dos amigos dele falou que o traço estava muito assustador. O traço realmente está mais dinâmico, mais solto, e a criança disse que ficou com medo. Eu imediatamente cheguei para o nosso head de publishing, Wagner Bonilla, e falei: ‘Olha só, a criança de seis anos ficou com medo. A gente precisa ter um equilíbrio’. Estou sendo presenteada com esse laboratório VIP.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

Uma criança dizendo ‘fiquei com medo’ atravessou o caminho entre a banca e o head de publishing. É difícil imaginar pesquisa mais direta. A MSP quer soltar o traço dos artistas, mas precisa olhar para quem recebe essa página sem repertório de crítico, editor ou fã adulto. A criança não discute intenção. Ela olha e sente medo. A curadoria começa depois disso.

Mônica e sua turma ocupam os corredores da MSP Estúdios.
Mônica e sua turma ocupam os corredores da MSP Estúdios. - Divulgação/MSP Estúdios

O peso que caiu no colo de Marina

A frase do começo da entrevista voltou aqui. A responsabilidade realmente caiu sobre Marina, Mauro e Marcos. A sucessão começou a ser organizada em 2016, ganhou um comitê executivo em 2019 e chegou à direção atual em junho de 2024. Em março de 2025, Mauricio deixou a presidência e se tornou presidente fundador. A passagem aconteceu com ele presente, acompanhando e opinando.

Isso muda a pergunta. Marina não está esperando o dia em que terá autonomia. Ela já tem. O dilema é o que fazer com a liberdade quando cada mudança também encosta na história do pai. Novo traço, história mais curta, outra estratégia para um personagem: tudo pode ser lido como decisão editorial, empresarial e familiar ao mesmo tempo.

“É uma baita responsabilidade, uma honra e uma responsabilidade muito grandes. Eu, Mauro e Marcos somos filhos e neto do Mauricio. Temos nas costas um legado importante para o Brasil inteiro, para as famílias e para a educação brasileira. A gente sente esse peso, mas é prazeroso trabalhar com o que ama e ter o Mauricio junto, olhando e podendo falar o que quer e o que não quer. É um privilégio.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

Perguntei se ainda existe a vontade de correr até Mauricio e mostrar uma decisão. A resposta foi um ‘é óbvio’. Marina contou que a família escondeu dele os detalhes do desfile no Sambódromo. Quando entrou e viu a homenagem, Mauricio perguntou se aquilo tudo era mesmo para ele. Era. Hoje ele aproveita netos e bisnetos, visita a empresa e continua recebendo notícias do universo que criou.

Mas carinho não fecha orçamento. Marina não tentou esconder a empresa atrás da palavra legado. A MSP precisa vender, acompanhar números, buscar público e trabalhar. Ela disse isso sem cerimônia: ‘Não é só a farra de esperar baterem na nossa porta porque a Turma da Mônica é muito legal. Cara, a gente tem que trabalhar.’ É uma frase útil para afastar a ideia de que 67 anos de história se administram apenas com memória afetiva.

Xaveco e Do Contra nos próximos 60 anos

“Xaveco: Vitória”, de Guilherme de Sousa, e “Do Contra: Herança”, de Yoshi Itice, levam personagens do Limoeiro para novas interpretações autorais.
“Xaveco: Vitória”, de Guilherme de Sousa, e “Do Contra: Herança”, de Yoshi Itice, levam personagens do Limoeiro para novas interpretações autorais. - Divulgação/Panini

Quando perguntei quais personagens ainda escondem um potencial pouco explorado, Marina não correu para os nomes mais famosos. Escolheu Xaveco e Do Contra. Xaveco é o sujeito condenado a permanecer no fundo da cena, mas tem pais separados e uma irmã mais velha que movimenta os meninos do bairro. Há uma família ali que não funciona como as outras. Do Contra tem uma vantagem ainda mais simples: qualquer pessoa que convive com criança conhece um.

Talvez os próximos anos da MSP dependam justamente dessa capacidade de olhar para o canto da página. Não é transformar todo coadjuvante numa nova Mônica. É descobrir o que apenas aquele personagem pode oferecer. Penadinho pode encontrar o terror. Xaveco pode sair do backstage. Horácio pode carregar um filme dirigido por Carlos Saldanha para distribuição global. Cada um precisa de uma vida que não seja apenas orbitar a turma mais famosa.

“A nossa principal missão é continuar contando histórias de forma relevante e significativa, fazendo diferença para as famílias que ainda vêm por aí. Fazer com que a MSP e todo esse universo de personagens façam diferença na vida dos brasileiros pelos próximos 60 anos e mais.”

Marina Sousa

Diretora-executiva da MSP Estúdios

Quando a chamada terminou, eu continuava sem ter entrevistado Mauricio de Sousa. Isso não mudou. O que mudou foi minha impressão sobre a mulher que recebeu a responsabilidade sobre a qual brincamos no primeiro minuto. Marina não falou como alguém tentando colocar os personagens do pai numa redoma. Falou como leitora, filha, executiva, mãe e possível autora de uma pocket graphic que talvez leve anos para aparecer.

Eu entrei querendo explicar que collab não era novidade. Saí pensando numa criança assustada com um traço novo, num artista comemorando a primeira página publicada, em Penadinho rondando um livro de terror e naquele John Lennon desenhado numa nuvem. É aí que a Turma da Mônica continua viva. Não porque permanece igual, mas porque ainda encontra um jeito de grudar na memória de alguém.

Personagens da Turma da Mônica na sede da MSP Estúdios.
Personagens da Turma da Mônica na sede da MSP Estúdios. - Divulgação/MSP Estúdios