Tolkien: a guerra, os amigos que ficaram pelo caminho e a verdadeira força da Sociedade do Anel
Graphic novel “Tolkien: Uma Luz na Escuridão” revisita a infância, as amizades e o horror da Primeira Guerra Mundial para mostrar como perdas e companheirismo atravessaram a vida do escritor antes da criação da Terra-média.

É difícil atravessar os Pântanos Mortos com Frodo e Sam sem pensar nos corpos sob a água. Na lama, nos rostos dos mortos, naquela sensação de que a guerra passou por aquele lugar, mas nunca foi embora de verdade.
Depois de ler Tolkien: Uma Luz na Escuridão, fiquei pensando justamente nisso. Não apenas no quanto a Primeira Guerra Mundial pode ter deixado marcas naquilo que J.R.R. Tolkien escreveria anos depois, mas em uma coisa que talvez seja ainda maior: a perda esteve presente na vida de Tolkien muito antes de existir a Terra-média. E, junto dela, a amizade.
A graphic novel escrita por Willy Duraffourg e desenhada por Giancarlo Caracuzzo, que chega ao Brasil pela Cyberpulp Comix, escolhe contar justamente esse Tolkien anterior ao mito. A edição brasileira tem tradução e adaptação de Mario Luiz C. Barroso e cores de Flavia Caracuzzo e Joël Odone.
Não é uma biografia que tenta percorrer toda a vida do escritor. Seu grande recorte está na formação daquele jovem e na experiência que mudaria sua geração: a Primeira Guerra Mundial. E é justamente aí que está o que mais gostei da HQ, porque antes de mostrar como Tolkien criou mundos, ela mostra quantas vezes o mundo dele foi desfeito.

A PRIMEIRA GRANDE PERDA ACONTECEU QUANDO TOLKIEN TINHA QUATRO ANOS
Tolkien nem sequer nasceu na Inglaterra. John Ronald Reuel Tolkien nasceu em 3 de janeiro de 1892, em Bloemfontein, na região que hoje pertence à África do Sul.
Ainda pequeno, viajou com a mãe, Mabel, e o irmão mais novo, Hilary, para a Inglaterra. O pai, Arthur, ficou para trás por causa do trabalho e deveria encontrar a família algum tempo depois. Esse reencontro nunca aconteceu. Arthur adoeceu e morreu em 1896. Tolkien tinha quatro anos.
A HQ transforma esse momento em uma de suas primeiras pancadas emocionais. O pequeno Ronald espera voltar à África e reencontrar o pai. Isso não vai acontecer.
A família fica na Inglaterra e Tolkien passa parte da infância em Sarehole, uma área rural próxima a Birmingham. É ali que a graphic novel começa também a construir outra característica daquele menino: sua ligação com árvores, campos, histórias e com a natureza. Até que vem outra perda. Em 1904, Tolkien tinha apenas 12 anos quando sua mãe morreu. O futuro criador de O Senhor dos Anéis estava órfão.
É importante dizer isso porque às vezes olhamos para Tolkien começando pelo escritor consagrado, pelo professor de Oxford, pelo senhor de cachimbo que criou hobbits, elfos e magos. A HQ faz o contrário. Ela nos apresenta primeiro o menino, e esse menino perdeu muito cedo.

MAS TOLKIEN TAMBÉM ENCONTROU PESSOAS
Talvez por isso uma das partes que mais me interessaram durante a leitura tenha sido justamente aquela em que os amigos aparecem.
Na escola King Edward’s, em Birmingham, nasce o grupo que ficaria conhecido como T.C.B.S., Tea Club and Barrovian Society, ou Clube do Chá e Sociedade Barroviana. O nome parece coisa de uma grande organização secreta, mas era bem menos solene. Eram jovens que se reuniam, tomavam chá, conversavam sobre arte, literatura, música e aquilo que pretendiam fazer da vida.
O núcleo que se tornaria mais importante reunia Tolkien, Christopher Wiseman, Robert Gilson e Geoffrey Bache Smith. A própria HQ usa uma expressão que diz muito sobre a proximidade entre eles: Tolkien chama Wiseman de seu “irmão gêmeo”. Não era um irmão biológico. Hilary era seu irmão mais novo. “Irmão gêmeo” é a maneira afetiva como a narrativa apresenta a enorme ligação entre Tolkien e Wiseman.
E esses encontros não eram apenas brincadeira de escola. Eles falavam do futuro. O problema é que o futuro tinha outros planos.
ANTES DA SOCIEDADE DO ANEL, HOUVE UMA SOCIEDADE DE AMIGOS
É impossível ler essa parte sem pensar em O Senhor dos Anéis. E aqui precisamos ter cuidado. Não estou dizendo que Tolkien pegou seus três amigos e os transformou em Frodo, Sam, Merry e Pippin. Não é isso e também não acredito que seja necessário procurar quem é quem.
O que me interessa é algo mais humano. Muito antes de escrever sobre uma sociedade unida por amizade, lealdade e um objetivo comum, Tolkien conheceu na própria vida a força de pertencer a uma. E conheceu também o que significava vê-la desaparecer.
Em 1915, Tolkien entrou para o Exército britânico. No ano seguinte foi enviado à França. O destino era o Somme.

AFINAL, O QUE FOI A BATALHA DO SOMME?
Para quem conhece o nome, mas não sabe exatamente do que estamos falando, vale explicar. O Somme é uma região do norte da França cortada pelo rio de mesmo nome. Foi ali que, entre julho e novembro de 1916, aconteceu uma das batalhas mais devastadoras da Primeira Guerra Mundial.

Era a guerra das trincheiras. Lama, artilharia, ratos, doenças e corpos. Homens esperando durante horas ou dias para receber uma ordem que poderia significar sair de uma trincheira e correr diretamente em direção ao fogo inimigo.
Tolkien tinha 24 anos.
Agora imagine o contraste. A HQ havia nos mostrado aquele menino fascinado pelo verde do campo inglês. Agora esse jovem estava diante de uma natureza destruída pelo homem. É justamente nessa mudança de atmosfera que a arte de Caracuzzo funciona melhor para mim. O quadrinho deixa para trás a juventude, as conversas, os estudos e os encontros para entrar em um ambiente no qual a morte pode estar no quadro seguinte. E estava.

A GUERRA COMEÇA A DESTRUIR A SOCIEDADE
Robert Gilson morreu em 1º de julho de 1916, primeiro dia da Batalha do Somme. O T.C.B.S. começava a desaparecer.
Geoffrey Bache Smith ainda estava vivo e Tolkien chegou a encontrá-lo na França. Poucos meses depois, Smith foi atingido por estilhaços. A gangrena tomou seus ferimentos e ele morreu em dezembro de 1916. A HQ dedica uma sequência especialmente dura a seus últimos momentos.
Tolkien sobreviveu, mas nem ele saiu ileso. Contraiu febre das trincheiras e foi enviado de volta à Inglaterra.
É significativo que a graphic novel comece justamente com esse Tolkien. Não com seu nascimento, Oxford ou qualquer coisa ligada à criação da Terra-média. Começa com um homem doente, assombrado pela guerra e procurando pelos amigos. Só depois voltamos à infância.
Essa escolha muda nossa leitura do restante da história porque já sabemos para onde todos aqueles encontros, sonhos e planos estão caminhando.

E ENTÃO EU VOLTEI A PENSAR NA SOCIEDADE DO ANEL
Depois disso, ficou difícil não olhar novamente para a amizade em Tolkien. A Sociedade do Anel também começa unida. Nove companheiros deixam Valfenda levando uma missão que parece grande demais para qualquer um deles.
Só que a Sociedade se rompe. Boromir morre, Frodo e Sam seguem sozinhos, Merry e Pippin são separados dos demais e Aragorn, Legolas e Gimli tomam outro caminho. Mesmo assim, aquela sociedade não deixa de existir simplesmente porque seus integrantes não estão mais caminhando lado a lado.
Talvez seja isso que me interesse tanto. Porque, no fundo, O Senhor dos Anéis não é apenas uma história sobre poder. É também uma história sobre pessoas que não abandonam umas às outras.
E nenhuma imagem resume isso melhor para mim do que Sam e Frodo. Sam não consegue carregar o Anel pelo amigo. Então carrega o amigo.
Não precisamos dizer que Sam representa alguém do T.C.B.S. para perceber que o homem que escreveu aquilo sabia alguma coisa sobre companheirismo. Tolkien sabia o que significava formar uma sociedade, sabia o que significava perdê-la e sabia o que era continuar caminhando quando alguns companheiros já não podiam seguir junto.

O FIM DA GUERRA TAMBÉM NÃO APAGA OS MORTOS
Há um momento perto do final da HQ que ajuda a fechar esse círculo. Chega 1918, a guerra acaba e Tolkien está de volta a Oxford, onde começa a trabalhar no projeto que se transformaria no Oxford English Dictionary. Era para ser o início de uma nova vida, só que os mortos continuam lá.
A HQ faz Tolkien recordar vários daqueles jovens que não voltaram, incluindo Gilson e Smith, enquanto se pergunta como poderia se recuperar de tantas perdas. E isso me levou novamente a Frodo.
Porque O Senhor dos Anéis tem coragem de fazer algo que muitas histórias sobre grandes guerras evitam. O herói vence e não fica bem. O Anel é destruído, Sauron cai, a Terra-média é salva e Frodo volta para casa. Mas uma parte dele não consegue voltar.
Não estou dizendo que Frodo seja Tolkien ou que isso seja uma transcrição de seu trauma de guerra. Seria simplificar demais uma obra e uma vida muito mais complexas. Mas talvez seja impossível passar pelo que ele passou e acreditar que vitória significa simplesmente voltar para casa como se nada tivesse acontecido.
Algumas guerras acabam antes para o mundo do que para aqueles que estiveram dentro delas.
UMA BOA HQ, MAS NÃO PERFEITA
Tudo isso faz Tolkien: Uma Luz na Escuridão valer bastante a leitura. Willy Duraffourg tem um problema complicado nas mãos: colocar muitos anos de uma vida extraordinariamente documentada em menos de cem páginas. Em grande parte, consegue.
Gosto especialmente da decisão de não começar cronologicamente e de usar a guerra como uma espécie de fantasma que paira sobre aquilo que vamos conhecer depois.
Giancarlo Caracuzzo trabalha com um desenho realista e bastante tradicional. Funciona muito bem para uma biografia histórica e para reconstruir lugares e épocas, mas é também onde tenho uma das minhas ressalvas. Em alguns momentos eu queria mais ousadia visual. O traço é competente e a narrativa é clara, mas às vezes parece comportado demais diante de uma vida e principalmente de uma guerra tão gigantescas.
Também há passagens que mereciam respirar um pouco mais. São muitos acontecimentos, pessoas, referências literárias e descobertas comprimidos em uma narrativa curta. Por outro lado, existe uma qualidade enorme nisso: é uma ótima porta de entrada.
Você não precisa ter lido O Silmarillion, conhecer as cartas de Tolkien ou saber explicar o que é filologia para acompanhar a história. A HQ ainda acrescenta ao final material sobre algumas das referências literárias fundamentais para Tolkien, passando pelo Livro de Exeter, ciclo arturiano, Beowulf, sagas islandesas e outros textos que alimentaram sua imaginação.
Para quem já estudou profundamente Tolkien, talvez falte novidade. Para quem conhece principalmente O Hobbit e O Senhor dos Anéis, há muito para descobrir.
FELLOWSHIP FOREVER: VELHOS AMIGOS, UMA NOVA JORNADA
E há uma coincidência muito boa em essa HQ chegar ao Brasil justamente em 2026. Há 25 anos, O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, de Peter Jackson, chegava aos cinemas e apresentava a Terra-média de Tolkien para uma geração completamente nova.
Em dezembro, essa história será celebrada na CCXP26 com Fellowship Forever. Elijah Wood, o Frodo dos filmes, e Dominic Monaghan, o Merry, estão entre os nomes confirmados para o reencontro.
E a frase escolhida pela CCXP para anunciar a celebração também funciona perfeitamente para esta história: “Velhos amigos. Uma nova jornada.”
Depois de terminar Tolkien: Uma Luz na Escuridão, é impossível para mim ler isso pensando apenas nos filmes. Em dezembro vamos comemorar uma Sociedade que há 25 anos partiu de Valfenda nas telas do cinema. A HQ nos leva até outra, uma que existiu antes de Frodo, Sam, Merry e Pippin, antes mesmo de Tolkien saber que um dia existiria uma Terra-média.
Quatro jovens tomando chá, falando sobre arte, literatura e o futuro. A guerra não permitiu que todos chegassem a esse futuro. Tolkien chegou.
E talvez tenha passado a vida escrevendo sobre mundos fantásticos. Mas, quando escreveu sobre amizade, não precisou imaginar tudo.
Tolkien: Uma Luz na Escuridão
• Autores: Roteiro de Willy Duraffourg e arte de Giancarlo Caracuzzo.
• Editora no Brasil: Cyberpulp Comix.
• Formato: 96 páginas coloridas, capa dura (22,8 x 30 cm).
• Extras: Prefácio exclusivo de Érico Borgo.