X-Men ’97: família, escolhas e o peso de mudar o destino

Entre viagens no tempo, o peso de apocalipse e os conflitos de cable, a segunda temporada amplia a mitologia mutante, tropeça no ritmo, mas mantém os x-men como uma grande história sobre família, escolhas e consequências.

A segunda temporada de X-Men ’97 começa falando sobre Apocalipse, viagens no tempo e o destino dos mutantes. Mas, por baixo de toda essa grandiosidade, encontrei algo muito mais simples e humano conduzindo a história: família.

Mais do que isso, vejo a temporada como uma reflexão sobre as decisões que tomamos e as consequências que elas deixam para o resto da vida.

Desde o primeiro episódio, alguém precisa escolher alguma coisa. Interferir ou não no passado. Matar ou poupar. Contar a verdade ou permanecer em silêncio. Seguir o sonho de Charles Xavier ou aceitar que, em determinadas situações, talvez seja impossível continuar acreditando nele.

E isso acompanha a segunda temporada de X-Men ’97 praticamente até o fim.

Apocalipse e uma temporada que não tem medo de ser grande

O começo é grandioso. A origem de Apocalipse ganha uma dimensão quase mítica, transformando En Sabah Nur em muito mais do que simplesmente o vilão gigantesco que os X-Men precisam derrotar no final. Existe ali uma tentativa de mostrar como um dos mutantes mais antigos da humanidade se tornou Apocalipse.

En Sabah Nur antes de se tornar Apocalipse.
En Sabah Nur antes de se tornar Apocalipse. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

Para mim, é uma das melhores decisões da temporada.

Ao mesmo tempo, a divisão da narrativa entre diferentes períodos históricos causa certa estranheza. A série salta entre personagens, épocas e equipes, e nem sempre essa mudança acontece com a mesma fluidez.

Individualmente, as histórias funcionam, mas a maneira como são colocadas uma depois da outra nem sempre favorece o ritmo. E X-Men ’97 tem tanta coisa para contar que algumas tramas acabam espremidas.

O retorno do adamantium ao corpo de Wolverine talvez seja o melhor exemplo. É uma história importante para Logan, mas passa rápido demais. Resolve o problema, devolve o metal ao esqueleto do Carcaju e pronto.

Wolverine recupera o adamantium.
Wolverine recupera o adamantium. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

Isso pode incomodar quem esperava que Wolverine fosse novamente o centro das atenções.

Mas aí existe uma pergunta importante. Quem são os X-Men?

Para mim, os X-Men são muito maiores do que Wolverine.

Os Beatles, Wolverine e uma banda chamada X-Men

A X-Force também ganha espaço na temporada.
A X-Force também ganha espaço na temporada. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

Pode parecer estranho ver Wolverine sem tanto destaque. Afinal, ele é provavelmente o X-Men mais popular de todos.

Mas aqui vale uma analogia com outra paixão minha: os Beatles.

Penso na maior banda de todos os tempos. John Lennon e Paul McCartney naturalmente ocupavam boa parte dos holofotes. Compunham a maioria das músicas, cantavam os grandes sucessos e eram, de certa forma, as figuras centrais da banda.

Mas os Beatles não seriam os Beatles sem George Harrison e Ringo Starr.

Desde os primeiros álbuns existia espaço para que os outros integrantes aparecessem. No começo, George tinha uma ou outra música. Aos poucos, ganhou confiança, cresceu como compositor e chegou ao ponto de entregar algumas das melhores canções dos Beatles. Ringo também tinha seu momento.

Não porque John e Paul deixaram de ser importantes, mas porque aquela banda só funcionava de verdade quando seus quatro integrantes tinham identidade.

Com os X-Men, vejo algo parecido.

Wolverine pode ser o John ou o Paul dessa história. É o sujeito que naturalmente atrai os holofotes. Mas os X-Men nunca foram uma banda de um homem só.

É uma das maiores famílias de personagens dos quadrinhos. São décadas de histórias, diferentes equipes, gerações, conflitos e personagens que poderiam tranquilamente protagonizar suas próprias séries.

Por isso, se X-Force ganha um episódio, se Cable assume o centro da temporada ou se Wolverine passa algum tempo no banco, não significa que alguém foi esquecido.

Significa apenas que outros integrantes da banda também precisam tocar.

E a temporada ainda encontra espaço para colocar outra banda no palco: o X-Factor.

X-Factor estreia em X-Men ’97.
X-Factor estreia em X-Men ’97. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

A equipe é apresentada nesta temporada e aumenta ainda mais esse universo mutante que X-Men ’97 vem construindo. Pelo espaço aberto para esses personagens, não seria surpresa vê-los ainda mais explorados na terceira temporada.

Essa é justamente a força de uma série com um elenco tão grande. Nem todo mundo precisa tocar o solo ao mesmo tempo.

E, nesta temporada, quem pega o microfone é Cable.

Nathan Summers e uma família impossível

Cable carrega o peso do próprio futuro.
Cable carrega o peso do próprio futuro. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

Existe uma profecia dizendo que Cable será o mutante capaz de matar Apocalipse.

Só que Nathan Summers não é exatamente o herói idealizado por Charles Xavier.

Cable foi criado em um mundo devastado. Cresceu lutando. Sobreviveu a coisas que seus próprios pais jamais poderiam imaginar. Para ele, matar Apocalipse não é uma discussão filosófica.

É uma missão.

Se precisar matar, ele vai matar.

Cable tem uma missão: derrotar Apocalipse.
Cable tem uma missão: derrotar Apocalipse. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

O sonho de Xavier encontra um limite muito concreto quando colocado diante de alguém que passou a vida inteira sabendo o que aconteceria caso Apocalipse sobrevivesse. E é justamente aí que vejo em Cable um dos personagens mais interessantes desta temporada.

Existe algo doloroso na relação entre Nathan, Scott e Jean.

Nathan finalmente está perto dos pais. Convive com eles. Observa os dois. Escuta o que dizem. Descobre quem eles eram antes de se tornarem as figuras que carregou consigo durante toda a vida.

Mas não pode simplesmente recuperar aquilo que perdeu.

Ele conhece seus pais sabendo que, em algum momento de sua existência, eles também o criaram. Carrega lembranças de uma família que ainda não existe para aquelas versões de Scott e Jean.

E não pode mudar sua própria história.

Talvez essa seja, para mim, a ideia mais bonita da temporada.

Viajar no tempo não significa necessariamente ganhar uma segunda chance. Às vezes significa apenas poder olhar de perto para aquilo que você perdeu. E continuar carregando a dor.

É por isso que, apesar de toda a ficção científica, das batalhas e das diferentes linhas temporais, vejo a história retornando constantemente à mesma pergunta: o que cada personagem faz com as escolhas que o trouxeram até aqui?

Gambit e Vampira em um raro momento de paz.
Gambit e Vampira em um raro momento de paz. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

E então chego ao Gambit

Apocalipse funciona muito bem durante a primeira metade da temporada. Existe peso em sua presença e eu realmente sinto que estou diante de uma ameaça capaz de destruir tudo.

Depois, a coisa começa a ficar mais confusa. Principalmente quando entra a questão do corpo utilizado por Apocalipse.

Apocalipse domina a segunda temporada.
Apocalipse domina a segunda temporada. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

Sim, estou falando de Gambit.

A essa altura, não vejo muito motivo para fingir que isso é segredo.

Trazer Remy de volta depois de uma das mortes mais marcantes da primeira temporada sempre seria uma decisão complicada. Nos quadrinhos, morte e ressurreição fazem parte do jogo, especialmente no universo dos X-Men.

Mas aqui a solução me parece simples demais.

A utilização de Gambit como receptáculo para Apocalipse cria uma justificativa para colocar novamente um dos personagens mais queridos da série em cena. Funciona como mecanismo de roteiro. Emocionalmente, porém, não senti o mesmo impacto daquilo que levou à sua morte.

E esse talvez seja o momento em que percebo a segunda temporada mais distante da precisão narrativa da primeira. A primeira temporada parecia saber exatamente onde queria chegar. Quase tudo tinha consequência.

Aqui, em alguns momentos, fiquei com a sensação de que a série encontrou primeiro o destino e depois precisou descobrir uma maneira de chegar até ele.

E existe um bastidor importante que talvez ajude a entender essa sensação.

O décimo episódio que nunca existiu

A segunda temporada termina com nove episódios. Mas, segundo Beau DeMayo, não era esse o plano original.

O ex-showrunner, que foi demitido lá em 2024, afirmou, em uma postagem no X , que a temporada ficou com nove episódios depois que a Marvel descartou o final que ele havia planejado envolvendo Massacre, o Onslaught dos quadrinhos, e elementos da Era do Apocalipse.

E não seria simplesmente mais um episódio.

Em outra declaração, DeMayo explicou que Massacre seria resolvido no episódio 10 e que o capítulo terminaria dentro de uma linha temporal da Era do Apocalipse.

Segundo ele, Gambit libertaria Bishop de uma prisão e os dois fugiriam de um Ciclope maligno. DeMayo chegou a comparar a sequência que imaginava com a famosa cena de Darth Vader no corredor ao final de Rogue One: Uma História Star Wars.

Seria uma imagem e tanto para terminar a temporada.

DeMayo também afirmou que pistas para Massacre teriam sido espalhadas ao longo da história e que a retirada do décimo episódio obrigou a Marvel a mexer no restante da temporada.

Aqui faço uma ressalva importante: essa é a versão de Beau DeMayo sobre os bastidores. Não dá para tratar todas essas afirmações como uma explicação oficial da Marvel para os problemas que chegaram à tela.

Mas depois de assistir aos nove episódios, é difícil não pensar naquele décimo que ficou pelo caminho.

Principalmente porque uma das minhas maiores críticas à temporada está justamente na pressa. Algumas histórias são resolvidas rápido demais. Personagens entram e saem. Ideias enormes ganham pouco tempo para respirar. E a reta final precisa acomodar muita coisa.

Talvez o episódio perdido não resolvesse tudo isso.

Talvez criasse outros problemas. Nunca saberemos.

Mas conhecer o plano original de DeMayo torna ainda mais forte a sensação que tive assistindo à temporada: em alguns momentos, X-Men ’97 parece saber exatamente onde quer chegar, mas precisa correr para conseguir chegar lá.

Ainda são os X-Men

Mesmo com esses problemas, X-Men ’97 continua entendendo uma coisa fundamental sobre esses personagens.

X-Men nunca foi apenas sobre super-heróis salvando o mundo. Para mim, sempre foi sobre pessoas tentando encontrar um lugar onde possam existir.

É sobre preconceito, medo, identidade, amor, pais, filhos e famílias que muitas vezes não possuem qualquer ligação de sangue.

A segunda temporada amplia isso usando o tempo como ferramenta. Scott e Jean precisam olhar para Nathan. Nathan precisa olhar para os pais. Xavier precisa encarar as consequências de seus ideais. E até Apocalipse é resultado das escolhas, da violência e das circunstâncias que moldaram En Sabah Nur.

No fim, fiquei com uma pergunta:

Quanto das escolhas desses personagens realmente pertence a eles e quanto foi decidido pelo mundo que os criou?

A segunda temporada de X-Men ’97 não consegue ser tão perfeita quanto a primeira. Corre demais em alguns momentos. Espreme histórias que mereciam respirar. Distribui mal determinados personagens e encontra soluções simples para problemas que ela mesma tornou enormes.

Mas continua sendo X-Men ’97.

Continua respeitando a enorme mitologia desses personagens, encontra espaço para discutir temas maiores dentro de uma animação de super-heróis e, principalmente, continua sendo uma ótima diversão.

Não é a temporada que eu esperava depois de uma primeira praticamente impecável.

Ainda assim, vale a viagem.

Os X-Men reunidos na segunda temporada de X-Men ’97.
Os X-Men reunidos na segunda temporada de X-Men ’97. - Divulgação Disney/Marvel Animation.

Nota: 8/10.

X-Men ’97 (EUA, 15 de julho de 2026)
Direção: Chase Conley; Emmett Yonemura
Roteiro: Anthony Sellitti; Bailey Moore; Beau DeMayo; Brian Ford Sullivan

Assista a todos os episódios da 2ª temporada de X-Men ’97 no Disney+.