Além da diversão: o poder dos desenhos animados na educação infantil

Conteúdo por ABRANIMA

Por: Jãum Godoy Rocha e Fernando Ferraz, da PlokMoon Casa de Ideias

Quando se fala em educação, a primeira imagem que vem à cabeça costuma ser a de uma sala de aula tradicional, com lousa, cadernos, professores… Mas o aprendizado infantil acontece muito antes e vai muito além: ele está nas brincadeiras, nas perguntas incessantes e, acredite, enquanto as crianças assistem a um desenho animado.

Por muito tempo, entretenimento e ensino foram vistos como caminhos opostos. De um lado, o que ensina; do outro, o que diverte. No entanto, uma boa história tem o poder de apresentar novas palavras, explicar fenômenos da natureza ou ajudar os pequenos a reconhecerem suas próprias emoções. É justamente nessa intersecção que a animação revela uma de suas maiores potências.

Fugindo da “aula disfarçada”

Fernando Ferraz e Jãum Godoy Rocha nas gravações da série educacional “Frank & Steam”, criada por eles para a PlayKids
Fernando Ferraz e Jãum Godoy Rocha nas gravações da série educacional “Frank & Steam”, criada por eles para a PlayKids - divulgação PlokMoon

Um erro comum na criação de conteúdo infantil é focar na teoria e usar a arte, com cores vívidas, músicas marcantes e personagens carismáticos, como uma “embalagem” para tornar a informação palatável e gerar diversão. O trunfo está em trazer para a arte, com suas ferramentas, a essência da abordagem STEAM (sigla em inglês que une Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática). Quando trabalham juntas, a arte e essa abordagem mostram que criatividade, investigação e resolução de problemas são grandes aliadas. Na animação, som, movimento e narrativa não estão ali só para enfeitar, mas para ajudar a criança a compreender o mundo.

O poder de enxergar o invisível

Uma das grandes magias do audiovisual é materializar o que é abstrato. Seja viajando pelo espaço, entrando em uma célula humana ou dando forma a conceitos científicos, a animação organiza a percepção da criança.

A ciência deixa de ser uma definição decorada e passa a ser uma experiência sensível e visual. O fantástico vira uma memória para a criança, uma realidade encantadora e próxima do que ela vive.

Afeto e conexão: aprendendo com os personagens

As informações podem ser esquecidas, mas uma experiência emocional costuma ficar na memória. Quando um personagem tem medo, erra, tenta de novo e faz uma descoberta, a criança acompanha esse processo de dentro da história. É aí que o conhecimento ganha uma ponte afetiva.

Ensinar sobre o sistema imunológico, por exemplo, não precisa ser apenas uma lista de anticorpos e células. Pode ser uma narrativa onde heróis microscópicos resolvem um problema no organismo (temos certeza de que você já deve ter visto isso em algum desenho animado e a experiência foi muito boa). E isso vale para tudo: matemática, história, meio ambiente e convivência.

O erro como parte do processo

Existe uma diferença enorme entre decorar uma resposta e desenvolver a curiosidade. Boas narrativas colocam a criança diante de um problema sem entregar a solução de bandeja. O personagem não sabe o que fazer, e a criança também não. Eles investigam juntos, como bons amigos.

Isso apresenta uma visão muito mais realista e saudável do aprendizado. As crianças precisam descobrir que não saber algo não é um fracasso, mas sim um convite para tentar de novo. Afinal, aprender é tentar, tentar, tentar e evoluir até alcançar o êxito.

O encantamento não é inimigo da ciência

Para levar a educação a sério, não precisamos abandonar o maravilhamento. Uma criança que olha para o céu e pergunta por que as estrelas brilham já pode estar iniciando uma investigação científica. Antes da teoria e do método científico, vem o encantamento e a vontade de ir além do cotidiano para descobrir o que está “além dos muros”. E a linguagem audiovisual é uma ferramenta incrível para estimular esse olhar atento e analítico.

O papel dos adultos: a história continua fora da tela

Que fique claro: não estamos defendendo a substituição da escola, dos professores ou de qualquer tipo de vivência acadêmica ou familiar pelo desenho animado. O potencial de um conteúdo é ampliado quando a experiência na tela vira ponto de partida na vida real. Um episódio sobre o universo pode virar uma observação no quintal; uma história sobre amizade, uma conversa franca em família.

Peter e Dante, personagens de “O Pequeno Mundo de Dante”
Peter e Dante, personagens de “O Pequeno Mundo de Dante” - divulgação PlokMoon

Nós, da PlokMoon, temos relatos muito emocionantes de crianças que assistiram ao nosso personagem Dante, da série O Pequeno Mundo de Dante” e aprenderam mais sobre relações intra e interpessoais. Em um desses relatos, um garoto autista, de 9 anos, começou a desenvolver uma relação mais tranquila com seus sentimentos quando conheceu a turma de Dante e observou a forma como se comunicavam, sem usar palavras (a série é não-verbal). Isso nos tocou profundamente e mostrou que uma série curta, com episódios de 2-3 minutos tem um potencial enorme. Recentemente, em um projeto para o qual estamos escrevendo roteiros, pudemos abordar a importância de assumir seus erros e não mentir. Também escrevemos sobre não segurar as lágrimas quando a frustração acontece, usando a metáfora de uma nuvem que segura a chuva e fica carregada, pesarosa. E sabem o mais interessante? Nada disso foi escrito como se fosse uma palestra ou um ensinamento rigoroso, técnico demais. Os personagens fazem piadas, há muitas gags e diálogos emocionantes. A animação não precisa escolher entre ser divertida ou educativa. Ela pode transformar uma nuvem em personagem, uma galáxia em cenário e, o mais importante: fazer a criança querer saber mais sobre si e sobre o mundo que a cerca.

Quando o conteúdo é bom, a história não termina junto com os créditos finais. Ela continua nas brincadeiras, nos desenhos de giz, em conversas em família e naquele clássico “por quê?” no dia seguinte. E é exatamente aí que a verdadeira educação começa. A animação faz a ponte entre a curiosidade e os professores, pais, tios e cuidadores, para que eles possam educar suas crianças com mais facilidade e alcançando ótimos resultados.