7 Filmes noir muito inventivos que precisam ser vistos
O cinema noir voltou a moda. Filmes como “The Batman” e séries como “Spider-Noir” e “Batman: Cruzado Encapuzado” mostram claramente o retorno do interesse por ele. Este retorno de interesse é um ótimo sinal pois se trata de um cinema que sempre foi marcado pela invenção e pela ruptura de expectativas petrificadas. Porém, para sabermos desfrutar melhor da tendência a esta revalorização do noir se faz necessário olhar para alguns de seus momentos mais marcantes e frutíferos, para os momentos em que ele foi mais criativo. Um olhar sobre o que há de mais inventivo no sombrio cinema policial dos anos 1940 e 1950 é importante para sabermos para que novos caminhos o podemos levar.
Primeiramente é importante ressaltar que não há um consenso acerca do que seja o noir, e que parte da crítica sustenta até que ele jamais existiu. Embora a negação da existência deste cinema seja só mais uma das tolices correntes da crítica especializada ela tem alguns fundamentos, sendo o principal: o noir não é nem um gênero nem um estilo. Não é um gênero pois tudo ou quase tudo o que se associa a ele esta ligado a filmes de investigação de crimes, um tema que pode aparecer em filmes policiais, de terror e até em certos melodramas. Não é estilo porque os procedimentos formais comuns nele já apareceram em uma variedade tão grande de filmes criativos que desligado de um tema específico ele não teria unidade nenhuma. A melhor maneira de definir o noir é o entender como uma tendência a uma abordagem radicalmente não naturalista e “transtornada” do tema da investigação criminal, que aparece de forma muito central. O noir é “expressionista”, não necessariamente por dialogar com a vanguarda alemão cinematográfica de mesmo nome, mas porque nele o narrador cinematográfico – o olhar do diretor que conta o filme por assim dizer – se desequilibra, se transtorna ou ao menos se funde muito as angustias internas dos personagens; ele quebra o naturalismo por meio de uma inventividade muito expressiva e comumente amarga e fatalista.
Claro que dentro desta definição de noir um de seus primeiros filmes, senão o primeiro, seria “M, O Vampiro de Dusseldorf”, filme alemão de 1931, do fantástico diretor Fritz Lang, mas há uma convenção que associa o noir ao cinema americano dos anos 1940 e 1950, entendendo suas manifestações posteriores como uma retomada de algo que já estava acabado. Para evitar novas polêmicas fiz uma lista que irá falar apenas do que é indiscutivelmente noir e do que nele sem dúvida está ligado a grande inventividade. Seguem filmes que você não deve perder para entender este cinema.
1) O HOMEM DOS OLHOS ESBUGALHADOS. 1940. DIREÇÃO BORIS INGSTER

Para muitos o primeiro noir, esta peça de criatividade extrema trata de um jornalista que testemunha contra um indivíduo, mas percebe tardiamente a possibilidade de sua inocência. O verdadeiro assassino circula na vizinhança. Quase um filme de vanguarda com uma gramática de flashbacks, fluxos verbais de pensamento, uma sequência de sonhos de arrepiar e um Peter Lorre em uma de suas atuações mais sombrias. Enquadramentos inclinados – planos em que a câmera é literalmente entortada deixando a imagem incomodamente na vertical – acentuam a atmosfera de desequilíbrio geral.
2) O FALCÃO MALTÊS (RELÍQUIA MACABRA) . 1941. DIREÇÃO JOHN HUSTON

Humphrey Bogart faz o papel de um detetive durão e cínico em um filme que estabeleceu boa parte dos principais clichês do noir, entre eles a Femme fatale – personagens femininas belas, sedutoras, seguras de si e manipuladoras, que as vezes são do bem e as vezes são do mal. Quase ao mesmo tempo que Orson Welles o diretor Huston faz um filme marcadamente captado em contra-plongée – ângulo de filmagem em que a imagem é filmada de baixo para cima – criando um clima de opressão permanente.
3) LAURA. 1944. DIREÇÃO OTTO PREMINGER

Brilhante variação do tema da Femme fatale e do detetive durão, em um filme surpreendente e ousado que já discute de modo emancipatório temas como machismo e poder, além de sua visão liberal sobre adultério e sexo antes do casamento. Flashbacks criativos para a época e enquadramentos inclinados.
4) PACTO DE SANGUE. 1944. DIREÇÃO BILLY WILDER

Brilhante uso do flashback em um dos primeiros filmes a ter como personagem principal um assassino sem escrúpulos. Possui uma Femme fatale das mais intrigantes do cinema.
5) OS ASSASSINOS. 1946. DIREÇÃO ROBERT SIODMAK

Homem com poucos laços conhecidos e que habita uma cidadezinha é morto brutalmente sem que se faça ideia do porquê. As investigações sobre seu passado revelam um esquema criminal ainda ativo. O filme ousa dar continuidade a uma gramática de flashbacks extremamente próxima da presente em “Cidadão Kane”. Os enquadramentos inclinados são extremos e criativos, desnorteando significativamente o espectador.
6) A DAMA DE SHANGHAI. 1947. DIREÇÃO ORSON WELLES

Um marinheiro é seduzido por uma mulher para trabalhar em um barco de milionários sem escrúpulos. Lá ele é contratado por um repugnante simpatizante do fascista Franco para participar de uma inusitada trama ligada a assassinato. Trama para lá de inusitada em um dos primeiros filmes a se utilizar com brilhantismo de uma voz off que narra a história sem que saibamos de onde o personagem narrador fala. Contra-plongées ousadíssimas sobrecarregam o filme, plongées – em que a câmera filma de cima para baixo – também são usadas com criatividade e a brilhante sequência final, toda retratada por meio de espelhos distorcidos, é um marco do cinema. Orson Welles brilhando novamente.
7) A MARCA DA MALDADE. 1958. DIREÇÃO ORSON WELLES

Policial idolatrado pelas autoridades americanas, porém depressivo e amargo, investiga crime ocorrido na fronteira entre EUA e México. Um detetive mexicano suspeita que esse ídolo da polícia ianque não é a figura incorruptível que parece. Comumente considerado o último noir esta obra máxima de Orson Welles é um debate ousado sobre ética, autoritarismo e complexidade da justiça. Com uma sobrecarga radical de contra-plongées com enquadramentos inclinados ao mesmo tempo (!) o filme parece um pesadelo da instabilidade absoluta. Pioneiro em um plano sem corte algum e imenso, que abre esta obra máxima que fechou o noir com chave de ouro.
Termino essa matéria falando de dois filmes pós-noir mas que são sem dúvidas momentos do noir em algum nível. Estes levaram a inventividade deste cinema aos seus pontos mais extremos e vanguardistas: “Alphaville” de Jean-Luc Godard e o nosso brazuca “O Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla. Cito estes trabalhos pois eles são a radicalização máxima do que há de ousado nos macabros filmes de invenção e de crimes do cinema ianque dos anos 1940 e 1950. Como última menção honrosa cito de novo “M, O Vampiro de Dusseldorf”, que foi o início de tudo. Viva e reviva o noir!