A VOLTA DO PESADELO?
“A HORA DO PESADELO” VAI GANHAR REFILMAGEM.
A obra-prima de Wes Craven, “A Hora do Pesadelo”, de 1984, é um filme que se vê ligado àquilo que diminui o seu valor. Quase impossível não pensar nele sem o relacionar às suas infinitas continuações, que na verdade jamais deveriam ter existido – com exceção talvez da parte 7, que marcou a volta do seu criador original. É um dos maiores filmes de terror de todos os tempos, mas suas sutilezas e brilhantismos foram muito soterrados por banalizações e distorções. O sucesso prejudicou a percepção de sua força estética e cultural. Seria uma segunda refilmagem – sendo que em 2010 ele já foi refilmado, e de modo péssimo aliás – uma boa opção para este clássico? Na verdade uma refilmagem tem mais chance de revitalizar o trabalho do que uma nova continuação, ainda que haja o perigo dela não dar conta de toda a genialidade do original. Traz alguma paz saber que a família de Craven está diretamente envolvida neste novo projeto.
Acho importante elucidar aqui a força do filme original para ajudar o público a avaliar criticamente a refilmagem que está por vir, a partir dessa elucidação pretendo deixar claro o que pode indicar pontos positivos para a ideia de refilmar o trabalho, mas também os perigos disso. O que mais salta à vista como uma atualidade quase profética do filme de 1984 é a ideia de parte de uma geração dominada por um monstro-transtorno-mental. As pressões e instabilidades do nosso mundo atual tornaram transtornos mentais um dos maiores problemas entre os jovens e Craven já previa isso em “A Hora do Pesadelo”. O terrível Fred Krueger – transformado em “Freddy Krueger” nas continuações – é uma espécie de trauma social, medo infantil e horror ante a censura do mundo adulto que domina a tal ponto o inconsciente de um mesmo grupo geracional que o impede de ter vida. A trama, inventiva ao extremo, faz com que a existência apenas intramental do monstro não lhe tire força: pelo contrário! É exatamente por existir a princípio apenas dentro da mente dos jovens que o abominável Fred Krueger tem um poder quase irrefreável de os destruir! Ao inflar hiperbolicamente o poder do que só existe dentro da mente a trama centraliza de modo criativo a discussão sobre este poder.
A existência intramental de Krueger consegue ser reproduzida por outros filmes, as sutilezas de Craven no retrato desta existência já exigem talento. Há passagens de “A Hora do Pesadelo” que são tão parecidas com sonhos “plausíveis”, ou melhor, com sonhos que pessoas reais comumente têm, que o filme pode ser considerado um dos melhores retratos do onírico no cinema. Há aceitações absurdas do sobrenatural, misturas entre o que se sonha com o que se fazia antes de adormecer, um clima labiríntico fatalista e uma série de detalhes que fazem com que modo como o sonhar ganha forma no trabalho seja um dos mais convincentes do cinema, ainda que mesclado ao sobrenatural declarado. Nenhum filme da série, nem sequer o outro dirigido por Craven, foi capaz de recuperar essa força nas passagens de sonho. Nas sequências de pesadelo, a maneira como os personagens, em uma atitude investigativa/hipnotizada, ignoram de modo absurdo aquilo que parece ter poder de os proteger do perigo e se dirigem mais decididamente a este é brilhante. O modo desprovido até de medo com que o sobrenatural tétrico é por vezes aceito e a maneira com que o que antecedeu o ato de dormir reaparece no sonho são geniais. Enfim: o mundo dos pesadelos é representado com raro e dificilmente recuperável brilhantismo e credibilidade.

Outra sutileza que as sequências ignoraram é a ácida crítica social. Todos os personagens jovens do filme são alvo de censura recorrente do mundo adulto. Glen, o namorado da protagonista Nancy, tem um pai autoritário e preconceituoso, Rod é pensado como um pária social até no seu enterro, Tina – que como namorada de Rod já não deve ser vista como boa coisa – é retratada em uma única cena com sua mãe – o pai desapareceu da família – e nesta é censurada. A metáfora chega ao máximo no pai policial de Nancy, que sempre a repreende nos inícios de conversa. Krueger incorpora, em uma passagem nos corredores de uma escola, a figura castradora de uma bedel, mas ao mesmo tempo é um molestador de crianças repugnantemente erotizado e escancaradamente imoral – na sociedade repressora o jovem introjeta no seu inconsciente uma imagem do adulto tão castradora quanto grotescamente lasciva. Talvez algo disso até apareça nas continuações, mas de modo exagerado e pastelão.
Até aqui debatemos traços do filme difíceis de serem recuperados em outro, mas algo recuperáveis, porém há uma radicalidade no trabalho de Craven que creio que os produtores não vão admitir de novo, e que em verdade exigia que o primeiro filme jamais recebesse uma parte dois: “A Hora do Pesadelo” termina sem que saibamos ao certo o elementar do que se passou na tela. O filme pode ser, de ponta a ponta, um pesadelo de Nancy, sem que haja uma passagem sequer que mostre algo do mundo dos personagens despertos; pode também retratar uma realidade que foi desregulada no processo da luta entre Nancy e Krueger, esta luta pode ter feito com que o universo dos sonhos invadisse o da realidade concreta; por fim pode ser que em dado momento Nancy durma e não desperte mais, de modo que próximo ao fim do que assistimos só o pesadelo da protagonista ocupe a tela. Qualquer continuação necessariamente esclareceria o original e tiraria força do seu radical fechamento.
Originalmente Craven não queria um final tão medonho e pessimista, mas o fechamento que pretendia era igualmente aberto. Os produtores pressionaram o diretor para realizar um final que sugerisse a volta de Fred Krueger pois tinham intenção de uma continuação. Wes Craven fez Krueger não ser derrotado, mas manteve e até intensificou a indeterminação do filme. O resultado acabou sendo uma das mais inventivas, impactantes e melancólicas “conclusões” do cinema de terror – “conclusão” que nada conclui aliás. O filme só acabou como acabou devido a uma tensão entre o diretor e os produtores, que acabaram achando que uma volta de Krueger nas últimas sequências era o melhor que conseguiriam tirar de Craven. É o tipo do final muito difícil de ser permitido e respeitado – as continuações são todas elas um desrespeito a ele.
É difícil acreditar que alguma refilmagem vá ter os requintes e a radicalidade do filme original, porém a realidade social atual, composta por uma juventude transtornada por um mundo adulto castrador e cruel, faz com que a cobrança por um retorno de Fred Krueger nas telas tenha muito de objetiva – ela atende uma necessidade do espírito do mundo. Resta torcer para que os encarregados pelo projeto tenham uma visão igualmente objetiva, sensível e radical desta cobrança.