As Faces do Terror
Recentemente reassisti “O Silêncio dos Inocentes”, um dos primeiros filmes que gerou um debate acerca de sua própria classificação genérica, – a questão da época era se ele devia ser classificado como suspense ou como terror – e me vi pensando sobre quais filmes devem ou não devem ser classificados como filmes de terror. A questão em verdade diz respeito a qualidade do medo debatido nos filmes e a qualidade do medo em geral, e a partir dela se faz possível um pensamento acerca dos diversos medos que assolam uma sociedade. O gênero terror está em alta neste século, o que significa que o medo também…
Acho importante ressaltar que o debate do medo, mesmo do medo intenso, em si não gera um filme de terror. Não faltam dramas, filmes policiais e filmes de guerra que falem do medo. Se o terror, ou o seu subgênero o horror, colocam o debate do medo tão no centro é fundamental que eles se aprofundem ao máximo no tema – mergulhar no medo é mergulhar nas associações extremamente irracionais dele, que adquirem ar mítico: um filme só é de terror ou de horror quando discute o medo mítico como tema central.
Isso não impõe o sobrenatural, mas impõe um insólito que remeta a medos míticos: um assassino que destrói suas vítimas por meio de ataques que impliquem em um intenso contato corporal, um contato que remete à brutalidade pré-histórica, assume o mesmo ar mítico que um fantasma ou lobisomem se o todo do filme é muito insólito. O mito chega mesmo no moderno: Em “The Toolbox Murders” – um filme injustiçado que faz um intenso ataque à misoginia e ao fanatismo religioso, e que a sempre cretina crítica ianque entendeu como um filme misógino pois, ao que parece, ela não sabe a diferença entre tematizar e aprovar; confusão esta que está muito na moda aliás – o improvável assassino se torna mítico até por seu armamento industrial, os instrumentos de sua caixa de ferramentas. Armamento inusitado traz absurdidade à selvageria pré-histórica. Algo parecido se dá em “O Massacre da Serra Elétrica”.

Há porém um medo que se coaduna mal com o cinema de terror: o medo do terror estatal. Filmes como “Salò ou os 120 Dias de Sodoma” e como “Laranja Mecânica” são hoje, às vezes, chamados de filmes de terror, mas isto é absurdo. O Estado terrorista é o mito do fim do mito, ele costuma se aprofundar mesmo no inconsciente como princípio da realidade inquebrável. A falta de clareza dos processos que decidiram pela instauração do mal, imposta pela burocracia tirânica, e a consequente sensação de não responsabilidade individual no ignóbil praticado tornam os Estados sanguinários formas demasiado humanas de mal, e por isso as mais anti – humanas. Os monstros sobrenaturais estão conectados com forças que veem o todo, deuses ou demônios, a barbárie estatal nasce do radical não ver. Que Hitler tenha querido assumir um ar mítico, que Bolsonaro reivindique para si o nome de “mito”, apenas ressalta o aspecto nauseante do mito fajuto dos líderes carniceiros ridículos. Kafka não fez literatura de horror, mesmo que tenha dado voz ao máximo horror. O terror estatal é específico demais para servir de discussão acerca do medo em geral e de aprofundamento no debate deste por sua resistência em adquirir ar mítico.
É verdade que o Estado terrorista pode ser abordado por um filme como um mal mítico dependendo de como este filme lhe dá um caráter sobrenatural – não ao modo de Kafka, que o fragmenta mais ainda, mas fazendo por exemplo com que os estadistas sanguinários tenham parte com o demônio. Porém talvez uma abordagem dessas seja um erro; talvez não se deva mitificar em nível nenhum o mal que é mais abominável e anti-humano quanto mais toscamente humano, o mal da pura desumanidade carente até de mitologia. Porém que hoje se associe o Estado ao gênero terror, mesmo que erroneamente, revela algo sombrio da nossa sociedade…
Também o Surrealismo resiste ao terror, embora haja filmes de terror “surrealistas”. As obras fantásticas de vanguarda como o Surrealismo e o Dadaísmo costumam falar de uma aceitação mal explicada do sobrenatural por parte dos personagens – eles comumente nada ou pouco se aterrorizam com o impossível. Elas debatem comumente a naturalização e a banalização do absurdo que assim deixa de ser mitológico. É possível hoje fazer terror “surrealista” de banalização do “sobrenatural’ mas não é tão fácil. De todo modo salta muito a vista no fantástico ligado aos modernistas a tendência a um debate sobre a morte do mito, ainda que esta destaque de modo fantástico um mito morto – o sobrenatural impotente em soar sobrenatural.
O Surrealismo, o horror ante a normalização do absurdo, abala tanto o debate sobre a intensidade do medo – o impossível assusta o público por assustar tão pouco os personagens – quanto a possibilidade do terrível em se aprofundar nos personagens como terrível em algum momento – o mito aparece impotente, o sobrenatural aparece naturalizado. Tudo isso dificulta o Surrealismo de se prestar ao cinema de terror.
Há cada vez mais associação por parte do público entre Surrealismo e terror; até “O Cão Andaluz” já foi, absurdamente, relacionado ao gênero. Na verdade, quando o estamos no campo de um fantástico de aceitação do sobrenatural por parte dos personagens só podemos falar em cinema de terror quando de alguma forma essa aceitação se transforma em medo absoluto, ou eventualmente quando há muito uso de monstros e cenários muito ligados ao terror mais típico. Até em um filme como “Eraserhead”, em que o grande pavor ocorre de alguma forma no personagem, o pertencimento ao gênero terror é relativo – o filme é e não é de terror. Surrealismo e terror tendem a se separar. Esse desejo do público por um terror “surrealista” porém diz algo socialmente importante.
Já a ficção científica se adequa bem ao terror. Ela injeta mitologia no não mitológico ao invés de debater a queda deste como o Surrealismo e o Dadá, ou a drástica fajutice deste como nos filmes acerca do totalitarismo estatal. A busca por terror de ficção científica revela um muito atual medo humano frente a técnica.
O recente interesse do público por associar o gênero terror a brutalidade estatal e ao Surrealismo revela algo importante porém: o horror humano está claramente banalizado. O cinema de terror sempre fez mais sucesso em períodos de grande instabilidade social, mas hoje se tende a o associar a Estados de direita e as diversas formas de banalidade do mal. A sociedade do desprezo pelos laços de amizade e amorosos, do mercado que não assume o trabalhador em nível nenhum como se ele nada mais fosse do que um exemplar substituível de uma categoria, da não garantia de nenhuma estabilidade econômica significativa e dos bufões anti-humanos da direita preparam um horror real que em parte pode suplantar o dos filmes. As pessoas necessitam de filmes de terror quando necessitam de coragem. Os períodos de muito amor ao gênero terror porém tendem a preparar um terror social real que pode tornar filmes de terror menos assustadores que filmes de contos de fadas da Disney.