CEM ANOS DO FILME “FAUSTO” E UM DEBATE SOBRE O AINDA INJUSTIÇADO CINEMA EXPRESSIONISTA ALEMÃO.

“Fausto”, a obra prima de F.W. Murnau, completa cem anos este ano, mas há mais motivos para lamentar a situação da crítica frente ao cinema expressionista alemão do que para comemorar. Sem dúvida o expressionismo cinematográfico foi grande, e Fausto se encontra entre suas obras máximas, mas compensa mais aproveitar a data para fazer reparos em feridas criadas por uma crítica tola e fetichista do que para apenas exaltar os méritos do filme, embora o debate sobre seus méritos deva fazer parte deste processo de reparos.

F. W. Murnau, diretor de Fausto.
F. W. Murnau, diretor de Fausto. - Autor desconhecido/Wikimedia Commons

Primeiramente uma parcela significativa da crítica sequer reconhece a existência de um cinema expressionista alemão, dizendo que a categoria é um mito. Há mais semelhança formal entre todos os filmes associados ao Expressionismo do que entre todos os quadros associados ao Cubismo, e muito mais semelhança entre todos os filmes associados ao Expressionismo do que entre todos os quadros associados ao mesmo movimento! Então a existência do Cubismo e da pintura Expressionista é um mito? Parece que para esta parcela da crítica sim… a existência de um movimento ou tendência não se dá por meio de uma identidade total entre as obras associadas aos mesmos, o crítico que cobra isto está na verdade querendo hiper-padronizar a cultura; isto nada diz sobre obras mas sim sobre interesses pérfidos de certa crítica.

A crítica porém consegue forjar uma inexistência do cinema expressionista alemão devido a própria situação do Expressionismo como um todo, uma vez que este jamais foi um movimento e sim uma tendência que incorporou vários movimentos. Na pintura tanto o grupo Die Brucke quanto o grupo Der Blauer Reiter foram movimentos independentes entre si. O Expressionismo literário se deu em torno da revista Der Strum e este nunca absorveu drasticamente nem o Expressionismo das artes plásticas e nem o teatral. É obvio que neste contexto um cinema expressionista sempre estaria algo isolado de outros expressionismos. Porém o que dá uma significativa unidade ao Expressionismo como um todo é a ideia de radicalizar o Romantismo a ponto de o tornar uma vanguarda. A ideia era levar a aparição de uma emotividade extrema do “eu-lírico” da obra a pontos tão máximos que a esta rompesse com a tradição e com a ilusão de realidade. Na pintura isso comumente resultou em marcas fortíssimas de pincelada, em coágulos de tinta, em cores alteradas implacavelmente, em deformações absurdas das figuras; no cinema em contrastes radicalmente marcados de claro e escuro, em histórias fantásticas e macabras, em atuações propositalmente exageradas e em cenários altamente artificiais. Nem todo filme associado ao Expressionismo tem todas estas características mas todos têm muitas delas.

“Fausto” se encontra em um lugar muito próprio no cinema expressionista e no cinema em geral. Ousado e revolucionário em forma e conteúdo seu dialogo com a tradição, tanto romântica quanto popular alemã, é por outro lado mais do que evidente – o filme bebe tanto da lenda popular quanto de Goethe. Sua plasticidade de contraste entre claro e escuro é uma das mais belas do cinema, e também uma das mais radicais. Sua inventividade formal é imensa: ele faz das imagens sobrepostas de modo a criar planos cinematográficos drasticamente não naturalistas uma verdadeira gramática – o filme chega a se polarizar em torno deste procedimento; cria animais extremamente estilizados; chega mesmo a experimentar com a visualidade de palavras escritas em fundos abstratos e ainda realiza alguma estilização dos cenários. Filme de intensa invenção e ao mesmo tempo de tradição.

A presença da tradição em certo cinema expressionista também já foi usada para negar que este seja uma vanguarda. Já se alegou que o que houve foi apenas um cinema neo-romântico. Todo o cinema expressionista está, de ponta a ponta, associado à invenção formal. O Expressionismo, não só no cinema mas em toda linguagem que se manifestou, sempre foi romântico ao máximo e até por isso de ruptura! A ideia expressionista é romper com a tradição a partir dos instrumentos desta – o romantismo, levado ao seu ponto mais extremo, já não é romantismo. A crítica também tem a mania de chamar atenção para um fato real: o cinema expressionista nasceu quase que de um golpe oportunista dos produtores; a Alemanha acreditava que relacionando pioneiramente seu cinema a uma vanguarda este teria um diferencial que o faria vender melhor – os produtores forçaram o Expressionismo a existir no cinema. A grande ironia é que o golpe deu certo como o oposto de um golpe! O que nasceu como oportunismo de fato fomentou um cinema radical de ruptura. As vezes vanguarda e interesses do capital convergem e esta convergência não prova em si a ausência de uma vanguarda, não faltam exemplos outros desse tipo de encontro.

Uma ideia ainda mais detestável, esta usada certa vez contra “O Gabinete do Dr.Caligari”, é a de que em algum momento o aparato formal expressionista já foi algo apenas decorativo no cinema. Forma é conteúdo. Um filme que indetermina o que é o “real” por meio de estilizações e distorções já está por si só convidando o espectador a indagação filosófica interminável sobre o tematizado, está também associando o belo à indeterminação, à mudança imprevisível, ao particular – tudo isso é subversivo e revolucionário. É verdade que alguma tensão entre forma e conteúdo deve ser considerada pela crítica; dependendo do olhar tudo é forma e dependendo do olhar tudo é conteúdo mas há sempre tensão entre os dois polos.

Conrad Veidt em O Gabinete do Dr. Caligari, marco do cinema expressionista alemão.
Conrad Veidt em O Gabinete do Dr. Caligari, marco do cinema expressionista alemão. - Robert Wiene/Wikimedia Commons

“Fausto” é também ousado no que mais comumente se associa ao conteúdo. Filme de ataque ao obscurantismo, à turba moralista disposta ao linchamento público – esta é mostrada até como assassina de um bebê com quem finge, posteriormente, preocupação. Murnau não condena no filme, muito pelo contrário, uma mulher que engravida antes de casar; isto soa simples hoje mas não era tão fácil de ser feito em um meio de comunicação de massas nos anos 1920.

Aqui podemos falar da última e maior injustiça cometida pela crítica contra o cinema expressionista, a injustiça do crítico Kracauer, a injustiça de dizer que em algum momento o expressionismo produziu filmes protofascistas. O mais conservador filme expressionista, “Metrópolis” de Fritz Lang, não pode ser de forma alguma tomado como fascista, ainda que tenha sido apropriado por Hitler e por seu séquito de monstros. Trata-se de um filme centrista que defende com ingenuidade um “capitalismo humano”. Esse discurso de fato interessava aos fascistas, mas não só a eles – é um discurso que dá a tônica da sociedade até hoje. Mas o absurdo da crítica de Kracauer é ver defesa da opressão em “O Gabinete do Dr.Caligari”Caligari, o filme anti-opressão por excelência,  Caligari, um dos maiores e mais brilhantes feitos do cinema… mas isso seria tema para outro artigo…

Fritz Lang durante as filmagens de Metrópolis.
Fritz Lang durante as filmagens de Metrópolis. - Horst von Harbou/Wikimedia Commons