DEZ FILMES DE TERROR INVENTIVOS AO EXTREMO QUE TÊM QUE SER VISTOS

Sem dúvida o avanço da extrema-direita coloca a todos nós em uma situação tão limite que se torna difícil pensar a arte a partir do que esta tem de puramente estético, porém a vitória em situações difíceis só é possível quando o pensamento ultrapassa em muito os seus caminhos batidos – só o exercício de conduzir o pensamento para muito além do que ele já conhece permite que ele solucione o que é de difícil solução. A arte de invenção é subversiva por natureza. Frente a tudo isso, e em homenagem ao dia das bruxas, cito aqui dez filmes que sem dúvida estão entre os mais inventivos do terror e que ninguém deveria perder.

O GABINETE DO DR.CALIGARI. 1919. DIREÇÃO ROBERT WIENE

Imagem da obra: O Gabinete do Dr. Caligari
Imagem da obra: O Gabinete do Dr. Caligari - Domínio Público

Em uma pequena vila alemã um monge exerce controle total sobre um sonâmbulo e o força a cometer assassinatos. Um dos filmes mais inventivos já realizados, tendo pioneirismo no retrato de mundos intramentais colocados no centro da obra, na luz e nos cenários propositalmente absurdos e em diversos outros procedimentos radicais. Filme fundador de Expressionismo cinematográfico. Ataque a opressão e a toda autoridade abusiva.

NOSFERATU. 1922. DIREÇÃO F.W. MURNAU

Personagem Nosferatu em cena do filme
Personagem Nosferatu em cena do filme - Domínio Público

Primeira adaptação para cinema do personagem Dracula, não autorizada aliás pela família do autor do romance. A questão aqui não é a quantidade de procedimentos com os quais o filme trabalha com pioneirismo, mas sim o fato de o trabalho levar a perfeição a luz expressionista – luz com fortes e absurdos contrastes de claro e escuro – e a atuação também ligada ao Expressionismo – atuação propositalmente exagerada e caricata. Filme que solidificou invenções fundamentais em um retrato abrangente do mal e em um ataque a escravização.

O GATO E O CANÁRIO. 1927. DIREÇÃO PAUL LENI

Cena do filme “O Gato e o Canário”, de 1927
Cena do filme “O Gato e o Canário”, de 1927 - Domínio Público

Homem extremamente rico, mas cercado por parentes gananciosos, termina por falecer. Para herdarem sua fortuna seus parentes acabam se vendo obrigados a passar uma noite em sua mansão, que parece assombrada. Filme pioneiro no subgênero das casas mal assombradas e uma das primeiras comedias de terror. Só o plano de abertura já se utiliza de sobreposições de imagens de forma revolucionária. O filme, ainda mudo, é inventivo em alguns letreiros – que parecem verdadeiras poesias visuais -, nas câmeras subjetivas – que chegam a antecipar as que seriam comuns no cinema giallo – além do já mencionado uso ultra-criativo da sobreposição da imagem, entre outros usos inusitados da linguagem. Filme fundador de subgêneros!

THE FALL OF THE HOUSE OF USHER. 1928. DIREÇÃO MELVILLE WEBBER E J.S. WATSON JR.

Cena do curta “THE FALL OF THE HOUSE OF USHER”, de 1928
Cena do curta “THE FALL OF THE HOUSE OF USHER”, de 1928 - Reprodução: James Sibley Watson e Melville Webber

Curta de vanguarda que adapta com pioneirismo o conto homônimo de Edgar Alan Poe. Uma peça de arte radical, quase precursora da videoarte, que prioriza a plasticidade extrema no uso de sobreposições de imagem revolucionarias e letras visualmente trabalhadas à própria compreensão da história, o que não deve ser entendido como um defeito, mas sim como um recurso semelhante aos da literatura de James Joyce. Pérola de criatividade!

NA SOLIDÃO DA NOITE. 1945. DIREÇÃO ALBERTO CAVALCANTI E OUTROS

Clássica imagem de “Na Solidão da Noite”, de 1945
Clássica imagem de “Na Solidão da Noite”, de 1945 - Reprodução/Alberto Cavalcanti e Ealing Studios

Arquiteto é chamado para visitar casa de campo de possível cliente. Lá ele percebe já ter vivido, em um sonho recorrente do qual não se lembra muito bem mas que sabe ser terrível, a situação em que se encontra. A partir disso as outras pessoas presentes na casa começam a narrar o que acreditam terem sido vivências sobrenaturais. Coletânea de histórias de horror revolucionária até por antecipar este formato de histórias dentro de uma história. O final é um dos mais surpreendentes e criativos do cinema de modo geral, não apenas do gênero terror.

CARNAVAL DAS ALMAS ( TAMBÉM CONHECIDO COMO “O PARQUE MACABRO”). 1962. DIREÇÃO HERK HARVEY

Clássico filme de fantasmas, “Carnaval das Almas”, de 1962
Clássico filme de fantasmas, “Carnaval das Almas”, de 1962 - Domínio Público

Única sobrevivente de um acidente de automóvel começa a se sentir, após a tragédia, cada vez mais descolada da própria vida, ao mesmo tempo que se vê sendo perseguida pelo o que parece ser um fantasma de alguém desconhecido dela. Conduzido com brilhantismo no todo, o filme apresenta um final tão desconcertante e inventivo que não nos permite sequer ter alguma certeza acerca do que assistimos na tela.

REPULSA AO SEXO. 1965. DIREÇÃO ROMAN POLANSKI

Cena do filme “Repulsa ao sexo”, de 1965
Cena do filme “Repulsa ao sexo”, de 1965 - Reprodução: Repulsa ao sexo/Compton Films, 1965

Manicure extremamente tímida e com uma imagem maximamente negativa da sexualidade enlouquece progressivamente, acabando por se envolver em crimes. Este ataque a repressão sexual é um dos primeiros filmes a realizar uma mistura constante e altamente tensionada de realidade e delírio – jamais os separa em blocos demarcados, mas cria sim a impressão de um delírio que irrompe bruscamente no real. Filme de ataque a todo tipo de abuso e repressão.

A HORA DO LOBO. 1968. DIREÇÃO INGMAR BERGMAN

Cena do filme “A Hora do Lobo”, de 1968
Cena do filme “A Hora do Lobo”, de 1968 - Reprodução: A Hora do Lobo (1968)/Ingmar Bergman

Esposa de pintor misteriosamente desaparecido em uma ilha que estava habitada apenas por ambos quando o sumiço ocorreu narra ao diretor do filme, e ao público, os últimos e atormentados dias ao lado de seu marido. Para além da revolução de fazer a personagem falar com o próprio público o filme é ainda pioneiro na indeterminação da realidade dos fantasmas – há fantasmas na história ou tudo não passou de um delírio? Há outras invenções inúmeras neste trabalho mórbido e angustiante.

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. 1974. DIREÇÃO TOBE HOOPER

Famosa cena de “Massacre da Serra Elétrica”, de 1974
Famosa cena de “Massacre da Serra Elétrica”, de 1974 - Reprodução: Vortex/Hooper Productions/Massacre da Serra Elétrica (1974)

Jovens vão ao Texas visitar propriedades dos seus avós e terminam nas mãos de família de canibais. Neste que é um dos filmes mais doentios e assustadores já feitos. Temos um estilo documental, uma montagem de cortes bruscos para lá de original e uma trilha sonora de ruídos em estilo modernista. Tudo cria uma atmosfera de desnorteamento e mal estar. Filme de olhar para lá de descrente nas bases das famílias ianques.

ZOMBIE – O DESPERTAR DOS MORTOS. 1978. DIREÇÃO GEORGE A. ROMERO

Cena de “Despertar dos Mortos”, de 1978
Cena de “Despertar dos Mortos”, de 1978 - Laurel Group / United Film Distribution Company / Direção de George A. Romero

Em um país dominado por mortos vivos um pequeno grupo consegue se refugiar em um shopping center e vai, progressivamente, acreditando que aquele espaço é um paraíso em meio ao inferno que virou a realidade reinante nos Estados Unidos. Formalmente não há brilhantismo no trabalho, que até se utiliza do tosco formal como estética. A genialidade está na concepção e na condução da história, com sua crítica debochada, amarga e maliciosa aos mínimos detalhes da sociedade de consumo. A trama criativa acabou gerando o gênero “Apocalipse Zumbi” e deu as bases para o terror splatter.

Aqui termino minha lista de filmes criativos, esperando que seu apelo a inventividade e a crítica possa nos orientar na crítica ao mundo reinante.