A URGENTE, E JÁ ABSURDA, NECESSIDADE DE SE REAVALIAR “O GABINETE DO DR. CALIGARI”

O cinema de arte tem data de nascimento: esta se deu em 1919, devido ao lançamento de “O Gabinete do Dr. Caligari”, do diretor Robert Wiene. Não que outras experiências mais ligadas à arte do que ao entretenimento não tenham sido feitas antes no cinema, mas foi o filme de Wiene que esclareceu a nível de massa que a arte cinematográfica podia ter pretensão estética e fazer da forma avançada o elemento principal do conteúdo avançado. Passados pouco mais de cem anos do cinema de arte, cabe avaliar suas necessidades de ponta a ponta; o já mais que centenário precisa ser bem pensado para não envelhecer – com mais de cem anos, envelhecer é um risco. E isso nos traz a “O Gabinete do Dr. Caligari”. O filme foi mais compreendido na época de seu lançamento do que nas décadas posteriores – algo incomum para um filme de vanguarda – pois, nestas, foi sendo alvo de injustiças absurdas cada vez maiores. O que é assustador e inaceitável é que as absurdidades ridículas atribuídas ao trabalho de Wiene ainda apareçam na crítica; ao invés de se tornarem patrimônios do ridículo, tais absurdidades se transformaram em patrimônios culturais, como se fosse sinal de inteligência e cultura crítica repetir cretinices tão famosas quanto ocas. A vergonhosa submissão dos que se dizem pensadores do cinema faz com que estes se submetam ao que já se petrificou e ainda disfarcem essa submissão de conhecimento superior. Este processo tem de ser detido imediatamente.

Em seu lançamento, Caligari foi muito respeitado e chamou muita atenção de público e crítica. Pouco depois se iniciou o absurdo que o marca até hoje: seus méritos foram entendidos como defeitos. Caligari transpôs para o cinema técnicas das artes plásticas e do teatro expressionista. Raramente um filme trouxe uma quantidade tão grande de inovações. Seus cenários são absurdamente distorcidos, deformados e impossíveis, como os de pinturas expressionistas sombrias do primeiro pós-guerra. O filme faz do contraste irreal de claro e escuro uma verdadeira gramática, e chega mesmo a pintar sombras negras no cenário para tornar o escuro um impossível breu total. Alguns atores usam maquiagens estilizadas de modo a adquirirem feições cadavéricas. O resultado parece uma sombria pintura expressionista em movimento.

Imagem/Reprodução: O GABINETE DO DR. CALIGARI
Imagem/Reprodução: O GABINETE DO DR. CALIGARI

Ainda em sua época surge uma crítica absurda que fez história: o filme foi acusado de rebaixar e desrespeitar a arte moderna. A irrealidade dos cenários, da luz e dos personagens do filme possui uma explicação “realista”: na verdade, a história trata do delírio de um louco em um hospício. Certos críticos interpretaram isso como um desprezo pelas inovações formais do modernismo pictórico. Porém, o filme é radicalmente moderno! As técnicas cubistas e expressionistas já foram usadas diversas vezes para retratar estados de desequilíbrio mental de personagens, assim como para passar com mais força uma ideia de caos. Tanto o quadro “Guernica” quanto todos os estudos relacionados a ele usam os procedimentos cubistas para criar uma ideia de mentes e espaços desestruturados – Picasso era então contra sua própria modernidade? Os procedimentos formais da pintura figurativa moderna e modernista são extremamente versáteis, podendo representar tanto uma harmonia fragmentária quanto desestruturação psíquica. O fragmentário que tais procedimentos significam terá sentidos diferentes em obras diferentes, pois a fragmentação pode estar na ordem inusitada ou na desordem. É incompreensível que esta ideia de desrespeito pelo moderno tenha se estabelecido, uma vez que pinturas que usam o expressionismo para criar desequilíbrio radical eram, já na época, muito comuns.

Mais recentemente surgiu outra tolice que tenta rebaixar os procedimentos expressionistas do filme: alguns críticos os tomam como puramente decorativos. Distorcer cenários, criar uma iluminação absurda, estilizar personagens jamais será algo puramente decorativo. Tais procedimentos servem para tornar claro que uma obra não é “a realidade” e para assim desencadear processos de pensamento sobre o abordado – a obra se assume uma reconstrução textual do tematizado e, assim, um recorte, assumindo que não esgotou o tema. Porém, em O Gabinete, a acusação de pura decoração é ainda mais absurda, pois o filme explica narrativamente o significado das irrealidades expressionistas, associando-as à visão de um louco!

Mas a mais famigerada e injusta crítica ao filme de Wiene se encontra no livro de Siegfried Kracauer, “De Caligari a Hitler: Uma História Psicológica do Cinema Alemão”. “O Gabinete do Dr. Caligari” trata da figura de um psiquiatra que se disfarça de monge e exerce controle mental absoluto sobre um sonâmbulo; para desfrutar do que há de ilimitado em seu poder, ele usa o sonâmbulo para cometer uma série de assassinatos gratuitos – seu objetivo é se perceber, por pura soberba, com um grau de poder sobre o outro capaz de tornar este outro um assassino. A trama se encerraria com o psiquiatra Caligari indo para um hospício, porém, por diversos motivos sobre os quais não cabe discorrer aqui, o filme foi alterado de modo que toda esta história foi transformada em um delírio de um dos pacientes do agora inocente – ou não tão culpado – Caligari. Segundo Kracauer, o roteiro original era uma crítica à autoridade social – Caligari funde em si a psiquiatria, a igreja e a figura do senhor das mortes –, enquanto que as mudanças da trama associariam a ideia de uma autoridade soberba e insana ao delírio de um alienado. Escapou a Kracauer o óbvio – o protagonista louco somos nós, o público. A obra não apresenta com nenhuma clareza a realidade concreta que poderia invalidar a visão do protagonista; se ela é tomada como loucura, ela é tomada ao mesmo tempo como a realidade que importa.

O que foi entendido como um demérito é um dos maiores méritos do filme: sua genialidade está no fato de nos revelar apenas ao final que tudo o que vimos foi apenas intramental, após termos nos identificado com o que vimos. A perspectiva que poderia talvez invalidar a visão do louco, a verdadeira natureza e temperamento do psiquiatra Caligari, simplesmente permanece em obscuridade; o “verdadeiro” Caligari apenas aparece em um fechamento do filme que em nada explica por que ele parece tão cruel para o protagonista. Não se explica também por que o personagem insano tem uma visão tão negativa da igreja, nem por que ele vê no psiquiatra um tipo de clérigo, e não sabemos sequer por que o mundo lhe parece tão sombrio e sem perspectivas. A perspectiva da obra é a perspectiva do louco; atribui-se razão à sua loucura, pois é, de fato, quase que exclusivamente nela que os temas devem ser pensados. Não há enaltecimento da autoridade social, há o extremo oposto: o massacrado pela sociedade tem razão até na irrazão. O filme não é grande apesar de seu final, mas em larga medida por causa de seu final.

“O Gabinete do Dr. Caligari” é uma das maiores obras de arte de todos os tempos; é a partir do repúdio aos absurdos que se atribuiu a ele e ao pensamento objetivo sobre ele que o cinema deve, de quando em quando, se considerar, tanto agora quanto no futuro.