QUANDO O CINEMA DE TERROR É ARTE
A recente, tardia e por vezes grande valorização intelectual do cinema de terror nos faz pensar porque, ao longo de sua história, o gênero foi comumente não levado a sério; estariam os críticos do passado de todo errados e só agora teria surgido uma visão crítica minimamente lúcida frente ao terror? Ou nós que valorizamos o gênero que estaríamos tomados por um delírio modista? As décadas que viram no terror um gênero menor estariam erradas de ponta a ponta? A resposta não é simples, mas sim tão contraditória e repleta de choques quanto as aparições de monstros horripilantes em nossas telas: o terror é em larga medida um gênero menor, mas é justamente a partir de sua identidade como algo menor que ele tira sua força para ser também um gênero maior.
A compreensão disso cobra que se reinterprete o que é um gênero menor; raramente essa menoridade diz respeito a uma impossibilidade total de uma linha de arte chegar as vezes no nível das maiores obras, o comum é apenas que no gênero menor chegar em pontos altos da arte seja mais improvável do que em outros tipos de arte. O gênero menor tem características estruturais que tendem demais ao kitsch extremo. Porém a literatura policial de Edgar Allan Poe, assim como suas obras de terror, são altíssima literatura; o teatro de Bertolt Brecht é em muito um tipo de opereta, e isso não o impediu de ser um dos maiores teatros dos últimos 126 anos; as performances dadaístas que revolucionaram a cultura eram sob certa perspectiva uma forma do teatro de variedades; as ficções científicas de Andrei Tarkovsky estão entre as peças mais sofisticadas do cinema – os exemplos são muitos… O que importa é constatar que o terror tem características estruturais que tendem ao kitsch extremo, mas não apenas não se deixa sempre engolir por elas; ele tira sua força delas.
O gênero fantástico é aquele em que é mais inadmissível a forte presença de clichês, se ele não instiga a imaginação o fantasioso vira algo sem função, um fantasioso castrado e pastiche de si mesmo – por que fantasiar se não para sair das associações habituais? O terror que se deixa absorver no clichê é um fracasso. O terror trata da violência, e a violência formatada em clichês também é a barbárie; quem toma o partido das concepções estereotipadas do mal não quer realmente o deter, pois a ineficácia destas concepções é gritante. O terror absorve o espectador na sensação que transtorna e a priori isso atrapalha a reflexão crítica sobre a obra. Tudo isso é verdade e explica o preconceito que o gênero sofreu e que ainda sofre em certos meios, mas há um outro lado: estranhamento extremo e choque são as bases da arte de vanguarda e de toda arte realmente crítica e autocrítica.
Há um aspecto de muitos gêneros a priori menores que comumente é esquecido: o fato de que neles é permitida muitas vezes uma grande liberdade criativa. No cinema os produtores veem o terror como um gênero de nicho e de baixo custo, e na história da arte se permitiu que os gêneros menores abordassem o muito sério a partir da crença de que ninguém os levaria a sério.

George A. Romero pode tomar o mundo do consumo como um apocalipse talvez irreversível em seu “Zombie – O Despertar dos Mortos” pois era um “cineasta B”; Tobe Hooper pode retratar as raízes dos E.U.A como aberrativamente doentias em “O Massacre da Serra Elétrica” pois se sabia que o filme ia ser muito menosprezado pois entendido como algo de mau gosto; Charles Laughton pode mostrar o que há de doente na religião em seu “O Mensageiro do Diabo” pois o filme possuía uma atmosfera fantasiosa. Todos esses filmes foram também muito baratos e a polêmica não traria prejuízo aos produtores. Podiam também ousar formalmente pois uma estética experimental não seria tão prejudicial ao capital investido.
O estranhamento é a base do terror e com ele vem a liberdade para a invenção estética, a polêmica é a medula do terror e com ela vem a possibilidade da arte contestatória. A violência extrema do terror, quando momento de um trabalho estético formalmente de invenção, não embota a reflexão crítica sobre o todo artístico, pelo contrário, até ajuda esta reflexão: a violência gera repudio, desconfiança frente ao valor da obra, mas na incerteza do que parece ter qualidade gera muita investigação, e esta é favorecida pela estética da criatividade radical e, portanto, do inquérito. Se o clichê é o perigo do terror o compromisso do gênero em chocar, surpreender e transportar para o reino do estranho conspira contra o clichê.
Aqui é preciso uma pausa. O grotesco e o bestial extremo do gênero de fato podem atrapalhar a reflexão crítica. Porém quando há inventividade formal, sofisticação portanto, o mesmo grotesco apelativo, em choque com os momentos altos, gera desconfiança e investigação. O que é medíocre, pobre em todo significar, mas parece elevado, apenas embota o pensamento; o que parece alto e baixo instiga o pensamento. A criatividade formal é a condição do bom terror, mas ela permeia toda sua história: a revolução cenográfica e de iluminação do Expressionismo Alemão, as sequências delirantes de closes de “Frankenstein” de 1931, o domínio do flashback e do mundo mental dos personagens em “Monstros” de 1932 e em “O Gabinete do Dr. Caligari”, a estética de elipses do cinema de terror dos anos 1940, a absorção dos procedimentos modernos de ponta no terror exploitation dos anos 1970 são todos momentos marcantes do gênero.

Há filmes de terror que funcionam como arte e não arte, sendo estes os que absorvem o extremo mau gosto na extrema inventividade formal. Isto foi muito presente no terror dos anos 1970 e marcadamente no cinema Giallo. Tanta invenção estética somada a tanto apelo grotesco pode até levar a uma recepção mais desatenta, porém sequer esta é de todo absorvida na desatenção, pois os anos 1970 foram um marco do terror crítico, transgressor e provocativo ao máximo. Este momento do gênero é um dos que mais expressa o poder do terror de se fortalecer a partir de seus pontos de tendência questionável, pois o terror é um gênero que corre sempre um grande risco de cair – e que muitas vezes cai fundo -mas as vezes se eleva a partir deste risco.
O terror é um dos gêneros que mais produziu lixo, e um dos que mais produziu arte; gênero menor? Gênero maior? Tão desconcertante como seus monstros mais surpreendentes ele é ambas as coisas.