Terror e Surrealismo
Em um artigo meu eu afirmei que o Surrealismo oferece resistência ao gênero terror. Esclareço aqui que isto não significa que não haja filmes de terror algo ou muito “surrealistas”, mas sim que as formas mais radicais do que se associou ao Surrealismo não são tão comuns nos filmes do gênero, embora as menos radicais sejam muito presentes. Quero agora deixar claro em que medida o surreal pode aparecer no terror e o quanto esta aparição pode ser artisticamente enriquecedora.
Primeiramente é necessário esclarecer o que nossa cultura, na verdade em uma simplificação radical, chama de “Surrealismo”. Há toda uma linha de obras fantásticas, que tem como um dos seus marcos iniciais “O Nariz” de Nikolai Gogol, que por meio do absurdo cria um mundo de leis tão instáveis que impedem a compreensão do elementar do funcionamento do mundo assim criado. Tais tipos de obras apareceram em outros momentos do século XIX assim como nos anos 1900. Apareceram no Dadaísmo e em Kafka para só depois aparecerem no Surrealismo e, sabe-se lá porque, passarem a ser associadas basicamente a ele. Mais correto seria falar em um fantástico modernista já que, apesar de ter suas raízes no século XIX, o fantástico da instabilidade radical ganhou força basicamente no modernismo, tendo uma vida anterior ao Surrealismo e tendo também uma vida posterior a ele, que se deu na literatura fantástica da América Espanhola.
Dentre os procedimentos artísticos associados com muita força ao Surrealismo se encontram a aceitação total ou parcial, por parte dos personagens, de um fantástico extremamente enigmático, e a contradição mais extrema possível das atitudes dos personagens e mesmo da continuidade do espaço-tempo, sendo também estas aceitas no mundo da obra. A aceitação do sobrenatural não apenas abala a discussão sobre o medo dele como também parece frear seu potencial mítico, enquanto que o terror debate justamente a intensidade e profundidade do medo e o potencial mítico deste – mesmo quando trata de assassinos humanos estes assumem uma dimensão mítica no terror, pois o gênero se propõe a discutir o medo em sua forma mais ampla e por isso arquetipal. Porém, a instabilidade radical do mundo da obra pode criar uma atmosfera de pavor absoluto e aquilo que a princípio se opõe ao pertencimento ao gênero terror pode acabar na verdade colaborando com este.

O terror de “Surrealismo” radical – e só este pode ser mais classificado como terror “surrealista” – é algo um pouco raro, mas se encontra entre as melhores criações do gênero. Por outro lado, certo “Surrealismo” é comum no terror. A soma de acontecimentos improváveis na trama e certa aceitação do improvável por parte dos personagens é comum; incomum é o procedimento mais extremo de eles praticamente não se chocarem com o indiscutivelmente impossível quando este se manifesta de forma muito escancarada. No giallo o improvável recorrente na trama é presente em vários filmes, mas o “Surrealismo” radical não é tão presente. O que é interessante no uso dos procedimentos artísticos mais radicais do fantástico no terror é que por meio dele a discussão pode tanto se aprofundar muito no retrato do inconsciente quanto no debate sobre a banalidade do mal, da aceitação gratuita deste. O terror mais realmente “surrealista” se torna também mais inventivo e desconcertante do que o mais comum.
Exemplo disto é “Lisa e o Diabo” de Mario Bava. O filme foi tão alterado pelos produtores logo após sua primeira finalização que só com muito esforço se conseguiu recuperar sua forma original. É ela que vou debater aqui. Em uma trama em que sequer o espaço-tempo é estável, e que a partir desta instabilidade cria uma atmosfera onírica incomodativa ao extremo, a aceitação do absurdo por parte dos personagens se mistura com o desespero dos mesmos frente a ele. Isto, somado a presença de fantasmas e do próprio demônio, colocam o filme no gênero terror ainda que aqui haja “Surrealismo” radical. A morbidez imprevisível ao máximo, a sensação de inexistência de um solo em que se possa colocar os pés, e o caráter melancólico-sufocante do filme fazem dele uma terrível e abrangente fábula sobre a impossibilidade de se encontrar pontos de repouso no mundo. A sensação raramente consciente de ausência de pertencimento ao mundo dos vivos também ganha corpo em “Lisa e o Diabo”.
Já “Pelo Amor e Pela Morte” de Michele Soavi se baseia na aceitação mais absurda possível do fantástico e do insólito, mas trabalha com os cenários e as criaturas típicas do cinema de horror – os monstros são mortos-vivos e o cenário básico é um cemitério. A ideia de ciclos intermináveis e inescapáveis dão ao debate sobre o amor e a morte um caminho surpreendente em um filme que também joga com o humor doentio de maneira morbidamente brilhante.
A banalidade do mal, ou melhor, a sensação de que a autoridade social não pode em nada proteger seus cidadãos, se encontra desconcertantemente retratada em “Terror na Ópera” de Mario Bava. O filme trata da aceitação do perigo de morte, mas faz ela adquirir dimensões tão absurdas que caímos no incontestavelmente impossível sendo aceito pelos personagens com naturalidade. Perseguida por um cruel assassino, a protagonista, uma cantora lírica, não faz a mínima questão de recorrer a autoridade policial para se proteger, e não é repreendida com força por isso sequer pela própria polícia! – há certa explicação narrativa para essa não repreensão por parte da polícia mas que em nada abala o absurdo. A sensação de desproteção e terror que este recurso narrativo cria tornam a obra uma peça de rara morbidez. Também aqui se pode classificar o filme como terror pois, como em “Lisa e o Diabo” não há apenas aceitação do impossível mas também pavor frente a ele.

Mas a verdade é que o mais conhecido filme de terror que flerta com o Surrealismo é o primeiro “A Hora do Pesadelo” de Wes Craven. Nos habituamos tanto com as continuações infindáveis e com a banalização da trama desta obra prima que até nos esquecemos o quão perturbador foi este filme quando primeiramente exibido, e o quão radical e complexo ele é. Em um brilhante debate acerca de medos infantis, insegurança social e cultura da repressão do jovem pelo mundo adulto o filme tece o retrato do inconsciente da juventude de uma sociedade perturbada. O sobrenatural horroriza personagens a princípio, mas o final aberto e absurdo do trabalho nos faz não entender sequer o que se passou na tela. Esta obra é tão inventiva e repleta de sutilezas que merece um estudo mais aprofundado do que me proponho a fazer aqui.
Há certa tensão entre filmes de terror e filmes surrealistas, mas a mistura dos gêneros pode combinar em obras primas do macabro pois ambos se propõem a debater o estranho e o desconcertante. A verdade é que as formas mais radicais dessa mistura deveriam ser mais realizadas.