Conheça Denshattack!, o jogo mais improvável sobre trens que você vai amar.
Eu nunca pensei que fosse gostar tanto de um jogo de trens.
Não tenho nenhuma grande paixão por ferrovias, não conheço modelos de locomotivas e definitivamente nunca imaginei que controlar um trem pudesse proporcionar alguns dos momentos mais divertidos que tive recentemente em um videogame.
Até jogar Denshattack!.

A ideia parece ter saído de uma conversa que deveria ter terminado com alguém dizendo: “Isso é absurdo demais”. Você controla um trem capaz de saltar, fazer kickflips, deslizar por trilhos e paredes e atravessar cenários em altíssima velocidade. É como se alguém tivesse misturado Tony Hawk, Sonic e Jet Set Radio, colocado tudo sobre trilhos e decidido não diminuir a intensidade em nenhum momento.
Desenvolvido pelo estúdio espanhol Undercoders, Denshattack! se apresenta como um jogo de plataforma 3D baseado em manobras, ambientado em uma versão colorida e distópica do Japão. O objetivo não é apenas chegar ao final das fases, mas realizar truques, manter combos, acumular pontos e dominar cada percurso com velocidade e estilo.
E, de alguma maneira, tudo funciona.
Referências não são o problema
As influências de Denshattack! são evidentes.

A velocidade e os percursos lembram Sonic. Os grinds, saltos e combos carregam o espírito de Tony Hawk’s Pro Skater. A direção de arte, a música e a atitude quase rebelde remetem diretamente a Jet Set Radio. Existem ainda elementos de jogos como OlliOlli, Crazy Taxi e até de animes japoneses espalhados pela experiência.
Mas Denshattack! nunca parece apenas uma cópia.
Esse é um ponto importante porque, muitas vezes, tratamos originalidade nos videogames como se fosse necessário criar alguma coisa sem qualquer influência anterior. Só que praticamente toda obra nasce de referências. A diferença está no que os criadores fazem com elas.
Denshattack! não tenta esconder de onde veio. Ele pega elementos conhecidos, reorganiza tudo ao redor de uma premissa completamente inesperada e cria uma identidade própria.
Afinal, não estamos falando de um personagem com patins ou de um skatista atravessando uma cidade. Estamos falando de um trem fazendo um kickflip antes de entrar em um vulcão.
Isso não deveria funcionar.
E talvez seja exatamente por isso que funciona tão bem.
Um jogo que não tem medo de ser exagerado
Denshattack! não pede desculpas pela própria estranheza.
A tela é tomada por cores, efeitos, velocidade, personagens, pontuações e elementos gráficos que parecem ter sido arrancados de um anime dos anos 2000. Os trens são cobertos por adesivos e personalizações. As fases atravessam cidades, praias, montanhas, vulcões e estruturas que desafiam qualquer compromisso com a lógica.
Tudo é exagerado, barulhento e cheio de personalidade.
O estilo visual de Denshattack! foi uma das coisas que mais me conquistaram. O jogo tem aquela rara qualidade de ser reconhecível em poucos segundos. Você pode olhar para uma imagem isolada e entender imediatamente que existe alguma coisa diferente acontecendo ali.
A trilha sonora de Denshattack! completa essa identidade.
Ela não está simplesmente tocando ao fundo. A música parece empurrar o trem para a frente, tornando cada salto, curva e aterrissagem mais empolgante. Existe uma sintonia muito forte entre o que você escuta, o que vê e o que controla.
É o tipo de jogo em que imagem, música e movimento parecem fazer parte da mesma coisa.
A indústria quer criatividade, desde que ela pareça segura
A indústria dos videogames vive falando sobre inovação.
Mas, quando os orçamentos aumentam e a pressão por retorno financeiro cresce, muitas empresas acabam escolhendo o caminho mais previsível. As decisões começam a ser guiadas pelo que já vendeu, pelo que está em alta e pelo que parece mais fácil de explicar em uma reunião.
O resultado é uma indústria cheia de jogos tecnicamente impressionantes, mas que frequentemente parecem variações de algo que já conhecemos.
Denshattack! segue na direção contrária.
Ele não tenta parecer seguro. Não parece ter sido criado a partir de uma lista de tendências ou de uma análise sobre qual gênero estava dominando o mercado. Parece ter começado com uma pergunta muito mais interessante:
“E se fizéssemos um jogo de manobras radicais com trens?”
Essa pergunta contém um risco enorme. Também contém algo que está faltando em muitos projetos: curiosidade.
É fácil imaginar quantas ideias divertidas nunca saem do papel porque alguém acredita que elas são estranhas demais, específicas demais ou difíceis demais de vender. Denshattack! é uma demonstração de que uma ideia absurda pode se tornar uma grande ideia quando existe execução, confiança e uma visão criativa clara.
Diversão também é inovação
Nem toda inovação nos jogos precisa ser uma nova tecnologia, um mapa gigantesco ou um sistema revolucionário.
Às vezes, inovar é simplesmente encontrar uma maneira diferente de fazer algo familiar.
Denshattack! não inventou os jogos de plataforma, os sistemas de combos, os desafios de pontuação ou as manobras radicais. O que ele faz é combinar tudo isso de uma maneira que eu nunca tinha experimentado.
E essa combinação produz uma sensação cada vez mais rara: a de estar descobrindo alguma coisa.
Não porque todos os elementos sejam inéditos, mas porque eles nunca tinham sido colocados juntos daquele jeito.
Jogar Denshattack! me lembrou que videogames podem ser brinquedos estranhos. Podem experimentar, exagerar e abraçar ideias que parecem ridículas em uma primeira apresentação. Nem todo jogo precisa querer ser uma franquia de dez anos, um universo transmídia ou a próxima grande tendência do mercado.
Alguns jogos podem simplesmente querer ser muito divertidos.
Mais jogos deveriam correr esse risco
Eu nunca pensei que fosse me importar com um jogo sobre trens.
Agora, quero melhorar meus combos, encontrar novos caminhos e descobrir qual será a próxima situação completamente absurda que Denshattack! vai colocar na minha frente.
Esse talvez seja o maior elogio que eu possa fazer ao jogo.
Denshattack! é tudo aquilo que a indústria de jogos deveria buscar com mais frequência: uma obra inventiva, divertida, cheia de referências e, ainda assim, completamente dona da própria identidade.
Ele não tem vergonha de parecer estranho.
Não tem medo de ser exagerado.
E não tenta convencer o jogador de que é importante antes de ser divertido.
Em uma indústria que frequentemente escolhe repetir o que já funcionou, Denshattack! prova que ainda existem muitos caminhos novos a explorar.
Mesmo quando todos eles estão sobre trilhos.