Antes do Summer Eletrohits, Manaus já estava na pista
Da Zona Franca às boates da época com o House Amazônico, a relação da capital amazonense com a e-music começou muito antes da coletânea da Som Livre – e ajuda a explicar por que, 20 anos depois, novas gerações continuam transformando essa memória em festa

O primeiro Summer Eletrohits chegou às lojas em janeiro de 2005 e transformou em CD uma seleção da dance music que dominava pistas, rádios, televisão e, em pouco tempo, quartos de adolescentes em todo país. Mas no caso de Manaus/Amazonas, essa história encontrou uma pista de dança que já estava bastante aquecida e preparada.
Muito antes de a Som Livre estampar “Summer Eletrohits” em uma capa de CD, a capital amazonense construía uma relação particular com a música eletrônica. E uma das principais pistas para entender essa relação está num lugar aparentemente distante dos clubes: a Zona Franca de Manaus.
Criada sob seu atual modelo em 1967, a Zona Franca transformou Manaus em um dos principais polos industriais de eletroeletrônicos do país. Mas seus efeitos não ficaram apenas dentro das fábricas. A circulação de produtos importados e o acesso facilitado a equipamentos e discos daquela época ajudaram a criar condições particulares para quem queria ouvir, e depois tocar, aquilo que chegava das pistas internacionais.
Raidi Rebello, um dos nomes históricos da discotecagem amazonense, lembra que essa facilidade já podia ser percebida nos anos 1980. Lojas de discos e equipamentos que surgiam na cidade, tiveram papel importante na formação da cena eletrônica local.
“No início dos anos 70 não tinha muita opção. A partir do final daquela década e durante os anos 80 e 90, a Zona Franca possibilitou adquirir muitos equipamentos para DJs e casas noturnas, como amplificadores de alta potência, mixadores e caixas de som. Também abriram diversas lojas de discos importados, o que facilitou bastante para os DJs.”
Foi nesse cenário que a noite manauara começou a ganhar novas pistas, sons e personagens. Ary Guedes, Graciano Rebello e Luciano Matheus são alguns dos nomes que marcaram época e construíram a identidade sonora dos clubes amazonenses, que passaram a invadir as rádios e o entretenimento local.
Dance Festival (1995): festival gratuito de música eletrônica realizado no Anfiteatro da Praia de Ponta Negra, em Natal (RN).
“Na primeira metade dos anos 80, o advento dos discos importados impulsionava as noites e discotecas de Manaus. Em 1986, comecei uma parceria com o Cheik Club, onde organizava festas todos os fins de semana e investia bastante em som, iluminação, projetores e telões. Foi ali que o freestyle se estabilizou como um grande estilo musical, tornando o clube musicalmente diferente das outras casas de Manaus. Na época, também cheguei a assumir um programa de rádio chamado Dance Mix que existe até hoje.”
Bancrevea Club – O maior Club do Norte do Brasil (1995 )
É também nesse passado que aparece uma expressão curiosa para quem pesquisa a história da música eletrônica brasileira: o House Amazônico. O termo foi usado pelo antropólogo Hermano Vianna ao tratar da cena desenvolvida em Manaus. O gênero é perpertuado hoje em dia por festas como ARHE, Muira Sessions, k99999, Studio 3 e Cadência, que seguem dando novas pistas para o dance feito na Amazônia.
Herança de uma geração
LLLuaninha chegou a essa história muito tempo depois, já como DJ e produtora de uma geração que herdou aquelas pistas. Ela é uma das grandes responsáveis pela educação musical dos milleniuns manauaras, e se aprofundou cada vez mais nessa pesquisa com o resgate histórico:
“Eu conheci o termo House Amazônico através de um amigo que também é DJ e produtor musical. A partir daí, fiquei curiosa e comecei a pesquisar mais, principalmente pelo Facebook, que foi onde encontrei mais informações e registros sobre a cena daquela época. O que mais me chama atenção é perceber que já existia em Manaus uma produção e uma identidade muito próprias dentro da música eletrônica. Não era simplesmente reproduzir o que estava acontecendo em outras partes do país ou do mundo; havia uma maneira particular de fazer e viver essa música na cidade.”
Quando os anos 2000 chegaram, portanto, havia uma nova geração pronta para continuar essa história. Mazika Hall, Café Cancun, Crocodilo’s e outras casas entraram para a memória de quem viveu aquele período. Foi também quando a coletânea lançada nacionalmente encontrou terreno especialmente fértil e um público que sonhava em ocupar essas boates, mas por ainda não possuir a idade, frequentavam as chamadas “matinês”.
Avenue matinê no Amazonas.
O Summer Eletrohits não ensinou Manaus a gostar de música eletrônica. Talvez tenha acontecido justamente o contrário: encontrou uma cidade que já sabia muito bem o que fazer quando ouvia aquele som. E, se existe uma memória que ajuda a entender a força que aqueles CDs tiveram na época, ela está justamente na geração que cresceu ouvindo suas músicas. Para LLLuaninha, as primeiras lembranças não são de uma grande pista, mas dos aniversários das amigas durante o colégio.
“É uma lembrança muito afetiva de uma época em que a gente ainda era muito jovem e estava descobrindo o mundo, as amizades e a nossa própria identidade. A dança era uma das nossas principais formas de conexão. A gente não precisava saber quem era o DJ, qual era a vertente ou sequer entender muito sobre música eletrônica. Bastava tocar aquela música para todo mundo reconhecer, cantar junto e ir para a pista. Era uma experiência muito coletiva.”
Anos depois, aquela lembrança acabaria se voltando para a pista. Em 2022, LLLuaninha criou em Manaus a Summer Eletrizante, transformando o repertório dos anos 2000 em uma festa que reúne tanto quem viveu aquele período quanto quem chegou depois.
“A festa nasceu desse desejo de transformar uma memória individual em uma memória coletiva. A nostalgia é o ponto de partida, mas não é o único elemento. Não queríamos simplesmente reproduzir uma festa dos anos 2000 ou fazer uma espécie de ‘baile de flashback’. Os DJs têm liberdade para trazer suas próprias referências e misturar as faixas do Summer com outras vertentes que fazem sentido para a pista atual. A gente resgata a memória, mas não fica presa a ela. A Summer Eletrizante vira uma experiência contemporânea, com a identidade e a energia da noite manauara”
De exportador para importador da dance music
No meio dessa linha do tempo, Manaus não ficou apenas de um lado da pista. Depois de décadas recebendo discos e referências de fora, uma artista amazonense entrou na própria franquia que havia virado símbolo daquela geração: Lorena Simpson, com “Brand New Day”, integrou o Summer Eletrohits 6.
A virada de chave veio na parceria com o DJ e produtor Filipe Guerra. No mesmo CD em que estavam Black Eyed Peas, David Guetta com Kelly Rowland, Lady Gaga, Swedish House Mafia e LMFAO, também estava uma cantora saída diretamente da capital amazônica.
Lorena se apresentando em 2010 em Belém/PA
É uma história que ajuda a tirar Manaus do lugar de simples consumidora desse movimento, composto principalmente por artistas internacionais. A cidade também construiu sua própria relação com aquele som e as gerações posteriores continuam se encontrando nela.
E talvez esteja aí a resposta para entender por que Manaus nunca superou completamente o Summer Eletrohits: quando a coletânea chegou por aqui, encontrou uma cidade que já estava na pista havia muito tempo.
Quer descobrir mais sons que traduzem o Brasil e a América Latina de hoje? Continue acompanhando a GINGA, a vertical de música do Catraca Livre, e siga @gingacatraca no instagram para não perder nenhum lançamento.