O custo das bets ficou alto demais

Os sites e aplicativos das bets autorizadas começaram a sair do ar no Brasil depois que a medida provisória editada pelo presidente Lula, no último dia 6, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. A esta altura, a discussão – inevitavelmente política – já está posta.

Porém, é preciso dar dois passos para trás.

Uma pesquisa do Datafolha, publicada em abril, indicava que 46% dos usuários afirmavam apostar para obter renda extra e ajudar a pagar as contas.

Acontece que apostas não são investimento, e isso por uma questão matemática: a maioria dos apostadores, no médio e no longo prazo, terá menos dinheiro após realizar muitas apostas do que tinha antes da primeira “fezinha”. O motivo é a lei dos grandes números: quanto mais vezes um evento aleatório é repetido, mais os resultados observados tendem ao valor esperado.

Resumindo: se você jogar cara ou coroa, pode dar cara nas primeiras cinco oportunidades. Ao repetir o jogo outras mil vezes, a proporção entre os dois lados tende a se aproximar de 50%. Nas bets, contudo, as odds incorporam uma margem para a casa. Com o passar do tempo, essa diferença joga matematicamente a favor da operadora.

Por isso, apostas são, na prática, entretenimento. E esse é justamente o tema de Quadro.

QUADRO
Você está lendo uma amostra de Quadro, newsletter gratuita sobre os negócios da indústria do entretenimento — cinema, streaming, TV, games, mídia, creators, publicidade e tecnologia. Assine em quadro.news para receber as próximas edições na caixa de entrada do seu e-mail.
Segundo análise da DW, bets apareceram em 60% dos painéis publicitários ao redor dos campos no Brasileirão de 2024; na rodada final, chegaram a 70% – reprodução/DW
Segundo análise da DW, bets apareceram em 60% dos painéis publicitários ao redor dos campos no Brasileirão de 2024; na rodada final, chegaram a 70% – reprodução/DW

O paralelo com a pandemia

O segundo passo é entender o impacto da proibição. A medida pode parecer inusitada e realmente criar uma instabilidade jurídica, como muitos defendem, mas a ideia de restringir uma indústria do entretenimento por questões de saúde pública não é exatamente nova. Aconteceu justamente na pandemia da covid-19.

Naquele momento, por questões de saúde pública, boa parte do entretenimento ao vivo e presencial foi impactada. Cinemas tiveram que fechar, assim como parques, clubes, feiras, exposições e muito mais. Milhões foram afetados, entre frequentadores e trabalhadores. Pessoas ficaram sem seus empregos. A mídia e as plataformas digitais perderam anunciantes. Parte do público ficou sem ter o que fazer.

Contudo, o objetivo maior era salvar vidas. Mais de 7,1 milhões de mortes por covid-19 foram oficialmente notificadas à Organização Mundial da Saúde – e a própria OMS estima que o número real seja maior. No Brasil, foram registradas oficialmente mais de 716 mil mortes. Mais do que números, eram nossos pais, filhos, irmãos, vizinhos, colegas de trabalho, chefes, famosos, amores de uma vida…

Esse total poderia ser menor se outras iniciativas tivessem sido tomadas, mas também muito maior se os fechamentos não tivessem ocorrido. O ponto é que, ainda que existam negacionistas, o isolamento social funcionou.

Naquele momento, havia também o pano de fundo eleitoral. O ano de 2020 foi de eleições municipais, mas, ainda assim, houve muito debate em nível federal sobre as restrições e seus reflexos econômicos e sociais.

Guardadas as devidas proporções, dá para transportar o tema de saúde pública para o momento atual. A comparação não é perfeita: naquele caso, tratava-se de uma emergência sanitária e de restrições temporárias; agora, de proibir uma atividade econômica. Ainda assim, existe uma lógica comum de reduzir o acesso a algo diante dos danos que pode causar.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Unifesp, de abril de 2025, 10,9 milhões de brasileiros apresentavam padrão de jogo de risco, e 1,4 milhão tinha padrão compatível com transtorno do jogo, a chamada ludopatia, com prejuízos sociais ou financeiros. Os dados fazem parte do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito para o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

Da mesma forma como ocorreu em 2020, um dos argumentos contrários é o de que o fechamento apenas fará com que as pessoas busquem meios ilegais. Vimos, na pandemia, festas e eventos com aglomeração de pessoas, sim. Contudo, o movimento social e o atrito tiveram efeito para a maioria das pessoas. Além disso, no ambiente digital, essa fricção é ainda mais impactante: chaves Pix podem ser bloqueadas e links para esses sites se tornam obscuros.

O fim da hiperestimulação

Outro ponto, específico do caso de agora, é o fim da hiperestimulação. Um brasileiro comum estava sendo bombardeado por um número incontável de propagandas na TV, na internet, no mobiliário urbano e muito mais, com influenciadores e famosos usando sua imagem para divulgar oportunidades imperdíveis ou mostrar como era fácil apostar.

Para uma parte do público, isso simplesmente acabou. Para os 10,9 milhões que jogam de forma considerada de risco, as primeiras semanas serão as mais difíceis – mas contarão com um ambiente com menos estímulos para apostar.

Existe, claro, quem compare com a malfadada Lei Seca dos Estados Unidos, aquela que proibiu a produção, venda e transporte de bebidas alcoólicas entre 1920 e 1933. Para além do vício, a metáfora ignora que o bar possui uma função social, na qual a bebida alcoólica ocupa mais o papel de ferramenta do que a de protagonista.

O buraco deixado na mídia e no esporte

Uma questão é que a MP tirou, de uma hora para a outra, todo um segmento importante de anunciantes. Até poucos dias atrás, sites de apostas estavam entre os grandes financiadores da televisão e do esporte, comprando cotas e patrocinando clubes. O ranking do Ibope Advertising Intelligence coloca 15 empresas do setor entre os 300 maiores anunciantes do Brasil em 2025, com um investimento total de R$ 3 bilhões.

O problema maior é realmente a transição abrupta. Ainda assim, a mídia e o esporte existiam antes da chegada das bets e podem sobreviver à ausência delas. Já vimos, no passado, ondas de segmentos que tomavam a publicidade de assalto, perdendo relevância ou sumindo pouco depois. Inclusive, essa era a direção das próprias bets: após a consolidação do mercado no Brasil, o valor investido provavelmente cairia significativamente. A MP transformou uma tendência que seria gradual em uma interrupção quase instantânea.

Um exemplo prático de como lidar com isso vem da Fórmula 1. A categoria máxima do automobilismo se desenvolveu por décadas com o dinheiro das companhias de cigarro, com as marcas estampadas em seus carros. Quando os países passaram a proibir a publicidade de tabaco, as equipes partiram em busca de outros bolsos.

A solução não veio apenas com o dinheiro de big techs e financeiras: ao longo dos anos, a F1 também buscou maior controle dos gastos e novas fontes de receita.

A Ferrari foi a última equipe de F1 a contar com o patrocínio de cigarros – hoje, quem ocupa o mesmo espaço é uma empresa de tecnologia – Reprodução/Internet
A Ferrari foi a última equipe de F1 a contar com o patrocínio de cigarros – hoje, quem ocupa o mesmo espaço é uma empresa de tecnologia – Reprodução/Internet

E o dinheiro que deixa de ir para as bets?

Mas, como em qualquer moeda jogada ao alto, há sempre o outro lado. Dados do Ministério da Fazenda revelam que as casas de apostas receberam R$ 318 bilhões em depósitos entre janeiro de 2025 e junho de 2026.

Só em 2025, foram R$ 220,6 bilhões em depósitos. Depois do pagamento de prêmios, R$ 36,9 bilhões ficaram com as operadoras como GGR (Gross Gaming Revenue). No mesmo ano, cerca de 25,2 milhões de brasileiros adultos apostaram, o equivalente a um gasto líquido médio de R$ 122 mensais por apostador, segundo cálculo apresentado pelo BTG.

É muito dinheiro deixando de circular em outras áreas da economia. Com a proibição, parte dele pode voltar para outras categorias de consumo – e modalidades de entretenimento como cinema, streaming, parques e muito mais também disputarão uma parcela desse valor.

No médio prazo, é razoável apostar – com perdão do trocadilho – que algumas empresas desses setores assumam o posto deixado pelas bets entre os grandes anunciantes do país.

No final das contas, a forma, o momento e o prazo podem ser discutíveis, mas, diante do tamanho da repercussão social, a proibição é o melhor caminho para a sociedade como um todo. E, como dizem: “É melhor um fim horroroso do que um horror sem fim”.

QUADRO

Quer receber as edições completas de Quadro? A newsletter acompanha os movimentos que estão mudando a indústria do entretenimento, de streaming e cinema a mídia, creators, games e publicidade. Assine grátis em quadro.new