Ano de eleição, games e política: o que tem a ver?

Quando falamos em ano eleitoral, é comum que o debate público se concentre em temas como saúde, educação, segurança, emprego e infraestrutura. E é natural que seja assim. Mas existe uma agenda que ainda aparece pouco nas propostas de governo, apesar de fazer parte da realidade de milhões de brasileiros: games, esportes eletrônicos, tecnologia e economia digital.

Jovem participa de atividade no Hub Digicom
Jovem participa de atividade no Hub Digicom - Divulgação/Digicom.

A pergunta que precisamos fazer é: onde os eSports entram nas políticas públicas?

Durante muito tempo, o poder público enxergou os jogos eletrônicos quase exclusivamente como entretenimento. Enquanto isso, o setor cresceu, criou profissões, movimentou eventos, desenvolveu comunidades, atraiu marcas e abriu oportunidades em áreas que vão muito além do jogador profissional.

Hoje, falar de games significa falar também de programação, design, audiovisual, marketing, produção de eventos, transmissão, criação de conteúdo, comunicação, gestão, tecnologia, empreendedorismo e inúmeras outras atividades profissionais.

E é exatamente por isso que games e política têm tudo a ver.

O esporte tradicional não cresceu sozinho

Quando observamos o esporte tradicional, percebemos que existe toda uma estrutura construída ao longo de décadas para possibilitar a formação de atletas.

Existem competições escolares, federações, clubes, centros de treinamento, programas de incentivo, bolsas para atletas, equipamentos públicos, projetos sociais, recursos de leis de incentivo, patrocínios e políticas de formação.

Um jovem que demonstra talento no futebol, no atletismo, no judô ou em diversas outras modalidades pode encontrar, ainda que com muitas dificuldades, algum caminho institucional para desenvolver esse potencial.

Nos esportes eletrônicos, essa estrutura ainda é muito limitada.

Temos milhares de jovens jogando e sonhando em competir profissionalmente, mas poucos possuem acesso a orientação, treinamento adequado, acompanhamento psicológico, competições organizadas e conhecimento sobre como funciona o mercado profissional.

Não podemos esperar que uma modalidade se profissionalize apenas pela força das comunidades, das empresas e dos próprios jogadores.

Se queremos profissionalização, precisamos construir estrutura.

Computadores do Hub digicom.
Computadores do Hub digicom. - Divulgação/Digicom.

Política pública não é simplesmente realizar campeonato

Esse é um ponto que considero fundamental.

Criar políticas públicas para eSports não significa simplesmente contratar computadores e realizar um campeonato uma vez por ano.

Uma política estruturada precisa pensar em uma jornada.

Ela pode começar dentro das escolas, com atividades de iniciação e competições escolares. Depois, oferecer formação, orientação profissional, acompanhamento psicológico, espaços adequados de treinamento e competições municipais e estaduais.

Também precisamos discutir mecanismos de financiamento e fomento.

Por que projetos de esportes eletrônicos ainda enfrentam tantas dificuldades para acessar recursos públicos? Por que ainda existem gestores que não sabem em qual secretaria colocar os eSports? Esporte? Cultura? Juventude? Ciência e Tecnologia? Desenvolvimento Econômico?

Talvez a resposta seja justamente compreender que os games são transversais.

Eles podem dialogar com todas essas áreas.

Não estamos falando apenas de formar jogadores

Talvez esse seja um dos maiores equívocos quando se discute investimento público em eSports.

Uma política pública para o setor não deve existir apenas para descobrir o próximo grande jogador profissional.

Para cada atleta competindo, existe uma cadeia de profissionais trabalhando ao redor daquela competição.

São narradores, comentaristas, árbitros, administradores de campeonatos, social media, designers, produtores, técnicos de transmissão, desenvolvedores, fotógrafos, videomakers, profissionais de marketing, gestores e empreendedores.

Portanto, quando aproximamos os jovens desse ecossistema, também estamos falando de qualificação profissional e geração de oportunidades dentro da economia digital.

É possível utilizar aquilo que já desperta o interesse de uma geração como porta de entrada para educação, tecnologia, empreendedorismo e mercado de trabalho.

Em ano eleitoral, precisamos perguntar sobre essa agenda

Se os candidatos querem dialogar com a juventude, precisam também compreender os ambientes onde essa juventude está.

Não basta aparecer em uma feira geek, tirar uma fotografia segurando um controle ou publicar alguma coisa sobre games durante a campanha.

Precisamos perguntar:

Qual é a proposta para a economia dos games?
Existirão programas de formação para jovens?
As escolas terão projetos de esportes eletrônicos?
Teremos campeonatos escolares estruturados?
Existirão centros públicos ou programas de treinamento?
Haverá editais e mecanismos de financiamento para projetos de eSports?
Como os pequenos organizadores, equipes e profissionais serão incentivados?
Essas são discussões de política pública.
E precisam entrar definitivamente na agenda dos municípios, dos estados e do Governo Federal.

Uma indústria com enorme potencial precisa ser tratada como estratégia

O Brasil possui algo extremamente valioso: uma comunidade gigantesca apaixonada por jogos.

Temos jogadores, consumidores, criadores de conteúdo, desenvolvedores, organizadores, equipes e eventos. Existe uma cultura gamer consolidada no país.

O que ainda precisamos fortalecer é a estrutura que transforma todo esse potencial em desenvolvimento econômico, formação profissional e oportunidade.

E isso exige planejamento de longo prazo.

O poder público não precisa controlar os eSports. Precisa criar condições para que o ecossistema possa crescer: infraestrutura, formação, regulamentação adequada, financiamento, incentivo, pesquisa, competições de base e conexão com escolas e universidades.

Porque existe uma diferença enorme entre um setor simplesmente crescer e um setor ser desenvolvido estrategicamente.

Os eSports brasileiros já provaram que conseguem crescer.

Agora precisamos decidir até onde queremos chegar.