Esportes eletrônicos descentralizados: o que acontece fora do Sudeste?

Por muito tempo, falar sobre o mercado brasileiro de games e esportes eletrônicos significou olhar quase automaticamente para São Paulo e Rio de Janeiro. Grandes organizações, patrocinadores, campeonatos, estúdios e oportunidades profissionais se concentraram no Sudeste, criando uma impressão equivocada: a de que o cenário competitivo brasileiro também nascia ali. Não nasce.

O talento está espalhado pelo Brasil. O que ainda não está igualmente distribuído são estrutura, investimento, formação e oportunidade. E talvez seja justamente aí que esteja uma das discussões mais importantes para o futuro dos esportes eletrônicos brasileiros: como descentralizar o ecossistema e permitir que um jovem não precise sair do Nordeste para descobrir até onde seu talento pode chegar?

O Nordeste já joga — e joga em alto nível

Quando falamos sobre descentralização, não estamos falando sobre criar artificialmente um cenário onde ele não existe. Estamos falando sobre dar estrutura a um cenário que já existe.

Jogadores com troféu da Digicom em evento de Free Fire.
Jogadores com troféu da Digicom em evento de Free Fire. - Divulgação Digicom

O Nordeste tem comunidades competitivas, organizações, desenvolvedores, produtores de eventos, criadores de conteúdo e, principalmente, uma enorme quantidade de jogadores. E temos exemplos concretos de talentos nordestinos que romperam a barreira regional.

No Free Fire, essa força ficou especialmente evidente. Ainda em 2019, quando o Corinthians conquistou o Mundial da modalidade, três dos cinco jogadores da equipe campeã eram nordestinos. Maranhão, Pernambuco, Paraíba e Bahia já apareciam como celeiros de talentos, com nomes como Kroonos, Fixa e Level Up.

E isso não ficou restrito a uma geração ou a uma modalidade. O Nordeste revelou profissionais, campeões, streamers e criadores que chegaram aos principais cenários competitivos do país e do mundo.

No Rio Grande do Norte, temos também histórias que ajudam a entender esse processo. Pablo Roberto, o Peter, começou participando de uma competição de Free Fire em Natal, através da Liga Digicom, chamou atenção dentro do cenário e posteriormente seguiu carreira profissional. Aos 17 anos, precisou se mudar para São Paulo para atuar profissionalmente.

Essa história é bonita, mas também provoca uma pergunta: quantos “Peters” existem hoje no Nordeste que ainda não encontraram a mesma oportunidade?

O problema nunca foi falta de talento

Talvez tenhamos passado tempo demais discutindo onde estão os melhores jogadores quando deveríamos estar perguntando onde estão as oportunidades para esses jogadores.

Um jovem de Natal, Recife, Fortaleza, João Pessoa, Salvador, Maceió ou São Luís pode jogar diariamente contra atletas de qualquer parte do Brasil. No servidor, a geografia praticamente desaparece. Quando ele desliga o computador, ela volta.

É nesse momento que aparecem as diferenças: onde ele vai treinar? Quem vai orientá-lo? Onde estão as competições presenciais recorrentes? Como ele conhece treinadores, organizações e profissionais do setor? Onde aprende sobre preparação psicológica, comunicação, gestão de carreira e comportamento profissional? Onde encontra oportunidades além da carreira de atleta?

Porque profissionalizar os esportes eletrônicos não significa simplesmente organizar mais campeonatos. Significa construir ecossistema.

No Rio Grande do Norte, uma tentativa de mudar essa lógica

Foi justamente observando essa lacuna que construímos, ao longo dos últimos anos, parte do trabalho da Digicom.

Em janeiro de 2026, a Digicom inaugurou em Natal, com apoio do Sebrae-RN, o primeiro HUB de Games e eSports do Nordeste, concebido não apenas como espaço para jogar, mas como estrutura permanente voltada à profissionalização, formação, empreendedorismo e conexão com oportunidades estaduais, regionais e nacionais.

Essa diferença é importante. Não precisamos apenas de arenas que acendam as luzes no dia de um campeonato e desapareçam quando o último jogador vai embora. Precisamos de estruturas permanentes.

O HUB trabalha justamente nessa perspectiva: oferecer ambiente para treinamento, atividades organizadas, integração com a comunidade, competições e desenvolvimento de jogadores e equipes. Há também uma frente escolar, aproximando os esportes eletrônicos do ambiente educacional.

Jogadores com troféu da Digicom de Free Fire.
Jogadores com troféu da Digicom de Free Fire. - Divulgação Digicom

É uma iniciativa regional, mas que representa uma discussão nacional. Se queremos descentralizar os esportes eletrônicos, precisamos criar infraestrutura onde os talentos estão.

E não é apenas o Rio Grande do Norte

Existe um movimento acontecendo fora do eixo tradicional que merece muito mais atenção. O próprio levantamento do Ministério da Cultura sobre o ecossistema audiovisual mostra ações estaduais de fomento ao desenvolvimento ou à formação em games em diferentes partes do Nordeste entre 2019 e 2024.

Ao mesmo tempo, os dados revelam desigualdades importantes entre estados e municípios, mostrando que essa estruturação ainda está longe de acontecer de maneira uniforme.

Isso mostra duas coisas: existem iniciativas e ainda precisamos transformá-las em políticas, programas e estruturas continuadas. Um edital isolado ajuda. Um campeonato ajuda. Um grande evento ajuda. Mas nenhum deles, sozinho, constrói uma cadeia.

Descentralizar também significa criar profissão

Há outro erro quando pensamos nesse assunto: imaginar que desenvolver os esportes eletrônicos no Nordeste significa apenas formar jogadores profissionais. O mercado é muito maior.

Um ecossistema regional fortalecido pode gerar oportunidades para árbitros, narradores, comentaristas, produtores, administradores de campeonatos, designers, social medias, desenvolvedores, profissionais de transmissão, técnicos, analistas, psicólogos, gestores, criadores de conteúdo e empreendedores.

O crescimento do setor no Rio Grande do Norte, por exemplo, já vem sendo associado a oportunidades em eventos, criação de conteúdo, desenvolvimento de jogos, marketing, transmissão, psicologia esportiva e prestação de serviços.

Portanto, quando uma cidade investe nesse ecossistema, não está simplesmente financiando pessoas para jogar videogame. Está entrando em uma cadeia ligada à tecnologia, economia criativa, educação, entretenimento, inovação e juventude.

O talento não deveria precisar migrar para existir

Talvez essa seja a principal reflexão. Durante décadas, diferentes setores criativos brasileiros reproduziram a mesma dinâmica: o talento nasce em todas as regiões, mas precisa migrar para os grandes centros para conseguir estrutura e oportunidade. Os esportes eletrônicos não precisam repetir esse modelo.

Naturalmente, atletas continuarão mudando de cidade para defender organizações profissionais — assim como acontece no futebol tradicional. Esse não é o problema. O problema é quando o jovem precisa sair de sua região antes mesmo de ter a oportunidade de se desenvolver.

Precisamos permitir que um jogador descubra seu potencial em Natal. Que tenha uma competição em Recife. Que encontre formação em Fortaleza. Que participe de um projeto escolar em uma cidade do interior. Que encontre investidores, eventos e organizações em Salvador, João Pessoa, Maceió, São Luís, Teresina ou Aracaju.

E que, quando chegar uma proposta profissional, ele saia porque conquistou uma oportunidade — não porque permanecer em sua região significaria não ter nenhuma.

O próximo grande nome pode estar jogando longe dos grandes centros

Existe uma geração inteira treinando neste momento. Em computadores simples, celulares, lan houses, quartos compartilhados, escolas, universidades, centros de treinamento e pequenos campeonatos locais.

Alguns deles serão atletas profissionais. Outros serão desenvolvedores, produtores, narradores, empreendedores ou gestores dessa indústria. Mas talento sozinho não constrói carreira. É preciso oportunidade.

Por isso, descentralizar os esportes eletrônicos brasileiros significa fazer uma pergunta muito maior do que “onde estão os melhores jogadores?”. Precisamos perguntar: quantos talentos o Brasil ainda não descobriu simplesmente porque as oportunidades continuam concentradas geograficamente?

O Nordeste já provou que sabe produzir jogadores capazes de chegar ao cenário profissional e até ao topo do mundo. Agora precisamos construir condições para que esses talentos não sejam apenas exceções que conseguiram atravessar as barreiras. Precisamos construir um cenário em que eles sejam consequência de uma base forte.

Porque o futuro dos esportes eletrônicos brasileiros não pode depender apenas do que acontece no Sudeste. O Brasil gamer é muito maior do que o eixo onde historicamente concentramos os holofotes. E talvez o próximo grande passo do nosso mercado seja justamente aprender a olhar para onde eles ainda não estão apontados.