Marco Legal dos Games: o reconhecimento precisa chegar a quem faz os eSports acontecerem

Para quem treina atletas, organiza campeonatos e mantém projetos de esportes eletrônicos funcionando, o valor de uma mudança na legislação está nas oportunidades que ela ajuda a construir. O reconhecimento precisa chegar à estrutura de treinamento, à formação profissional, à continuidade dos projetos e às condições de trabalho de quem sustenta o setor.

O Marco Legal dos Games, instituído pela Lei nº 14.852/2024, e sua regulamentação representam um avanço nesse caminho. O Decreto nº 13.138, de outubro de 2026, reconhece expressamente os esportes eletrônicos como manifestação esportiva competitiva e prevê sua integração às políticas públicas do esporte, observadas as condições da legislação aplicável. Verifique aqui.

PL nº 2.796/2021 é de autoria do deputado federal Kim Kataguiri
PL nº 2.796/2021 é de autoria do deputado federal Kim Kataguiri - Reprodução/Câmara dos Deputados

Na minha avaliação, esse avanço dá mais legitimidade para buscar apoio em âmbito nacional, estadual e municipal, tanto no poder público quanto na iniciativa privada. Federações, ligas, equipes e projetos locais passam a contar com uma referência institucional mais clara para apresentar propostas, defender parcerias e demonstrar que os eSports merecem espaço nas agendas de desenvolvimento.

Isso fortalece o diálogo com uma prefeitura, um governo estadual, uma empresa ou um possível patrocinador. Ajuda a fundamentar pedidos de apoio, reconhecimento, fomento e políticas para o setor. Entretanto, o reconhecimento não garante recursos: cada programa, parceria ou mecanismo de incentivo continuará tendo requisitos próprios. Verifique aqui.

É justamente nesse ponto que a qualidade da implementação se torna decisiva. Uma política pode ser bem apresentada no papel e continuar distante de quem precisa dela. Se os caminhos de acesso forem pouco divulgados, excessivamente burocráticos ou incompatíveis com a realidade das iniciativas locais, o avanço terá alcance limitado.

Na prática, ainda será exigido muito do esforço individual de quem faz o esporte eletrônico acontecer em cada realidade. É o organizador que procura espaço, o treinador que acompanha os primeiros passos de uma equipe, a liderança que reúne parceiros e o responsável pelo projeto que precisa explicar repetidamente por que aquela atividade merece investimento.

O trabalho continuará árduo. Elaborar propostas, comprovar resultados, negociar apoios e manter atividades regulares seguirá exigindo tempo, conhecimento e persistência. A mudança oferece mais fundamento para essa busca, mas precisamos construir condições para que a continuidade dos projetos dependa cada vez menos do sacrifício pessoal de poucas pessoas.

Presidente Lula
Presidente Lula - Foto: Ricardo Stuckert

Por isso, é imprescindível escutar quem está na ponta. Quem organiza uma competição no interior conhece dificuldades que nem sempre aparecem em uma reunião nacional. Quem trabalha com estudantes sabe o peso do transporte, da falta de equipamentos e da dificuldade de acesso à internet. Quem forma jogadores acompanha os obstáculos que podem interromper uma trajetória antes mesmo da primeira oportunidade.

Essa escuta precisa influenciar decisões: os critérios dos editais, a distribuição dos recursos, os formatos de formação e as prioridades dos investimentos. Convidar representantes locais para uma conversa só terá valor se suas contribuições puderem modificar o que será executado.

A própria regulamentação estabelece a descentralização territorial como diretriz do fomento ao setor de jogos eletrônicos. O desafio é transformar essa orientação em acesso efetivo, com oportunidades que alcancem diferentes regiões e iniciativas em distintos estágios de desenvolvimento. Verifique aqui.

Se as decisões, os recursos e as oportunidades continuarem concentrados nos mesmos centros e grupos, pouca coisa mudará para grande parte do país. Precisamos fortalecer circuitos regionais, projetos escolares, espaços de formação e profissionais que já estão construindo resultados, muitas vezes com estrutura limitada.

Também precisamos reconhecer a cadeia que sustenta os eSports. Ao redor do jogador existem treinadores, narradores, profissionais de transmissão, comunicação, design, produção e gestão. Fomentar esse conjunto amplia as possibilidades de trabalho e permite que mais pessoas construam uma carreira no setor, inclusive depois da trajetória competitiva.

O reconhecimento institucional fortalece nossa capacidade de buscar apoio. Agora, a implementação precisa demonstrar que esse avanço pode alcançar quem já está trabalhando. Seu resultado será percebido na continuidade de um projeto, na melhoria de uma estrutura e na oportunidade que chega a um jovem. Para isso acontecer, quem constrói os esportes eletrônicos diariamente precisa participar das decisões sobre o seu futuro.