Muito além do teclado: os eSports criaram um mercado onde o jogador é apenas o começo

Por muitos anos, o sonho de quem passava horas jogando era um só: tornar-se jogador profissional. Hoje, esse sonho continua vivo, mas já não é o único. Os esportes eletrônicos amadureceram e deram origem a um mercado que precisa de muito mais do que atletas para continuar crescendo.

Há quem ainda enxergue os eSports como um grupo de jovens reunidos em frente a um computador. A realidade, porém, é bem diferente. Um campeonato de League of Legends, Valorant, Counter-Strike ou EA FC é um verdadeiro espetáculo de entretenimento, tecnologia e comunicação, movimentando profissionais das mais diversas áreas.

Assim como uma partida de futebol não acontece apenas por causa dos jogadores em campo, um campeonato de eSports depende de dezenas — às vezes centenas — de pessoas trabalhando nos bastidores.

Competições de eSports mobilizam jogadores e uma ampla equipe de profissionais responsáveis pela produção e transmissão dos eventos.
Competições de eSports mobilizam jogadores e uma ampla equipe de profissionais responsáveis pela produção e transmissão dos eventos. - Acervo Digicom / Foto: Junior Barreto

O atleta é apenas a ponta do iceberg

Naturalmente, o jogador continua sendo o protagonista. É ele quem treina diariamente, desenvolve habilidades técnicas, trabalha o aspecto psicológico e representa sua organização nas competições.

Mas basta olhar ao redor de qualquer grande evento para perceber que existe uma enorme estrutura sustentando aquele espetáculo.

Antes mesmo do primeiro clique, alguém organizou o campeonato. Alguém desenvolveu a identidade visual. Outro profissional negociou os patrocinadores. Houve quem montasse a transmissão, preparasse o palco, produzisse o conteúdo para as redes sociais e planejasse toda a experiência do público.

É uma engrenagem complexa, e em constante crescimento.

Quem faz o jogo acontecer?

Enquanto os jogadores disputam a vitória, existe uma verdadeira seleção de profissionais atuando nos bastidores.

Os casters, por exemplo, transformam uma partida em entretenimento. Não basta narrar. É preciso emocionar, explicar estratégias, contextualizar jogadas e criar conexão com quem acompanha a transmissão.

Ao lado deles estão os analistas, responsáveis por estudar estatísticas, identificar padrões e traduzir decisões táticas para o público.

As equipes também contam com coaches, que planejam treinamentos, estudam adversários e ajudam atletas a evoluírem dentro e fora do jogo.

E existe um detalhe que muita gente ainda desconhece: grandes organizações já possuem psicólogos esportivos, preparadores físicos, nutricionistas e fisioterapeutas, porque entenderam que desempenho competitivo depende tanto da mente quanto do teclado.

Existe carreira para quem nunca será jogador

Jogadores trabalham ao lado de analistas e integrantes da comissão técnica para definir estratégias durante competições de eSports.
Jogadores trabalham ao lado de analistas e integrantes da comissão técnica para definir estratégias durante competições de eSports. - Acervo Digicom / Foto: Junior Barreto

Talvez essa seja a maior transformação dos esportes eletrônicos.

Nem todo apaixonado por games será um atleta profissional — e tudo bem.

Há espaço para quem gosta de fotografia, audiovisual, design gráfico, programação, administração, marketing, jornalismo, produção de eventos e criação de conteúdo.

Designers, social media, produtores, fotógrafos, desenvolvedores e jornalistas também fazem parte dessa indústria. Enquanto uns constroem a identidade das equipes e aproximam organizações de seus torcedores, outros organizam campeonatos, registram momentos históricos, desenvolvem plataformas para torneios e contam as histórias que acontecem por trás das partidas.

O Brasil ainda está construindo esse mercado

Embora o cenário brasileiro tenha evoluído muito nos últimos anos, ainda existe um enorme desafio: mostrar às famílias e às escolas que os eSports podem representar muito mais do que lazer.

Hoje, competições escolares já demonstram que os jogos eletrônicos também desenvolvem competências como liderança, raciocínio lógico, comunicação, tomada de decisão e trabalho em equipe.

Ao mesmo tempo, eventos regionais fortalecem talentos locais e aproximam jovens de um mercado que cresce ano após ano.

Não é por acaso que cada vez mais universidades oferecem cursos voltados para games, tecnologia e economia criativa.

O futuro já começou

Durante muito tempo perguntavam aos jovens: “Você quer ser jogador profissional?”

Talvez a pergunta correta, daqui para frente, seja outra:

“Em qual área dos esportes eletrônicos você quer trabalhar?”

Porque os eSports deixaram de ser apenas um jogo.

Hoje, eles são uma indústria.

E, como toda grande indústria, precisam de narradores, designers, programadores, gestores, psicólogos, produtores, fotógrafos, jornalistas e empreendedores.

O jogador continua sendo a estrela.

Mas o futuro dos esportes eletrônicos será construído por todos aqueles que fazem o espetáculo acontecer antes, durante e depois do “GG”.