Mulheres nos eSports: do crescimento das comunidades ao protagonismo feminino
Com mais de 2 mil integrantes, a comunidade Mulheres no e-Sports amplia a representatividade no cenário nacional, enquanto lideranças nordestinas mostram que as mulheres também estão à frente da construção do mercado gamer brasileiro
Durante muito tempo, falar sobre mulheres nos games significava falar, principalmente, sobre ausência. Ausência nas competições, nas transmissões, nas equipes profissionais, nos cargos de liderança e nos espaços em que as decisões do mercado eram tomadas.
Essa realidade vem mudando. Ainda há muito a avançar, mas iniciativas criadas e lideradas por mulheres estão demonstrando que a representatividade não acontece apenas quando uma jogadora conquista um campeonato ou uma profissional assume um cargo importante. Ela também é construída diariamente por meio de comunidades, redes de apoio, capacitação, empreendedorismo e geração de oportunidades.
Um exemplo desse movimento é a comunidade Mulheres no e-Sports (MNE), que acaba de lançar seu novo site oficial. A plataforma reúne a trajetória, os dados e as possibilidades de parceria de um coletivo que já conecta mais de 2 mil mulheres em todo o Brasil.
Mais do que uma página institucional, o novo site representa uma etapa de amadurecimento da comunidade. A MNE está presente no Discord, WhatsApp, Instagram, X, YouTube e LinkedIn, mantendo diferentes canais de comunicação, convivência e troca de experiências.
Os números ajudam a compreender quem são essas mulheres. A maioria das integrantes é jovem: 85,7% têm entre 18 e 34 anos, sendo que a faixa de 25 a 34 anos representa 62,3% do público. O computador aparece como a plataforma de jogo preferida, seguido pelo celular e pelos consoles.
Esses dados são importantes porque ajudam a desconstruir a ideia ultrapassada de que mulheres não fazem parte do público gamer. Elas jogam, competem, produzem conteúdo, trabalham nos bastidores, desenvolvem projetos, lideram organizações e movimentam economicamente o setor.
Da conexão digital às oportunidades reais
A expansão da MNE não está acontecendo apenas em número de participantes. A comunidade já reúne mais de dez marcas parceiras, entre elas FÚRIA, POCO, Trident, Rede Ronaldo, Lótus HUB, The Gaming Era, Na Mira Delas, Trexx, e-Sports Brasil e WIBR.
Em julho, o projeto alcançou outro marco importante: realizou sua primeira campanha publicitária paga, desenvolvida em parceria com a POCO para testar o smartphone POCO X8 Pro.
Pode parecer apenas mais uma ação comercial, mas ela representa algo muito maior. Quando uma empresa investe diretamente em uma comunidade feminina, reconhece não apenas sua capacidade de comunicação, mas também sua relevância, sua influência e seu potencial de consumo.
A profissionalização de iniciativas como essa é fundamental. Projetos voltados à diversidade precisam de visibilidade, mas também necessitam de investimento, estrutura e sustentabilidade para continuar crescendo.
Outro avanço foi a realização do Encontrão Mulheres no e-Sports, primeira atividade presencial da comunidade. O encontro reuniu jogadoras, criadoras de conteúdo e profissionais de diferentes áreas dos games, da tecnologia e dos esportes eletrônicos.

Sair do ambiente digital e ocupar espaços presenciais fortalece vínculos, amplia conexões profissionais e aproxima as participantes do mercado. Para muitas mulheres, estar em um ambiente onde encontram outras pessoas com experiências semelhantes também gera acolhimento, confiança e pertencimento.
O protagonismo feminino também cresce no Nordeste
A transformação do mercado gamer não acontece apenas nos grandes centros do país. No Nordeste, mulheres também estão liderando projetos, organizando competições, formando talentos e aproximando os esportes eletrônicos da educação, da tecnologia, do empreendedorismo e das políticas públicas.
Um dos principais nomes desse movimento é Tábata Diniz, CEO da Digicom e presidente da Federação de Esportes Eletrônicos do Rio Grande do Norte (FERN). Pioneira no desenvolvimento dos eSports no Nordeste, ela atua no segmento desde 2016 e lidera iniciativas voltadas à estruturação e à profissionalização desse mercado na região.
Ao longo dessa trajetória, diversos talentos e atletas foram revelados pela Liga Digicom, que se consolidou como uma importante porta de entrada para jogadores que buscavam espaço, experiência competitiva e oportunidades de crescimento no cenário dos esportes eletrônicos.
A atuação de Tábata também alcançou o campo das políticas públicas, contribuindo para a aprovação de projetos de lei destinados ao reconhecimento e ao fortalecimento do segmento. Em 2026, ela inaugurou o primeiro Hub de Games e eSports do Nordeste, criando uma estrutura permanente para treinamentos, competições, formação profissional, empreendedorismo e desenvolvimento de novos talentos.
Esse trabalho fez com que Tábata assumisse uma posição de liderança no movimento de fortalecimento dos games e dos eSports no Nordeste, conectando atletas, organizações, empresas, instituições públicas e iniciativas educacionais.
Em setembro de 2026, essa trajetória recebeu mais um importante reconhecimento: Tábata conquistou o primeiro lugar na categoria Tecnologia do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, representando justamente o segmento de games e esportes eletrônicos.

A premiação ultrapassa uma conquista individual. Ver uma mulher nordestina ser reconhecida por seu trabalho nesse setor demonstra que os games também são espaços de inovação, desenvolvimento econômico, impacto social e empreendedorismo feminino.
Sua trajetória mostra ainda que a presença das mulheres nos eSports vai muito além das competições. Elas também estão na gestão, na produção, na formação de atletas, na criação de políticas públicas e na construção das estruturas necessárias para transformar o cenário regional.
Representatividade precisa gerar participação
Não basta colocar mulheres em campanhas publicitárias e afirmar que o setor é diverso. A verdadeira inclusão acontece quando elas encontram oportunidades para competir, trabalhar, empreender, liderar e construir carreiras.
Isso passa pela realização de campeonatos inclusivos, programas de formação, mentorias, painéis, redes de contato e iniciativas que aproximem talentos femininos das organizações e das marcas.
Como afirma Sofia Bedeschi, presidente e fundadora da MNE: “Toda mulher merece enxergar que existe um lugar para ela na indústria de games. É por isso que existimos.”
Essa frase resume um desafio fundamental. Antes de ocupar um espaço, uma menina ou uma mulher precisa conseguir se imaginar nele. E essa percepção nasce quando ela encontra referências, conhece outras profissionais e percebe que não está sozinha.
Com o novo site, a MNE também disponibiliza seu mídia kit, reunindo informações sobre a comunidade e possibilidades de ativação para empresas, como campeonatos temáticos, produção de conteúdo, programas de embaixadoras e participação em grandes eventos.
Esse é um passo importante para aproximar as marcas de um público ativo e engajado. Entretanto, é essencial que as empresas entendam que apoiar mulheres nos eSports não deve ser apenas uma iniciativa pontual ou uma campanha realizada em datas comemorativas. Esse compromisso precisa ser contínuo.
Uma transformação construída em rede
O crescimento da comunidade Mulheres no e-Sports e o reconhecimento de lideranças femininas no Nordeste mostram a força que surge quando mulheres se conectam, ocupam espaços e criam suas próprias oportunidades.
O mercado gamer brasileiro somente alcançará todo o seu potencial quando for capaz de acolher a diversidade do público que já faz parte dele. Quanto mais mulheres estiverem competindo, produzindo, empreendendo e liderando, mais plural, criativo e inovador será esse ecossistema.
A representatividade feminina nos eSports avançou, mas ainda não chegou ao ponto de podermos deixar de falar sobre ela. Precisamos continuar destacando projetos que abrem portas, reconhecendo mulheres que fazem a diferença e fortalecendo redes capazes de ajudar outras profissionais a entrar e permanecer no cenário.
Porque criar um lugar para as mulheres nos games não significa pedir espaço em uma indústria que não lhes pertence. Significa reconhecer que elas sempre fizeram parte desse universo — do Nordeste a todas as regiões do Brasil — e agora estão cada vez mais organizadas para ocupar o protagonismo que também é delas.