O Brasil não precisa descobrir os eSports. Precisa decidir o que quer fazer com eles.
O Brasil não precisa mais descobrir os esportes eletrônicos.
Eles já estão aqui.
Temos jogadores brasileiros reconhecidos internacionalmente, organizações profissionais, grandes competições, eventos, comunidades apaixonadas, empresas, criadores de conteúdo e milhões de pessoas que consomem games diariamente.
Depois de tantos anos acompanhando o desenvolvimento desse cenário, acredito que a discussão precisa avançar.
A pergunta já não deveria ser “os eSports são relevantes?”.
A pergunta deveria ser:
O que o Brasil pretende fazer com todo esse potencial?
Porque talento nós temos. Público também. O que ainda precisamos construir é uma estrutura capaz de transformar talento em oportunidade, oportunidade em carreira e carreira em desenvolvimento esportivo e econômico.
E, para isso, precisamos falar seriamente sobre políticas públicas.
Quando observamos o esporte tradicional brasileiro, existe uma estrutura que muitas vezes passa despercebida por quem acompanha apenas os grandes campeonatos. Antes de um atleta chegar a uma seleção brasileira, a um campeonato nacional ou ao alto rendimento, existe uma longa cadeia responsável por permitir que aquele talento seja descoberto, formado e desenvolvido.
Existem competições escolares, projetos sociais, clubes, associações, federações estaduais, confederações, centros de treinamento, técnicos, programas de formação, bolsas para atletas, patrocínios, leis de incentivo, editais, recursos públicos e privados e uma série de mecanismos de fomento.
O atleta profissional que aparece na televisão é apenas a ponta dessa estrutura.
Nos esportes eletrônicos, queremos chegar ao mesmo resultado sem, muitas vezes, termos construído o caminho até ele.
E esse é um dos grandes problemas do nosso cenário.
Nenhum esporte forte começa no profissional
Vamos pensar no futebol.
Antes de um jogador chegar a um grande clube, existem escolinhas, categorias de base, campeonatos municipais e estaduais, observadores técnicos, treinadores e inúmeras competições onde talentos podem ser identificados.
No vôlei, no basquete, no judô, na natação ou no atletismo, encontramos estruturas semelhantes.
O jovem começa na escola, em um projeto, em um clube ou em uma associação. Participa de competições. É acompanhado. Evolui. Pode receber uma oportunidade em uma estrutura maior e, gradativamente, chegar ao alto rendimento.
Não significa que o sistema seja perfeito. Longe disso.
Mas existe uma compreensão consolidada de que não se forma atleta começando pelo topo da pirâmide.
Por que nos esportes eletrônicos deveria ser diferente?
Hoje temos grandes campeonatos profissionais de eSports, organizações reconhecidas, transmissões para milhões de pessoas e atletas brasileiros competindo internacionalmente.
Mas onde está a nossa base?
Mas onde está a nossa base? Onde estão os campeonatos escolares permanentes e os centros de formação? Como funcionam hoje os programas de iniciação? Quem está capacitando os treinadores? Que programas públicos existem para a descoberta de talentos? E onde estão os centros de treinamento acessíveis para aquele jovem que possui talento, mas não tem um computador adequado em casa? Essa estrutura precisa existir.
Precisamos construir a pirâmide esportiva dos eSports
Um esporte não pode depender apenas de sua elite.
Imagine uma pirâmide.
Na base, temos milhares de jovens tendo contato com a modalidade por meio das escolas, projetos sociais, centros esportivos e programas de iniciação.
Depois, começam as competições escolares, municipais e regionais.
Os atletas que demonstram interesse e desempenho encontram programas de formação e centros de treinamento.
Na sequência, competições estaduais e nacionais aumentam o nível técnico e proporcionam visibilidade.
E, no topo, estão o alto rendimento e o cenário profissional.

Essa lógica já é compreendida no esporte tradicional.
Nos eSports, ainda tentamos frequentemente pular diretamente da primeira para a última etapa.
Um jovem joga bem em casa e precisa, praticamente sozinho, encontrar uma maneira de ser percebido por uma organização profissional.
Isso não é política de formação de atletas.
É contar com a sorte de que os melhores talentos consigam sobreviver às barreiras existentes.
Talento sem oportunidade continua sendo apenas potencial
Existe uma frase que considero fundamental quando falamos sobre desenvolvimento esportivo: talento está em todos os lugares; oportunidade, não.
Um jovem pode ter enorme potencial competitivo e morar em uma cidade onde nunca aconteceu um campeonato de eSports.
Um jovem pode possuir habilidade, mas não ter um computador adequado. Também pode ter potencial para competir profissionalmente e não conhecer um treinador, nunca ter participado de uma seletiva ou sequer saber que existem caminhos profissionais dentro daquele universo. No esporte tradicional, políticas de base procuram justamente diminuir essa distância entre talento e oportunidade. Os esportes eletrônicos precisam fazer o mesmo.
E é por isso que falar de políticas públicas também significa falar de democratização do acesso.
Fomento não é gasto. É construção de base.
Quando o poder público investe no esporte tradicional, existem diferentes mecanismos para isso.
Há editais, convênios, programas esportivos, bolsas, leis de incentivo, cessão de equipamentos públicos, apoio a competições, formação profissional e financiamento de projetos.
Nos eSports, precisamos avançar para que esses instrumentos também contemplem, de maneira consistente, iniciativas estruturantes.
Precisamos de financiamento para programas de iniciação.
Fomento para competições escolares.
Apoio para centros de treinamento.
Recursos para formação de técnicos, árbitros e gestores.
Incentivo à pesquisa sobre performance e saúde dos atletas.
Programas de inclusão digital que permitam o acesso de jovens que não possuem equipamentos.
Editais para organizações que desenvolvem projetos de formação continuada.
E mecanismos para que empresas possam investir no desenvolvimento dos esportes eletrônicos com segurança e planejamento.
Se queremos atletas profissionais, precisamos financiar o caminho que forma esses atletas.
Um centro de treinamento é tão importante nos eSports quanto em qualquer modalidade
Quando pensamos em um atleta de alto rendimento tradicional, ninguém questiona a necessidade de estrutura. Um nadador precisa de uma piscina; um atleta de atletismo, de uma pista; um jogador de futebol, de um campo; e um ginasta, dos equipamentos necessários para treinar.
Um ginasta precisa de equipamentos.
E um atleta de esportes eletrônicos também precisa de infraestrutura adequada.
Computadores capazes de executar os jogos competitivamente, internet de qualidade, periféricos, ambiente de treinamento, acompanhamento técnico e condições adequadas para desenvolver performance.
Por isso, centros de treinamento de eSports não devem ser vistos simplesmente como “salas com computadores”.
Podem ser espaços de formação esportiva.
Neles, o atleta pode aprender sobre estratégia, comunicação, trabalho em equipe, disciplina, rotina de treinamento, análise de desempenho, saúde, comportamento e carreira.
É exatamente essa estrutura que permite transformar alguém que simplesmente joga bem em alguém preparado para competir profissionalmente.
O esporte tradicional também financia seus talentos
Outro ponto que precisamos discutir com maturidade é financiamento.
Formar um atleta custa dinheiro.
No esporte tradicional, isso é compreendido.
Existem clubes, patrocinadores, bolsas, programas governamentais, incentivos fiscais e investimento privado ajudando atletas a permanecerem treinando e competindo.
Nos eSports, ainda existe uma expectativa de que o jovem faça praticamente tudo sozinho.
Ele compra seu equipamento.
Paga sua internet.
Treina em casa.
Paga inscrições e deslocamentos quando necessário.
Constrói suas redes sociais.
Procura campeonatos.
Tenta ser visto por organizações.
E ainda precisa descobrir sozinho como transformar tudo isso em carreira.
Esse modelo naturalmente exclui quem possui menos recursos.
Se quisermos falar seriamente sobre inclusão nos esportes eletrônicos, precisamos falar também sobre financiamento da base.
A escola pode ser uma das principais portas de entrada

O esporte escolar possui um papel histórico na descoberta de talentos.
Os eSports podem seguir esse mesmo caminho.
Campeonatos escolares estruturados permitem que milhares de estudantes tenham seu primeiro contato com o ambiente competitivo de maneira orientada.
A escola também oferece algo fundamental: educação.
É nesse ambiente que podemos ensinar que ser atleta de eSports não significa passar horas ilimitadas diante de uma tela.
Significa compreender disciplina, responsabilidade, equilíbrio, saúde mental, desempenho acadêmico, trabalho em equipe e uso consciente da tecnologia.
Podemos criar uma geração que conheça os games não apenas como entretenimento, mas também como esporte, tecnologia, cultura e possibilidade profissional.
Não podemos depender somente das desenvolvedoras
As publishers são fundamentais para os eSports. Elas criam os jogos, desenvolvem os principais circuitos e investem significativamente no cenário competitivo. Mas uma política nacional de desenvolvimento esportivo não pode depender exclusivamente das decisões comerciais de empresas privadas. Um jogo pode deixar de possuir circuito competitivo, uma empresa pode alterar sua estratégia ou até mesmo um campeonato pode deixar de existir. A formação esportiva precisa sobreviver a essas mudanças.
Por isso, precisamos formar atletas de eSports, e não simplesmente jogadores de determinado título. Um atleta preparado aprende comunicação, inteligência emocional, tomada de decisão, disciplina, leitura estratégica, comportamento profissional e gestão de carreira. O jogo pode mudar, mas essas competências permanecem.
Federação, empresa, escola e poder público não são adversários
Os eventos privados possuem seu papel.
Clubes e organizações profissionais possuem seu papel.
Federações e entidades esportivas possuem seu papel.
Escolas e universidades possuem seu papel.
Empresas e patrocinadores possuem seu papel.
E o poder público também precisa assumir o seu.
O objetivo deve ser construir uma estrutura em que essas forças se complementem.
No esporte tradicional, encontramos exatamente essa multiplicidade de agentes. Não existe apenas uma instituição responsável por tudo.
Os eSports também precisam amadurecer dessa forma.
Precisamos parar de financiar apenas o evento e começar a financiar o processo
Grandes competições são importantes. Elas dão visibilidade, movimentam a economia e inspiram novos atletas. Mas uma política pública de eSports não pode começar e terminar no campeonato. Precisamos financiar o que acontece antes dele: formação, treinamento, infraestrutura, pesquisa, capacitação, competições de base, desenvolvimento de técnicos, saúde física e mental, gestão esportiva e tecnologia para acompanhamento de atletas.
Também precisamos pensar no que acontece depois da competição. Quem acompanha aquele talento, registra sua evolução, cria a próxima oportunidade ou conecta aquele atleta a uma equipe? Sem continuidade, realizamos eventos. Não construímos uma modalidade.
O Brasil já tem atletas. Agora precisa construir caminhos.
Talvez essa seja a principal diferença entre o momento atual dos eSports e o futuro que precisamos construir. Hoje, muitos talentos chegam ao profissional apesar da falta de estrutura. O objetivo das políticas públicas deve ser fazer com que eles cheguem por causa de uma estrutura. Precisamos sair de um modelo baseado em exceções para construir um modelo baseado em oportunidades. Isso significa olhar para os esportes eletrônicos com a mesma seriedade com que olhamos para qualquer modalidade que deseja formar atletas de alto rendimento.
Para isso, precisamos de uma base sólida, com centros de treinamento, competições escolares, municipais, estaduais e nacionais, técnicos e profissionais capacitados, acompanhamento multidisciplinar, investimento privado, fomento e financiamento público. E, principalmente, precisamos de continuidade.
Os esportes eletrônicos brasileiros já cresceram muito, impulsionados pela paixão de suas comunidades, pelas desenvolvedoras, pelos empreendedores e pelos próprios atletas. Imagine até onde poderiam chegar se, além de talento e paixão, esses jovens encontrassem uma estrutura preparada para ajudá-los a chegar ao profissional.