José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

Créditos: José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

Ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951
Após os sacrifícios, as penas das aves são colocadas na cabeça da iaô em homenagem ao seu orixá
Salvador, BA

Em 1951, o repórter Arlindo Silva e o fotógrafo José Medeiros registraram a iniciação de iaôs (filhas-de-santo) em um pequeno terreiro na Bahia. A matéria foi publicada na revista "O Cruzeiro" -a mais consagrada da época - e foi o primeiro registro fotográfico de um ritual secreto da religião de matriz africana.

Com o título "As noivas dos deuses sanguinários", a reportagem teve um teor sensacionalista e pejorativo, causando mal estar entre os praticantes do Candomblé, que era visto como caso de polícia na época.

Porém, o poder e o ineditismo das imagens foram mais fortes do que o preconceito reforçado pela edição da revista.

Com fotos em preto e branco, em situação radical de luz, entre cabelos raspados, sacrifício animal, dança e pintura, o fotógrafo conseguiu captar toda a devoção das iaôs.

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Crédito da imagem: José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

Omulu, ou Obaluaê, deus das moléstias, 1955 Bahia

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Ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951 Deitada no chão, após a raspagem dos cabelos e feitas as incisões, a iaô aguarda as ordens da mãe-de-santo Salvador, BA

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    Omulu, ou Obaluaê, deus das moléstias, 1955 Bahia

  • Crédito da imagem: José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

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    Ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951 Deitada no chão, após a raspagem dos cabelos e feitas as incisões, a iaô aguarda as ordens da mãe-de-santo Salvador, BA

O ensaio foi republicado em 1957 no livro "Candomblé", dessa vez com 52 fotos contra 38 publicadas na revista. José Medeiros optou por um tom mais objetivo no texto, que evita polêmicas e desmistifica preconceitos, valorizando a tradição e a beleza da religião.

Quase 60 anos depois da publicação das fotos, o candomblé ainda sofre perseguição religiosa. O Catraca Livre acredita que as fotos de José Medeiros ajudam a combater o preconceito.

Bastidores 

O fotógrafo teve a ideia da pauta após a publicação da matéria "Léss possédéss de Bahia" (As possuídas da Bahia), da revista Paris Match, da França. José Medeiros acreditava que ela reforçava o preconceito e não mostrava o verdadeiro candomblé, somente os rituais públicos.

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Noviça tendo a cabeça raspada durante ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951 Salvador, BA

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Crédito da imagem: José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

Ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951 Noviça pintada com pontos brancos que aludem a Oxalá, deus da criação, e com a pena vermelha (ekodidé) do processo de iniciação. Salvador, BA

  • Crédito da imagem: José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

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    Noviça tendo a cabeça raspada durante ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951 Salvador, BA

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    José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

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    Ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951 Noviça pintada com pontos brancos que aludem a Oxalá, deus da criação, e com a pena vermelha (ekodidé) do processo de iniciação. Salvador, BA

 

Ele teve dificuldades para conseguir autorização dos terreiros tradicionais em Salvador, conseguindo acesso somente a um centro na periferia da cidade, o Mãe Riso da Plataforma.

Além disso, José Medeiros encontrou problemas com o equipamento, pois o cabo de sincronismo do flash quebrou. Em um ambiente escuro, ele utilizou uma técnica manual de exposição, na qual o obturador ficava aberto enquanto o botão estivesse pressionado.
Depois da polêmica, as iaôs não tiveram sua iniciação reconhecida e foram excluídas da religião.

Republicação

O Instituto Moreira Salles republicou o livro com as 52 fotos da primeira edição que os negativos não foram perdidos e outras 13 imagens realizadas entre 1951 e 1957. Veja aqui. 

Também existe uma reprodução menor de todas as páginas da publicação original.

Com informações do artigo Candomblé - Imagens do Sagrado, de Fernando de Tacca. 

Imagens cedidas pelo Instituto Moreira Salles.

Candomblé - José Medeiros from Estúdio Madalena on Vimeo.