Choripán: das ruas e estádios argentinos ao status de queridinho em SP
Símbolo da cultura portenha, o sanduíche atravessa fronteiras, ganha sotaque brasileiro e se reinventa em bares e parrillas da capital
Poucos lanches carregam tanta história quanto o choripán. Criado no fim do século XIX em Buenos Aires, ele nasceu simples e funcional: pão, linguiça quente e chimichurri. Mas nunca foi só comida. Presença constante em jogos de futebol, encontros de trabalhadores e até manifestações políticas, o sanduíche virou um símbolo de identidade popular argentina, desses que unem gente diferente em torno da mesma mordida.
Com o tempo, o choripán deixou as calçadas portenhas e cruzou fronteiras. Em São Paulo, encontrou terreno fértil graças à popularização das casas de parrilla e ao interesse crescente por sabores latino-americanos. Hoje, o “chori” (como muita gente anda chamando carinhosamente o sanduíche por aí) já faz parte da paisagem gastronômica da cidade — não mais apenas como curiosidade importada, mas como um lanche que ganhou novas leituras sem perder a essência.
A adaptação começa pela linguiça. Enquanto o chorizo argentino costuma ser mais rústico e menos temperado, no Brasil entram em cena versões de pernil ou toscana, mais suculentas e alinhadas ao paladar local. O mesmo vale para o chimichurri, que nunca teve receita fixa. Cada casa imprime sua identidade na mistura de ervas, alho, vinagre e azeite, transformando o molho em assinatura afetiva do sanduíche.
No Brazinha, bar anexo ao tradicional O Brazeiro, na Vila Mariana, o choripán segue fiel à tradição. A linguiça vai direto para a brasa, chega ao pão francês ainda quente e recebe chimichurri na medida certa. É um lanche direto, sem excessos, que valoriza o sabor do fogo e funciona perfeitamente para acompanhar um chope e uma conversa sem pressa.

Já no São Conrado Bar, com unidades no Itaim e em Pinheiros, o clássico ganha uma leitura mais brasileira servido no pão francês. Além da linguiça suculenta, entram tomate ralado, maionese e uma camada generosa de queijo gratinado, que derrete e domina o visual do sanduíche. A mistura de crocância, cremosidade e intensidade mostra como o choripán se abriu a novas possibilidades longe das ruas de Buenos Aires.

No Pobre Juan, referência quando o assunto é parrilla argentina no Brasil, o lanche aparece em uma versão mais refinada. Servido no pão de batata, o choripán leva linguiça fininha de pernil, chimichurri e maionese temperada. É a prova de que um sanduíche de origem popular pode ocupar espaço em restaurantes renomados sem perder sua identidade.

Em São Paulo, o choripán vive um novo momento. De comida de rua a item de cardápio disputado, ele dialoga com a cultura do comer com a mão, da informalidade e da socialização, valores cada vez mais caros a uma geração que busca sabor, história e experiências descomplicadas.