Astrônomos confirmam pela primeira vez a existência de uma gigante caverna vulcânica em Vênus
O achado de uma caverna gigante em Vênus revoluciona a ciência e abre caminhos para futuras explorações espaciais hoje.
Dados coletados há mais de três décadas por uma sonda da NASA guardavam um segredo que os cientistas ainda não tinham as ferramentas para revelar. Pesquisadores da Universidade de Trento, na Itália, reanalisaram imagens de radar da missão Magellan e identificaram, pela primeira vez na história, uma enorme caverna vulcânica sob a superfície de Vênus. O estudo foi publicado em fevereiro de 2026 na revista Nature Communications e representa o primeiro registro direto de uma estrutura subterrânea em nosso planeta vizinho.

Onde fica a caverna e qual é o tamanho que surpreendeu os cientistas?
A estrutura foi identificada no flanco oeste de Nyx Mons, um vulcão escudo localizado no hemisfério norte de Vênus, com morfologia semelhante à dos grandes vulcões havaianos. A caverna é classificada como um tubo de lava, formado quando correntes de magma fluem sob uma crosta já solidificada, continuam se movendo internamente e, ao drenar, deixam um túnel vazio dentro da rocha. Em Vênus, esse processo ocorreu em escala que não tem equivalente conhecido no nosso planeta.
O tubo de Vênus tem largura média estimada em 937 metros, teto com espessura mínima de 150 metros e espaço interno vazio com altura de pelo menos 375 metros. Para efeito de comparação, o maior tubo de lava conhecido na Terra, o sistema Corona em Lanzarote, na Espanha, chega a cerca de 28 metros de largura. A estrutura venusiana supera essa marca em mais de 30 vezes. Devido às limitações dos dados da Magellan, apenas a porção inicial da caverna pôde ser observada diretamente; os pesquisadores suspeitam que ela se estenda por dezenas de quilômetros abaixo da superfície.
- 🌋Largura: cerca de 937 metros — mais de 30 vezes a largura do maior tubo de lava conhecido na Terra, o sistema Corona em Lanzarote, na Espanha
- 📏Altura interna: pelo menos 375 metros — o espaço vazio abaixo do teto é comparável à altura de um prédio de 100 andares
- 🛡️Teto com espessura mínima de 150 metros — camada de rocha densa suficiente para proteger o interior das temperaturas de 465°C da superfície venusiana
- 📍Localização: Nyx Mons — vulcão escudo de 362 km de largura no hemisfério norte de Vênus, com morfologia semelhante aos vulcões havaianos da Terra
- 📡Descoberta: dados da missão Magellan (1990-1994) — os mesmos dados de radar coletados há mais de 30 anos, reanalisados com técnicas modernas de processamento de imagem
Como a descoberta foi feita a partir de dados com mais de 30 anos
A missão Magellan da NASA operou em órbita de Vênus entre 1990 e 1994, mapeando 98% da superfície do planeta com um sistema de Radar de Abertura Sintética. Era a única ferramenta capaz de enxergar através da densa camada de nuvens de ácido sulfúrico que cobre Vênus permanentemente, impedindo qualquer observação óptica direta. Os dados foram coletados naquela época, mas a técnica necessária para identificar cavidades subterrâneas a partir dessas imagens só foi desenvolvida recentemente pela equipe do cientista Lorenzo Bruzzone, da Universidade de Trento.
O ponto central da descoberta é uma abertura conhecida como skylight, ou claraboia geológica, formada quando parte do teto de um túnel de lava desaba. O eco duplo das ondas de rádio, ao retornar ao radar, confirmou a presença de uma câmara interna com fundo côncavo e interior vazio. O sinal do radar penetrou pelo buraco no teto, percorreu pelo menos 300 metros dentro do tubo e retornou com a assinatura característica de uma cavidade subterrânea de grande volume.
Por que Vênus forma tubos de lava tão maiores do que os da Terra
A escala colossal do tubo de Nyx Mons não é uma anomalia acidental. Ela reflete condições planetárias específicas que favorecem a formação de cavernas muito maiores do que qualquer coisa possível no nosso planeta. A gravidade de Vênus é ligeiramente menor do que a terrestre, o que permite que a lava flua por distâncias muito maiores antes de solidificar. A crosta venusiana é mais espessa, oferecendo suporte estrutural para tetos de grandes cavidades. E, ao contrário da Terra, Vênus não possui tectônica de placas: em vez de liberar calor interno de forma contínua pelo movimento das placas, o planeta acumula calor e o libera periodicamente em episódios catastróficos de vulcanismo em larga escala, capazes de gerar fluxos de lava com volume e duração suficientes para criar estruturas dessa magnitude.
Por que a superfície de Vênus é um dos ambientes mais hostis do sistema solar
Três condições extremas que tornam a exploração direta praticamente impossível hoje
Temperatura: a superfície de Vênus registra cerca de 465°C, quente o suficiente para derreter chumbo e destruir qualquer eletrônico convencional em questão de horas. As sondas soviéticas Venera, que pousaram em Vênus na década de 1970 e 1980 sobreviveram por no máximo 127 minutos antes de parar de funcionar. Pressão atmosférica: equivalente a 90 vezes a pressão ao nível do mar na Terra, o que corresponde aproximadamente à pressão sentida a 900 metros de profundidade nos oceanos terrestres. Composição atmosférica: a atmosfera é composta principalmente de dióxido de carbono, com nuvens densas de ácido sulfúrico que cobrem o planeta permanentemente e criam um efeito estufa descontrolado.
O interior de um tubo de lava, protegido por mais de 150 metros de rocha, oferece condições significativamente mais estáveis do que a superfície. Não necessariamente habitáveis para humanos, mas suficientemente diferentes para preservar estruturas e minerais que a superfície há muito destruiu, o que transforma essas cavernas em arquivos geológicos do passado de Vênus.
Vênus possui mais vulcões catalogados do que qualquer outro planeta do sistema solar, o que sugere que estruturas como a de Nyx Mons podem ser muito mais comuns do que esse primeiro caso isolado indica. A descoberta, nas palavras do próprio Lorenzo Bruzzone, representa apenas a ponta do iceberg do que os dados da Magellan ainda podem revelar com as ferramentas de análise que existem hoje.

Quais missões futuras a descoberta vai influenciar diretamente
A confirmação de uma caverna vulcânica em Vênus chegou no momento certo para influenciar o planejamento das próximas grandes missões ao planeta. A VERITAS, da NASA, com lançamento previsto para não antes de 2031, e a EnVision, da Agência Espacial Europeia, prevista para o mesmo período, já incluem o mapeamento de estruturas subsuperficiais entre seus objetivos prioritários. A EnVision carregará um radar de penetração de solo capaz de sondar centenas de metros abaixo da crosta venusiana, exatamente a profundidade do tubo de Nyx Mons, o que pode revelar dezenas de outras cavernas ainda invisíveis nos dados da Magellan.
A descoberta também reacende o debate sobre o potencial científico de Vênus. O planeta é frequentemente preterido em favor de Marte no imaginário da exploração espacial, mas sua semelhança de tamanho e composição com a Terra o torna um laboratório fundamental para entender por que dois planetas tão parecidos seguiram caminhos tão radicalmente diferentes. Os tubos de lava gigantes de Vênus são, como definiu a equipe de Trento, cofres do tempo geológico: estruturas que preservam no subsolo os registros de uma história que a superfície infernal do planeta há muito apagou.
Que dados de 30 anos escondam descobertas dessa magnitude é, em si, uma das histórias mais fascinantes da ciência moderna. Compartilhe com quem se interessa por astronomia e exploração espacial.
Referências: Radar-based observation of a lava tube on Venus | Nature Communications