ESG não é campanha publicitária: o que acontece quando empresas fazem promessas e deixam de prestar contas
A pergunta deixou de ser "qual é o compromisso da empresa?" para se tornar "o que aconteceu depois que o prazo venceu?"

O maior risco para o ESG hoje não é a falta de compromissos. É a banalização dos compromissos. Nos últimos anos, empresas de praticamente todos os setores passaram a anunciar metas ambiciosas: carbono neutro, desmatamento zero, diversidade, rastreabilidade, bem-estar animal, economia circular. O movimento é positivo.
Afinal, compromissos públicos ajudam a orientar investimentos, pressionam cadeias produtivas e estabelecem parâmetros objetivos para medir avanços. O problema começa quando esses compromissos passam a ser tratados como peças de marketing. Existe uma diferença fundamental entre comunicar uma meta e assumir responsabilidade por ela.
No momento em que uma empresa divulga publicamente um compromisso, ela deixa de fazer apenas uma promessa institucional. Ela cria uma expectativa legítima em consumidores, investidores, fornecedores, colaboradores e na sociedade.
Essa expectativa não desaparece quando o prazo expira. Ao contrário. Existe um momento em que uma meta pública deixa de ser uma promessa e passa a ser uma dívida de transparência. E é justamente nesse ponto que muitas empresas ainda falham.
O ESG das promessas
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou recentemente o maior levantamento global já realizado sobre práticas empresariais responsáveis. O estudo analisou as 10 mil maiores empresas listadas do mundo e chegou a uma conclusão preocupante: 69% das empresas possuem ao menos um compromisso público relacionado à responsabilidade corporativa. À primeira vista, o dado parece excelente.
No entanto, o mesmo relatório mostra que existe um enorme abismo entre anunciar compromissos e colocá-los em prática. Empresas reportam muito mais políticas e sistemas de gestão (45%) do que ações concretas de due diligence. Menos de 20% informam medidas efetivas para identificar e enfrentar impactos sociais e ambientais.
Cerca de metade afirma utilizar critérios socioambientais para selecionar fornecedores, mas menos de 20% dizem efetivamente avaliar riscos desses fornecedores. Apenas 7% integram esses critérios às práticas de compras da empresa.
Enquanto as empresas divulgam amplamente suas políticas e metas, poucas demonstram ações concretas para identificar, monitorar e corrigir impactos sociais e ambientais em suas cadeias de valor. Em outras palavras: o mercado aprendeu muito bem a comunicar sustentabilidade. Mas, ainda não sabe prestar contas sobre ela. Essa diferença parece sutil, mas muda completamente a credibilidade do ESG.
Porque confiança não é construída quando uma empresa anuncia um compromisso. Ela é construída quando essa empresa demonstra, ano após ano, onde avançou, onde encontrou dificuldades e o que fará para cumprir aquilo que prometeu. Silêncio nunca foi uma estratégia de governança.
Accountability não é opcional
No universo corporativo, existe uma palavra que resume esse princípio: accountability. Ela vai muito além de responsabilidade. Significa prestar contas, explicar resultados, reconhecer dificuldades, comunicar atrasos, e principalmente, assumir consequências.
O mercado não precisa de mais promessas vazias. Precisa de empresas dispostas a responder, com transparência, pelo que prometeram.
Um estudo citado recentemente pela Reuters traz um número impressionante: foram analisadas mais de 1.000 metas corporativas de redução de emissões que venceram em 2020. Das cerca de 400 empresas que não cumpriram ou abandonaram suas metas, apenas três sofreram aumento significativo de apuração na mídia. Enquanto anunciar compromissos rende reputação, deixar de explicá-los ainda custa muito pouco.
O caso do Rei do Mate e a importância da transparência
Essa discussão deixa de ser abstrata quando observamos casos concretos. Em 2017, o Rei do Mate publicou em seus canais oficiais um compromisso claro: até 2025, toda a sua rede trabalharia exclusivamente com ovos 100% livres de gaiolas. Não era uma meta genérica ou uma intenção. Era um compromisso público, com prazo definido.
Em 2026, a empresa passou a destacar em parte de seu cardápio novos produtos elaborados com ovos provenientes de sistemas livres de gaiolas. Mas qual o percentual dos ovos utilizados pela rede já provém de sistemas livres de gaiolas? Quais produtos fazem parte dessa mudança? Quais ainda não fazem?
Durante uma apuração realizada pela Sinergia Animal em diferentes unidades da rede, foi possível verificar que essas respostas não estavam facilmente disponíveis ao consumidor. Em alguns casos, informações sobre produtos recentemente lançados eram destacadas de forma clara, enquanto outros itens do cardápio permaneciam sem o mesmo nível de transparência.
Também foram observadas respostas divergentes entre atendentes quando questionados sobre quais produtos utilizavam ovos de galinhas livres.
“Consumidores não podem ser obrigados a investigar o que uma empresa deveria comunicar com transparência. Se uma marca anuncia um compromisso público, ela também assume a responsabilidade de informar, de forma clara e contínua, qual foi o progresso alcançado e o que ainda falta fazer. Quando o prazo de uma promessa pública expira, o silêncio também se torna uma decisão corporativa. Não existe ESG sem accountability. E não existe accountability sem transparência”, comenta Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil.
Quando uma empresa amplia a comunicação sobre determinados avanços, cresce também sua responsabilidade de comunicar claramente o alcance real dessas mudanças. Especialmente quando existe um compromisso público anterior ainda aguardando esclarecimentos.
Cadeias de suprimentos são o novo centro do ESG
Durante muito tempo, sustentabilidade corporativa era medida quase exclusivamente pelas operações diretas das empresas. Hoje isso mudou. Os maiores riscos estão nas cadeias de suprimentos. É justamente por isso que legislações internacionais e investidores passaram a exigir processos robustos de due diligence, rastreabilidade e gestão de fornecedores.
A OCDE mostra que aproximadamente metade das grandes empresas afirmam utilizar critérios sociais e ambientais na seleção de fornecedores. Mas menos de 20% dizem efetivamente avaliar riscos socioambientais nesses fornecedores. Mais preocupante ainda: apenas 7% afirmam integrar essas políticas às suas práticas de compras.
Esse dado revela uma realidade desconfortável: é relativamente fácil criar políticas. Muito mais difícil é incorporá-las ao funcionamento cotidiano da empresa. O ESG verdadeiro acontece justamente nessa etapa invisível.
Transparência seletiva também gera desconfiança
Outro desafio crescente é o da chamada transparência seletiva. Empresas naturalmente desejam comunicar seus avanços. Não há problema nisso. O problema surge quando apenas parte da informação é facilmente encontrada pelo consumidor, enquanto outras informações relevantes permanecem dispersas, incompletas ou indisponíveis.
Em um ambiente onde consumidores, investidores e reguladores exigem cada vez mais evidências concretas, transparência parcial dificilmente será suficiente. Não basta dizer que um produto atende determinado padrão. Também é importante permitir que o consumidor compreenda o contexto dessa informação.
Qual o alcance da iniciativa? Ela cobre toda a operação? Existe um cronograma público? Qual o percentual já implementado? Essas perguntas não são obstáculos para empresas comprometidas. São instrumentos de construção de confiança.
O futuro do ESG depende menos de promessas e mais de prestação de contas
Talvez o maior erro que empresas possam cometer seja acreditar que o risco reputacional está apenas em não cumprir uma meta. Não está. O verdadeiro risco está em deixar de falar sobre ela. Porque, quando isso acontece, abre-se espaço para dúvidas. E onde faltam informações, surgem interpretações.
A boa governança nunca depende da perfeição. Ela depende da transparência. Empresas que reconhecem dificuldades, apresentam cronogramas revisados, explicam desafios e demonstram evolução costumam preservar sua credibilidade mesmo quando enfrentam atrasos.
Já empresas que simplesmente deixam de atualizar compromissos públicos transferem ao consumidor o trabalho de descobrir o que realmente aconteceu. E esse nunca deveria ser o papel do consumidor.
ESG não será medido pelas promessas mais bonitas
O futuro da sustentabilidade corporativa não será decidido pelas empresas que fizerem os anúncios mais ambiciosos. Será decidido pelas empresas que tiverem coragem de prestar contas quando esses anúncios se tornarem difíceis de cumprir.
Porque compromissos públicos não podem expirar em silêncio. Quando uma empresa convida consumidores a acreditar em uma promessa, ela assume também a responsabilidade de informar, com a mesma clareza, onde chegou, o que conseguiu entregar e o que ainda falta fazer.
No fim, essa talvez seja a maior transformação pela qual o ESG esteja passando. Estamos deixando para trás a era das promessas e entramos na era da comprovação.
E isso é uma boa notícia para os consumidores, investidores e empresas que realmente levam a sustentabilidade a sério. E, principalmente, para a credibilidade do próprio ESG.
Sobre a Sinergia Animal
A Sinergia Animal é uma organização internacional que atua para abolir as piores práticas de manejo animal pela indústria de alimentos.
Presente em diversos países da América Latina e da Ásia, desenvolve campanhas corporativas, pesquisas, diálogo institucional e iniciativas de conscientização que promovem sistemas alimentares mais compassivos, sustentáveis e alinhados às crescentes expectativas da sociedade.
A organização é reconhecida pela Animal Charity Evaluators como uma das organizações de proteção animal mais eficazes do mundo.