Byung-Chul Han, filósofo e vencedor do Prêmio Princesa das Astúrias 2025: “Não há liberdade sob a compulsão da performance.”

A sociedade do cansaço é o nome que Byung-Chul Han deu ao modelo de organização social em que o principal mecanismo de controle não vem de fora

02/05/2026 09:33

Byung-Chul Han não é um filósofo de gabinete. Nascido em Seul em 1959, formado em literatura alemã, teologia e filosofia nas universidades de Munique e Freiburg, ele dedicou décadas a entender o que está acontecendo com as pessoas que vivem no centro do capitalismo digital e não conseguem mais parar. Em maio de 2025, recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, um dos mais importantes reconhecimentos das humanidades no mundo, por uma obra que o júri descreveu como capaz de lançar luz sobre fenômenos complexos do mundo contemporâneo com alcance entre públicos de todas as gerações. A frase que sintetiza seu pensamento é direta: não há liberdade sob a compulsão da performance.

Para Byung-Chul Han, o smartphone é o objeto que melhor simboliza a condição contemporânea
Para Byung-Chul Han, o smartphone é o objeto que melhor simboliza a condição contemporâneaImagem gerada por inteligência artificial

O que é a sociedade do cansaço e por que esse conceito explica tanto?

A sociedade do cansaço é o nome que Byung-Chul Han deu ao modelo de organização social em que o principal mecanismo de controle não vem de fora, mas de dentro. Em sociedades disciplinares antigas, o poder operava pela proibição: havia o que era permitido e o que era vedado, e quem cruzasse a linha seria punido por uma autoridade externa. Na sociedade do cansaço, o mecanismo mudou completamente. O poder opera pela permissão ilimitada: tudo é possível, tudo pode ser feito, e o indivíduo se torna seu próprio explorador. A sensação de liberdade é real, mas o resultado é exaustão, depressão e burnout, doenças que Byung-Chul Han identifica como o panorama patológico característico do início do século XXI.

O argumento central é que o sujeito do desempenho, aquele que se autoimpõe metas crescentes, trabalha mais horas do que qualquer trabalhador explorado de séculos anteriores porque acredita que está fazendo isso por escolha própria. A dominação, quando se disfarça de liberdade, torna-se muito mais eficiente do que qualquer forma de coerção explícita. É por isso que o neoliberalismo, na análise de Han, não precisa de vigilantes externos: o indivíduo se vigia, se cobra e se pune sozinho, com uma eficiência que nenhum sistema disciplinar clássico conseguiria reproduzir.

O que Han pensa sobre smartphones e vida digital?

Para Byung-Chul Han, o smartphone é o objeto que melhor simboliza a condição contemporânea. Em seu discurso ao receber o Prêmio Princesa das Astúrias no Teatro Campoamor de Oviedo, ele afirmou que nos tornamos ferramentas do smartphone: ele nos usa, não o contrário. A inversão é precisa. O dispositivo que foi criado para ampliar a capacidade humana passou a estruturar o tempo, a atenção e as relações de quem o carrega. Han descreve o smartphone como simultaneamente um local de trabalho digital e um confessionário digital, onde o usuário expõe voluntariamente sua vida interior em busca de aprovação.

A crítica ao “like” é uma das mais citadas de sua obra. Para Han, o like é o amém digital: uma forma de validação que substitui o juízo crítico pela confirmação reflexa. As redes sociais não criam debate, criam um espelho onde cada pessoa projeta a versão de si mesma que deseja ver aprovada. Nesse ambiente, a alteridade desaparece. As pessoas deixam de encontrar o outro como diferença real e passam a circular num inferno dos iguais, rodeadas de reflexos de si mesmas, numa bolha que confirma o que já acreditam e amplifica o que já sentem, sem contato real com o que é verdadeiramente exterior.

Como o neoliberalismo produz uma liberdade que esgota?

Em seu discurso em Oviedo, Byung-Chul Han foi direto sobre o paradoxo central do neoliberalismo: hoje pensamos que somos mais livres do que nunca, mas essa liberdade é fictícia. O mundo se assemelha a um imenso shopping center onde tudo pode ser consumido: a rolagem infinita promete informação ilimitada, os aplicativos de namoro prometem amor a um clique, as redes sociais prometem conexão sem fronteiras. A sensação de escolha ilimitada é genuína. O problema é o que ela produz: vazio, incapacidade de empatia e a passagem de um vício para outro sem jamais encontrar satisfação real.

O neoliberalismo, na análise de Han, cria também uma brecha econômica que alimenta o medo. A classe média está caindo, e são exatamente esses medos que levam pessoas aos braços de autocratas e populistas. Não é irracionalidade: é a resposta previsível de quem perdeu referências estáveis de identidade e pertencimento e busca no líder forte o que o mercado livre não oferece. A análise conecta o esgotamento psicológico individual à instabilidade política coletiva, mostrando como os dois fenômenos têm a mesma raiz.

Para Byung-Chul Han, o smartphone é o objeto que melhor simboliza a condição contemporânea
Para Byung-Chul Han, o smartphone é o objeto que melhor simboliza a condição contemporâneaImagem gerada por inteligência artificial

O que Han propõe como saída para o cansaço contemporâneo?

Byung-Chul Han não oferece soluções técnicas nem roteiros de autoajuda. O que ele propõe é filosófico: a recuperação da capacidade de contemplação, de silêncio e de atenção profunda. Em entrevistas, afirmou que as pessoas andam com os ouvidos tapados, incapazes de ouvir o mundo ao redor porque só conseguem escutar a si mesmas, presas em seus próprios egos amplificados pelo smartphone e pelas redes. A saída, para ele, começa por interromper esse circuito de autoexposição e autoexigência, por criar espaços de pausa onde o pensamento possa se desenvolver sem a urgência da performance.

O filósofo se identifica com a figura socrática da mosca que pica o cavalo preguiçoso: seu papel não é dar respostas confortáveis, mas despertar, criticar e perturbar. Ao receber o Prêmio Princesa das Astúrias, ele reafirmou essa missão com clareza. A sociedade do cansaço não se cura com mais eficiência ou mais tecnologia. Ela se cura com menos exposição, mais silêncio e a recuperação do que Han chama de vida contemplativa, a capacidade de estar presente em algo sem calcular o retorno que isso vai gerar.

Por que Byung-Chul Han é lido por tantas gerações diferentes ao mesmo tempo?

O júri do Prêmio Princesa das Astúrias destacou que a obra de Byung-Chul Han encontrou eco amplo entre públicos de diversas gerações, e isso não é acidental. Ele escreve sobre experiências que são simultaneamente muito pessoais e muito coletivas: a sensação de estar sempre correndo sem chegar a lugar nenhum, a dificuldade de manter atenção em algo por mais de alguns minutos, a exaustão que não passa com sono porque não é física, e a solidão que persiste mesmo com centenas de contatos no telefone. Essas experiências não têm faixa etária. Pertencem a quem trabalha, a quem estuda, a quem cria filhos e a quem está na adolescência tentando entender por que sente tanto com tão pouca explicação disponível.

A linguagem acessível de Han, que combina tradições filosóficas do oriente e do ocidente em textos curtos e diretos, também contribui para esse alcance incomum para um filósofo acadêmico. Obras como A Sociedade do Cansaço, Sociedade da Transparência e Psicopolítica não exigem formação prévia em filosofia para serem lidas. Exigem apenas que o leitor esteja disposto a olhar para o que está sentindo e a deixar que alguém coloque palavras precisas nisso, sem prometer que a solução está a um aplicativo de distância.