Cientistas acreditam ter identificado o local de origem do Homo sapiens com nova exatidão unindo fósseis clima e evolução para redesenhar o primeiro capítulo de nossa espécie

A ciência se aproxima cada vez mais de uma resposta sobre onde e como a nossa espécie surgiu na África

Um novo e ambicioso estudo científico cruzou registros de fósseis, ferramentas de pedra e modelos climáticos detalhados para tentar identificar a região onde o Homo sapiens surgiu pela primeira vez na África, há cerca de 300 mil anos, apontando o sul do continente como um forte candidato nessa investigação.

Cientistas acreditam ter identificado o local de origem do Homo sapiens com nova exatidão unindo fósseis clima e evolução para redesenhar o primeiro capítulo de nossa espécie

Por que é tão difícil determinar o berço exato da humanidade?

Os fósseis são extremamente raros e dependem de condições geológicas favoráveis para sobreviver ao tempo. Regiões inteiras podem não ter evidências simplesmente porque ninguém escavou ainda, o que torna o mapa do conhecimento humano incompleto e sujeito a revisões constantes.

O que os pesquisadores concordam é que o Homo sapiens surgiu na África durante um período de intensas mudanças climáticas, aproximadamente há 300 mil anos. Determinar a paisagem exata desse surgimento é difícil porque o continente é vasto e muitas áreas ainda foram pouco estudadas pelos cientistas.

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    Fósseis raros: A preservação de ossos depende do solo e da geologia local, tornando o registro paleontológico fragmentado e irregular em diversas regiões africanas
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    Continente vasto: A África possui áreas enormes ainda pouco exploradas por escavações arqueológicas, o que limita as conclusões dos pesquisadores
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    Clima em transformação: O surgimento da nossa espécie coincidiu com mudanças climáticas intensas, o que complica a separação entre causas ambientais e evolutivas
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    Registros desiguais: Algumas regiões preservaram evidências melhor do que outras, distorcendo a imagem real de onde os primeiros humanos realmente viveram

Como um supercomputador ajudou a mapear a origem do Homo sapiens?

O estudo foi liderado pelo climatologista Axel Timmermann, da Universidade Nacional de Pusan, na Coreia do Sul. Sua equipe utilizou o supercomputador Aleph para simular o clima terrestre ao longo de 2 milhões de anos, gerando cerca de 500 terabytes de dados sobre as condições ambientais do passado.

Cientistas acreditam ter identificado o local de origem do Homo sapiens com nova exatidão unindo fósseis clima e evolução para redesenhar o primeiro capítulo de nossa espécie

Esses dados climáticos foram cruzados com um banco de dados contendo mais de 3.245 registros datados de fósseis e sítios arqueológicos. O resultado foi um conjunto de mapas preditivos que indicam quais regiões africanas reuniram as condições ambientais ideais para o surgimento e a expansão do Homo sapiens há cerca de 300 a 400 mil anos.

O que os ciclos orbitais da Terra têm a ver com a nossa evolução?

As variações climáticas analisadas pelo estudo não foram causadas por atividade industrial, mas por lentas e graduais mudanças na órbita e na inclinação do planeta. Esses movimentos, conhecidos como ciclos de Milankovitch, alteram a distribuição da luz solar ao longo das estações e podem remodelar chuvas e vegetação durante dezenas de milhares de anos.

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A influência dos ciclos orbitais na sobrevivência humana

Como a órbita da Terra moldou os nossos ancestrais

Quando a órbita terrestre se alterava, fontes de água podiam desaparecer, alimentos escasseavam e rotas de deslocamento tornavam-se perigosas. Ao longo de muitas gerações, essa pressão ambiental constante favorecia grupos com maior capacidade de adaptação, cooperação e inovação no uso de ferramentas.

Esse processo de seleção por adaptabilidade é apontado pelo estudo como um dos motores da evolução do Homo sapiens. Como o próprio pesquisador Timmermann resumiu, a espécie humana se tornou o que é porque conseguiu se adaptar repetidamente às transformações do ambiente ao longo de milênios.

Para os primeiros humanos, essas transformações ambientais periódicas tinham consequências diretas e imediatas no cotidiano. Grupos que conseguiam se adaptar com mais rapidez, cooperar entre si e experimentar novas soluções para sobreviver tinham vantagens significativas sobre os demais ao longo de gerações.

  • Deslocamento de fontes de água e recursos alimentares obrigava os grupos a se mover constantemente pelo território
  • A pressão climática favorecia indivíduos com maior capacidade de cooperação e inovação tecnológica
  • Rotas de migração se abriam ou fechavam conforme as condições de chuva e vegetação mudavam ao longo dos séculos

O que os fósseis encontrados em diferentes regiões africanas revelam?

Mesmo com os mapas climáticos, os fósseis continuam sendo a âncora principal da história evolutiva humana. Registros encontrados em Jebel Irhoud, no Marrocos, datam de aproximadamente 300 mil anos e demonstram que capítulos fundamentais da nossa história podem aparecer longe de qualquer suposto ponto de origem único.

a–e, distribuição de espécies africano-eurasiáticas calculada a partir de um modelo de distância Mahalanobis usando dados de envelope climático quadridimensional de temperatura, precipitação e mudanças de NPP topograficamente reduzidas simuladas por 2Ma (Métodos) e as localizações e idades de sítios fósseis e arqueológicos (Tabela Suplementar 1).
a–e, distribuição de espécies africano-eurasiáticas calculada a partir de um modelo de distância Mahalanobis usando dados de envelope climático quadridimensional de temperatura, precipitação e mudanças de NPP topograficamente reduzidas simuladas por 2Ma (Métodos) e as localizações e idades de sítios fósseis e arqueológicos (Tabela Suplementar 1). - Créditos: Nature

No leste da África, os fósseis de Omo Kibish, na Etiópia, foram redatados em 2022 e têm pelo menos 233 mil anos. Somados aos achados do sul do continente, esses registros indicam que os primeiros Homo sapiens não ficaram confinados a um único território por muito tempo, espalhando-se por diferentes regiões africanas.

  • Fósseis de Jebel Irhoud, no Marrocos, com cerca de 300 mil anos, ampliam o mapa do surgimento humano para o norte da África
  • Os restos de Omo Kibish, na Etiópia, reforçam a presença precoce do Homo sapiens no leste do continente
  • O modelo climático do estudo aponta o sul da África como área de habitat adequado durante o período de transição evolutiva
  • A combinação dessas evidências indica uma origem geograficamente ampla, não concentrada em um único ponto

A origem da humanidade foi em um único lugar ou em vários pontos ao mesmo tempo?

A genética vem complicando cada vez mais a ideia de um único berço para toda a humanidade. Um estudo de 2023 apoiou o modelo de uma estrutura ancestral fragmentada, em que populações humanas antigas por toda a África permaneceram conectadas por fluxo genético durante longos períodos, antes de separações mais claras ocorrerem.

Os pesquisadores estimam que a divisão mais antiga ainda visível entre populações humanas atuais ocorreu há aproximadamente 120 mil a 135 mil anos. Isso sugere que uma região pode ter sido um polo evolutivo importante enquanto pessoas e genes circulavam livremente, como em uma grande encruzilhada, e não como uma cidade isolada com fronteiras rígidas.

Referências: Climate effects on archaic human habitats and species successions | Nature